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[Tio Walt - Parte 9] Mary Poppins


Como eu mencionei na resenha dos Quatro Aventureiros, a Regra dos 15 Anos diz que, se você gostava de algo antes dos 15 anos, provavelmente não vai gostar hoje e vai ter vergonha de si mesmo. Caso isso não aconteça, esse filme passou no teste do tempo.

E quando criança, eu fui introduzido a vários clássicos, como Cantando na Chuva, A Noviça Rebelde, Sociedade dos Poetas Mortos (embora eu precise rever, não foi bem um filme que me cativou), Muppets na Ilha do Tesouro, O Mágico de Oz e Jogos de Guerra.
Eu agradeço todos os dias a Deus pela vida e influência do meu pai na minha infância, de verdade. Moleque rréi com 8 anos vendo Sociedade dos Poetas Mortos e ele achando bom, não subestimou minha inteligência.

Mas, dentre todos os filmes, um deles se manteve quieto na minha memória. E cada vez que eu via, eu me maravilhava com ele, e até hoje, mesmo conhecendo esse filme de cabo a rabo, de trás pra frente, de dentro pra fora, de có e salteado, eu ainda me maravilho por encontrar pequenos toques, pequenas coisas que eu não havia notado das outras vezes e que adicionam à experiência.

Poderia ser só mais um filme familiar, mas não. É muito mais que isso. É o filme familiar quintessencial.

Esse texto não é só mais uma parte da retrospectiva de Walt Disney, ou uma resenha. É uma carta de amor a um filme que marcou minha infância, minha adolescência, e continua a me marcar até aos dias de hoje, onde eu percebo na pele a importância de entretenimento pra crianças e como as tratamos. Se ainda não viu esse filme, fique avisado que tem spoilers, mas eu o encorajo a ler mesmo assim, porque eu não acredito que seja algo que vá incomodar.


Senhoras e senhores, Mary Poppins.



Mary Poppins é um filme cujo histórico de produção é tão interessante quando o produto final. Raio, a própria Disney fez uma dramatização sobre isso.
Walt prometeu a suas filhas que ele faria o filme, e insistiu por anos até conseguir os direitos e trazer a autora dos livros, P.L. Travers, pros EUA, pra então ela ficar brigando com todo mundo que quisesse adaptar alguma coisa na adaptação. Mas ela fez algumas mudanças que foram criticamente necessárias, como não transformar o Sr. Banks em um vilão.

O filme conta sobre George Banks, um dos sócios do banco da Inglaterra. Ele tem dois filhos, Jane e Michael, que não tem muita atenção dos pais, porque George é um workaholic que quer passar a impressão de que tem controle sobre o lar; e a mãe Winifred é uma ativista pelo direito do voto feminino. Então, as crianças ficam praticamente o tempo todo com babás, que nunca suportam as crianças, porque aparentemente elas pregam peças nelas.
Nunca vemos de fato, mas é sugerido.

As crianças fazem uma carta com as qualificações da nova babá, onde ela seria bonita, cuidadosa, dentre outras coisas importantes e sutis.


Sr. Banks odeia a idéia, rasga a carta, e manda que publiquem a versão da "babá general". Ao invés disso, aparece Mary Poppins, que recebeu a carta rasgada.

E assim ela leva as crianças em passeios junto de seu amigo Bert, que é de longe um dos meus personagens favoritos de todos os tempos, bem como um dos modelos de seres humanos que eu almejo.
É sério.



Ok, a descrição que eu dou desse filme pode não ser muito boa, e te fazer lembrar de, sei lá, Operação Cupido ou a Noviça Rebelde. De fato, Julie Andrews foi escolhida pra ser Irmã Maria (HA!) durante as filmagens de Mary Poppins.
Mas acreditem em mim, essa idéia tá longe daqui.

Em um dos passeios, Mary acaba levando as crianças e Bert a um dos quadros feitos em giz de cera, onde temos sequências fantásticas como Jolly Holiday e Supercalifragilisticexpialidocius.
Jolly Holiday é onde temos não só uma música agradável de se ouvir, acompanhada com uma das mais belas misturas de live-action com animação que você verá. Mas também exalta algumas características dos personagens de uma forma que não se vê tanto hoje em dia.


Bert fala como Mary é uma pessoa tão amável, tão carinhosa, tão gentil, que o caminho onde ela passa muda pela mera presença dela. E embora eu não duvide que exista de fato gente assim, quando Mary fala de Bert temos algo mais concreto.


Mary destaca como mesmo não tendo nenhuma posse ou nome importante, Bert ainda é um cavalheiro, uma pessoa gentil, que não pressiona ou faz amizade por vantagem. Essas características são o que a faz descrever como "sangue azul", porque elas o dão a aura de nobreza. Mas daqui a pouco eu falo mais a fundo sobre os personagens.


Step in Time é outra sequência fabulosa. Enquanto o passeio no desenho te dá a diversão e interação entre personagens o suficiente (sério, olha pra Mary e Bert em Supercal..., há um nível de cumplicidade e companheirismo ali que é simplesmente incrível), Step in Time te dá a coreografia e letras divertidas e fáceis de acompanhar.

E rapaz, olha o tanto de esforço que esses caras fazem. Toda a sequência levou uma semana pra ser gravada, e tiveram que gravar duas vezes por problemas técnicos com a lente da câmera.
Esses caras fizeram tanto esforço que eu acredito que as dores nas juntas vão ser passadas geneticamente até as próximas quatro gerações, mas eles tão lá, fazendo acrobacias, pulando dando cambalhota, e sorrindo como se fossem crianças com uma cortesia da 50 Sabores.


Conta-se até que durante um dos ensaios da sequência, Walt tava supervisionando a coreografia. Os coreógrafos tiveram que dar uma saída e quando voltaram, encontraram o próprio Walt de cotovelos unidos aos dançarinos seguindo os passos.

E há um equilíbrio fantástico entre os dois momentos, o passeio sendo mais desenvolvimento de relacionamento entre os personagens e claro, dar aquela dose de diversão pras crianças (porque corrida, raposas, pinguins, animação, e Supercal), e Step in Time sendo mais teatral, mas sem deixar de ser meio cartunesco.
Aliás, os pinguins foi idéia de Walt. Nos storyboards, eram garçons comuns, até que Walt disse "garçons me lembram pinguins. Bota pinguins pra serem garçons."

Entre uma coisa e outra, ainda há uma sequência de chá no teto com Ed Wynn, que... É uma das coisas que eu não gosto muito no filme.


Sempre que acaba a música Stay Awake eu já fico "oh, raio, vamo pra sequência mais chata do filme". E... Eu creio estar certo, é uma das sequências mais monótonas do filme, que se resume aos personagens ficarem rindo sem parar, contando umas duas ou três piadas antiquadas, sem nada relevante acontecendo.

Mas ainda assim, tem algo aproveitável. Eu não consigo não apreciar o esforço em fazer acreditar que o que estamos vendo é real. Foram usados vários truques durante a cena, e quando tu naturalmente consegue deduzir um, a cena já corta pra outro efeito diferente, te deixando meio perdido.
Fora que, mesmo com a atuação relativamente fraca de Ed Wynn, ele ainda é divertido à beça, ele tá realmente tentando fazer algo a mais com o personagem, mesmo que seja um momento curto e não muito memorável, comparado aos outros.


Mas de longe, um dos momentos mais memoráveis é a música Feed the Birds. Nela contém a base moral do filme, que basicamente diz pra aproveitar o tempo que temos e ajudar aos outros, nos importar mais com os outros, fazer aquelas pequenas ações de gentileza. E às vezes é algo que não custa nada, mas que pode fazer uma diferença grande.

Eu concordo que a ilustração de alimentar os pombos não seja muito viável hoje, mas eu sempre tento enxergar como uma atividade corriqueira, algo como o pai vai passear com o filho e eles passam aquele tempo ali, alimentando os pombos enquanto conversam, enquanto falam sobre os pássaros, ou algo assim. Isso é valioso, esse tempo entre família, especialmente numa idade tão tenra quanto Jane e Michael. Mas George pensava apenas no futuro deles, tentando convencer Michael a investir os dois pence no banco, pra no futuro receberem de volta com juros e blablabla.


A propósito, essa senhora é Jane Darwell, que atua desde 1913 e fez uma pancada de filme clássico, incluindo ...E O Vento Levou e Vinhas da Ira. Ela morava em uma casa de repouso pra artistas de cinema aposentados, e Walt insistiu que ela fizesse o papel, e ele a tratou como a estrela, incluindo uma limousine pra trazer e levá-la de volta no dia da filmagem. Pondo em prática a moral da própria música.

Aliás, essa era a música favorita de Walt, e foi a música que fez com que PL Travers aprovasse o filme (e não Let's Go Fly a Kite, como mostrado em Saving Mr. Banks). Quando Walt ia visitar os Irmãos Sherman, ele só dizia "toca aí", e imediatamente eles tocavam Feed the Birds.



O que faz esse filme funcionar tão bem são seus personagens. Mary é uma babá mágica, mas além disso ela é incrivelmente doce, generosa, protetora; mas nem por isso deixa de ser firme quando precisa. Mas ao mesmo tempo ela é bastante misteriosa. Ela vem e vai quando quer, sem necessariamente um aviso. Ela nega certos poderes que tem, provavelmente porque só as crianças que devem ser testemunhas disso, sei lá. E Julie Andrews consegue o tom exato da personagem.

Quando ela é carinhosa, tu sente o calor na voz dela. Quando ela tem que ser mais autoritária, ela consegue ser ameaçadora e firme. E quando tem que se despedir das crianças, mesmo que ela diga que não pode amá-las, porque ela não pode amar todas as crianças que ela já cuidou, ela consegue transmitir perfeitamente o sentimento de dor e saudade de uma forma velada. Isso fica ainda mais evidente no final, quando ela vê que seu trabalho foi cumprido, sua expressão é como um misto de satisfação e tristeza.



Bert é outro personagem fascinante. Eu adoro esse cara. É o típico sujeito que faz amizade com todo mundo, tem o maior sorriso, as histórias mais interessantes, e é simplesmente um cara simpático em tempo integral. Mas não só isso, cada vez que o vemos, ele tá com um trabalho diferente. Esse cara provavelmente mora nas ruas, mas ele não liga, ele só quer ganhar aquele trocado diário, perseguir novos desafios talvez, e se dá por satisfeito em ter o que vestir e como respirar.

Olhem pra cara dele, ele não tem onde dormir mas tá com um sorriso do tamanho do Aeroporto de Guarulhos. E ele faz todo trabalho com esse sorriso no rosto, ele é praticamente o Seu Madruga sem a parte da preguiça e mais alegre.



E o verdadeiro protagonista da história, Sr. Banks. George é o cara que ama seus filhos, mas que na real não sabe exatamente que direção seguir. Como quase todo pai, ele se preocupa com o futuro de seus pimpolhos e quer que todas as suas atividades sejam produtivas, o que é perfeitamente correto, ao meu ver.



No entanto, ele perde o foco. Ele esquece de que crianças precisam de diversão, precisam de apoio dos pais, precisam passar tempo com eles. E justamente quem o faz perceber isso é Bert, o cara que não tem um tostão furado no bolso.

Sim, abra a imagem em outra aba pra poder ler.
O contraste fica ainda mais interessante, porque, nesse momento, Banks sabe que vai ser despedido. Ele trabalhou duro sua vida toda, fazendo o que achava que era certo pra sua família. E ele está prestes a ficar talvez na mesma posição de Bert, e é quando a ficha cai, na hora mais exata e necessária.

Um uso excelente da mesma expressão
em outro contexto, mostrando
o quão profunda pode ser.
Se fosse um outro filme qualquer, seria um momento a ser passado batido, mas não aqui. Assim como outros live-actions do estúdio na época (como Old Yeller e... realmente, só consigo lembrar desse), o filme não se intimida em mostrar a realidade. George recebe uma ligação do banco, exigindo sua presença no mesmo instante. E o que temos é uma cena belíssima, onde George caminha solitário, tarde da noite, rumo ao banco. Não há diálogos, não há música cantada, apenas Feed the Birds instrumental e lento, e Banks andando no meio do breu das ruas frias da noite londrina, sentindo todo o peso do inevitável. E há aquele grande momento onde ele para diante do lugar onde a moça dos pássaro estava mais cedo, só que dessa vez, nada mais está lá.



Um dos meus momentos favoritos é quando Jane e Michael estão fugindo do banco, depois de causarem um alvoroço. Eles encontram Bert, que tenta entender a situação, e a sugestão dele é "vamos sentar e conversar sobre isso". E isso é algo que pouca gente faz: conversar com crianças, a sério.
Bert conhecia a família, conhecia os problemas, e só tava esperando a oportunidade pra poder conversar com as crianças e tentar ajudar como possível. Vemos também um dos grandes trunfos do roteiro, que é escrever crianças como crianças reais.


Quando Bert fala sobre George estar preso em uma gaiola, as crianças pensam literalmente, e a coisa mais próxima é a cadeia. E isso é muito real, criança pensa de forma muito concreta, não consegue entender muito bem analogias e metáforas. Mas Bert logo trata de explicar que não se trata de uma gaiola literal, mas de estar preso no trabalho, preso AO trabalho. E assim, o pai delas não consegue dar a atenção devida a Jane e Michael.

Mas também tem o momento em que eu sempre choro. Sim, eu ao menos derramo algumas lágrimas e soluço um pouco.


O que Bert fala é muito palpável, e não só a pais. Eu mesmo já passei por situações parecidas, e eu posso dizer, ajuda é necessária. E nesse momento, as crianças aprendem uma valiosa lição que será útil pro resto da vida.

Ainda sobre Bert, é notável que o sotaque dele é ridiculamente forçado. Mas eu meio que gosto dele. Dick van Dyke parece estar se divertido enquanto faz Bert, e ele tem aquele brilho nos olhos quando ele precisa ser solene, especialmente antes da sequência sobre os telhados.



A produção do filme tem uma história tão interessante quanto à do produto final. Mas praticamente todos os grandes filmes tem essa característica, de O Mágico de Oz a The Room.

Nos documentários, tu nota que é um trabalho de amor, de dedicação, de cuidado. E que embora eu até faça piadas sobre o quão amarga e razinza era P.L. Travers, a presença dela acabou sendo necessária pro filme, caso contrário Sr. Banks seria o vilão e tudo iria por água a abaixo.

Se tiver curiosidade e tempo, vale muitíssimo a pena comprar o DVD duplo, que tem todos os documentários que você precisa. Eu não tenho informações precisas quanto ao blu-ray, se alguém tiver, me avise que eu atualizo aqui.


Lá em cima eu falei que Mary Poppins é o filme familiar quintessencial. Um filme família, ao meu ver, é um dos mais complicados de se fazer. Se tu faz um filme pra criança, tecnicamente não é complicado, há um vasto material que pode ser usado de referência pra fazer legitimamente boas histórias com boas morais pra crianças. O mesmo vale pra filmes mais adultos, embora eles talvez requeiram um pouco mais de desenvolvimento, já que tentam passar idéias e até visuais mais complexos.

Mas um filme familiar precisa agradar a várias faixas etárias ao mesmo tempo, e isso é algo dificílimo. Mary Poppins consegue não só agradar ao público infantil, dando imagens, música e cores atrativas a eles, bem como morais condizentes com suas idades; mas ao mesmo tempo consegue entreter adultos pelos efeitos visuais, pelas técnicas, pelas músicas (algumas que remetem àquele nosso lado mais criança e bobo), pelo esforço da equipe de produção, dos atores, mas também pelo nível de roteiro, de personagens, bem como a moral que os atinge feito uma bazuca. E não só isso, a mensagem pros adultos permanece incrivelmente atual, nessa geração onde as babás contratadas permanecem e dividem espaço com as babás eletrônicas, e os pais passam mais tempo trabalhando pra garantir as coisas aos filhos ao invés de passar tempo com eles.

E quando crescem, eles não conseguem ter um bom relacionamento com eles porque perderam a fase da infância, que é tão preciosa e necessária.


E coisas tão simples poderiam remendar essa situação no momento certo. O filme abre com as crianças atrás de sua pipa, que eles mesmos fizeram porque seu pai não tinha tempo pra fazer com eles, e a pipa acabou rasgada. Com os mesmos dois pence, George consertou a pipa, e Winifred usou a faixa do ativismo como a rabiola da pipa, sendo a perfeita ilustração da família finalmente unida, com cada um sacrificando alguma coisa (mesmo pequena) em prol do todo, em prol da união, como deveria ser em toda família.
E lá vão eles, empinar pipa. Uma atividade tão simples, tão banal, tão barata, mas que vale muito.


Mary Poppins é não só meu musical favorito, não só meu filme da Disney favorito, mas meu filme favorito de todos. Nele tá resumido boa parte do que eu penso que deve ser um entretenimento pra crianças e familiar, ao mesmo tempo.
O único "defeito" que eu poderia apontar é que, pras crianças de hoje, talvez seja um filme muito lento. Crianças abaixo de 6 anos talvez não se interessem muito, o que é normal. O começo é bastante lento e demora até alguma coisa de fato saltar aos olhos delas. Dê um pouco mais de idade e tente mostrar de novo.

Mas mesmo com isso, é um filme lindo, necessário, divertido, e inteligente.

Eu sei que é clichê, mas dane-se. Mary Poppins é um filme praticamente perfeito em todos os sentidos, a verdade é essa.


Walt dizia que esse filme era a maior conquista de sua carreira, e nota-se os motivos. O que o motivava a produzir Mary Poppins era uma promessa a suas filhas, e ele batalhou até o fim pra conseguir os direitos. E ainda teve que enfrentar a autora, que demandava coisas mais ridículas e imbecis que a Emma Watson quando foi procurada pela equipe de La La Land, como tirar os bigodes de George, ou querer que o elenco fosse totalmente britânico. Ao menos nos espetáculos da Broadway ela conseguiu que isso se tornasse realidade, mas né.

Walt se sentia tão apaixonado pelo projeto,que ele foi pessoalmente numa pré-estréia de Mary Poppins, coisa que ele não fazia desde Branca de Neve.
Pois é!

Mas isso não impediu Walt de prosseguir. Esse foi o ponto alto em sua carreira, de fato, mas a vida continua, e havia mais livros a se adaptar. Até num processo similar a Mary Poppins, onde de fato pouca coisa do livro acabou sobrevivendo. O que, claro, não estraga o resultado final, mas veremos com calma.


Oh sim. Mary Poppins Returns estreará em pouco tempo. E essa postagem deve dar uma idéia a vocês do quanto eu NÃO quero que isso aconteça, mas só nos resta torcer que seja ao menos bom, o que vai ser ridiculamente difícil.


Como bônus, deixo dois vídeos do André Rieu, Supercal e Feed the Birds. E eu quero que notem especificamente em Supercal, as reações das pessoas mais velhas. Algumas delas provavelmente viram o filme quando pirralhos, e tão vivenciando aquilo.
Isso é a magia do entretenimento pra mim. Isso é lindo.

[Tio Walt - Parte 8] Freio no Cartão



Bela Adormecida fez sucesso na crítica, mas foi ridiculamente custoso. Os designs muito específicos em alta definição fez com que o retorno do projeto não fosse muito bom, o que levou Walt a demitir maior parte do pessoal pra reduzir custos.


Entretanto, Ub Iwerks, responsável pelos processos especiais e criador da câmera multiplano, fazia experimentos com o processo de xerox. Goliath II foi o teste que o estúdio fez pra ver se era viável.

Após o sucesso do experimento, os animadores apertaram suas mãos tal qual os cientistas da NASA ao descobrirem que em Marte há uma raça de alienígenas governada por um vulcão de bicarbonato, e Walt deu luz verde pro próximo longa: 101 Dálmatas.






Que por algum motivo aqui no Brasil, na época, se chamava A Guerra dos Dálmatas.

Eu nem consigo fazer uma piada com isso.



A história conta sobre Pongo, o dálmata cujo dono é um compositor de músicas que mora num kitnete em Londres. Pongo tá cansado da vida de solteiro, e decide arranjar uma parceira pro seu dono. Graças às Leis da Conveniência Universal, ele encontra uma moça bonita com uma dálmata igualmente bonita.

Eles se casam, os dálmatas tem dalmatinhas, que logo ficam na mira de uma amiga de faculdade da moça, Cruella DeVil. Que com um sobrenome desses, eu imagino que ela tenha algum parentesco com a Rainha Mariana da Branca de Neve.

...hm...
...foco! Tamos falando de dálmatas!

Enfim, Cruella contrata dois capangas pra raptar os dalmatinhas pra fazer um casaco de peles, mas os animais se ajudam, blablabla, latidos, carros, lucros.


O processo de xerox de fato diminiu drasticamente os custos de produção. Antes, os animadores faziam as sequências em papel normal, e então mandavam pros pintores, que iam passar a limpo a animação bruta pra folha de acetato, removendo os traços de rascunho. No entanto, esse era um processo caro e demorado, mas com o processo de xerox adaptado por Ub, era algo quase instantâneo, mas que tinha seus contras.

Por exemplo, a animação final fica com um aspecto mais "sujo", tu nota mais os traços de rascunho dos animadores, e isso pode acabar distraindo um pouco.

A animação em si continua boa, mas tu nota que eles tiveram um orçamento beeeem reduzido. Várias vezes uma animação é reutilizada, às vezes mais de uma vez. Mas isso gerou algumas idéias muito criativas, como fazer o processo de rotoscopia na perseguição dos carros usando modelos de papelão.


Mas infelizmente o filme em si é "meh". Eu diria que é o primeiro longa Disney que me passou esse sentimento (fora os filmes pacote). Pela primeira vez, não consigo sentir aquela empolgação, aquela criatividade, aqueles designs interessantes ou bichinhos fofinhos, como em Dama e o Vagabundo. O único design que é interessante é o da Cruella, e a personagem em si é divertida. Mas ela passa pouco tempo na tela, logo não tem muito o que gostar dela. As motivações dela são quase tão imbecis quanto da Malévola, só que Cruella é bem.. cruel.

Eu queria ver mais de Cruella, pra então ter uma base melhor pra odiar ela, e me divertir odiando ela.

Todos os outros personagens seguem muito o padrão básico, não tem muita surpresa. O que é engraçado, porque foi baseado em um livro, e a autora queria mesmo que o estúdio fizesse um filme sobre o livro. E na opinião dela, eles até melhoraram a história. (O que faz sentido, personagens e conceitos foram cortados ou alterados pra história fluir melhor, e no original tinha bem mais coisa)


Mas a idéia geral que o filme dá é que não foi totalmente pensado. Sente-se que falta algo, falta aquela paixão, aquela emoção dos outros longas. Não há isso aqui, embora o filme tente colocar e até funciona em alguns momentos. Mas é uma história travada, lenta, e o filme não se esforça muito pra que ela se torne interessante.

Agora, eu AMO os cenários desse filme.


Dentre os vários live-actions da época, eu poderia destacar Parent Trap, Absent-Minded Professor (que no Brasil se chama O FANTÁSTICO SUPER-HOMEM) e sua sequência, Son of Flubber. Isso porque eles tiveram reboots ou remakes em tempos recentes, mas eu falo deles outro dia. O filme que eu escolhi falar é um pouco mais divertido e criativo.

Talvez menos desenvolvido, mas né. Babes in Toyland (conhecido na nossa terrinha da pizza com rapadura como O Mundo Encantado dos Brinquedos).



A história se passa em um reino onde vivem os personagens das histórias da Mamãe Gansa. Conhecemos Tom e Mary, que estão prestes a se casar e são o casal mais adorável que você vai ver, e de alguma forma conseguem não ser melosos. Mas Barnaby (interpretado pelo Espantalho) quer casar com Mary, e contrata Sargento Garcia e Bernardo, de Zorro, pra capturar Tom e jogá-lo no mar. Mas o militar dublado pelo Scooby-Doo achou que era uma idéia melhor vender o cara pros ciganos.

O Espantalho chega na casa de Mary, onde a propõe casamento. Daí a história se desenrola, e tem outro plot onde eles vão parar na fábrica de brinquedos do Chapeleiro Maluco, blablabla, nanicolina, brinquedos, lucros.


Ok, comecemos então pelo pontos fracos do filme: os personagens são ridiculamente mal desenvolvidos.

Tom e Mary são a quintessência do casal de contos de fada perfeitinhos, mas nem passar o charme o suficiente eles conseguem. Há muito pouco espaço pros atores fazerem algo de interessante com os personagens, embora eles tentem e em alguns momentos os personagens tem até sequências divertidas, mas que não são o suficiente pra manter os personagens como gostaríamos.

Entretanto, eu creio que haja um bom motivo pra isso. Toda a produção tenta pegar o clima de conto de fadas, de cantigas de roda, de coisas que acontecem movidos mais pela emoção que pela razão.

E o design de produção é lindíssimo. O filme se apresenta como sendo literalmente uma peça de teatro.
...uma peça com efeitos visuais e cortes de câmera, mas ainda assim!




O cenários são criativos e não tem aquela necessidade te tentar te enganar: tu sabe que é falso, mas é tão bonito que tua única reação é deixar passar. Fora as performances de dança, em especial na abertura, nos ciganos, e no Espantalho.

Oooh sim, a melhor parte do filme, junto com o Chapeleiro Louco. Rapaz, como o vilão é divertido. Ele é o antagonista esteriotipado vaudevilliano, com cartola, bigode, capa preta, e Ray Bolger se empolga e se diverte ao interpretar o personagem. O único motivo que eu consigo imaginar pra ele não ser um dos vilões Disney mais bem lembrados é porque ele não é 2D e porque o filme não tem uma boa divulgação.

Isso até eles anunciarem remake né. Eu duvido nada.




Além dos designs de set e algumas atuações divertidíssimas, o filme tem alguns momentos em que tu primeiramente coça a cabeça e depois só aceita a situação.

Por exemplo, um dos meus momentos favoritos foi quando Garcia e Bernardo foram anunciar a Mary que Tom havia se afogado. Eles tavam disfarçados de piratas e começaram a cantar. Porque motivos!

Tem outro momento em que Mary pondera se deve casar ou não com Barnaby. E então ela começa um número musical sob as mesmas substâncias dos Elefantes Rosa sobre como ela não sabe fazer cálculos financeiros.

É sério.



E já que falei nas músicas, elas tem um papel fundamental na história. Vários diálogos são levemente cantados (se é que isso faz sentido), e são rimas gostosas de se ouvir, quase que um padrão Seussiano.

Sim, algumas coisas conseguem datar demais o filme, como os equipamentos do asisstente do Toymaker, que tem uma forte influência da época. Mas eu não sei, ainda é um filme deveras divertido. É muito memorável? Não necessariamente. Digo, Barnaby e os capangas são ótimos, Ed Wynn é ridiculamente engraçado e divertido de assistir, e as sequências musicais tem aquele clima de peça teatral que dá um gosto especial. Se você conseguir passar pelos protagonistas planos e uma história argumentalmente fraca, vai encontrar muito o que gostar daqui. Não é um clássico atemporal ou a melhor adaptação da história (ao menos é melhor que a versão de 1934 com o Mickey-pesadelo), mas ainda é divertida o suficiente e com uma ou outra coisa memorável. Vale a pena assistir sem muito compromisso.

Ah sim, e isso aconteceu.

No entanto, não era pra ser esse filme. Não senhor, Walt tinha um projeto em mente desde Branca de Neve, e agora parecia a melhor hora pra fazê-lo. Um projeto apresentado no seu programa Disneyland pelos Mouseketeers, The Rainbow Road to Oz.




Há tempos quero escrever sobre esse projeto e agora me parece o momento ideal.

Até porque não daria um episódio de A Maravilhosa Resenha de Oz, porque... Bem, tem 10 minutos.

Eu também demorei a falar sobre isso
porque olha isso dá medo mano se lascar

A história aparentemente seria original, ao menos nessa apresentação é. Vemos a Patchwork, o Espantalho, Dorothy, Ozma, e o Leão Covarde em um plot que não faz muito sentido, mas eu só li até Road to Oz, então não sei se é baseado em algum livro futuro. Raios, eu li o nome e fiquei decepcionado por não ter a Polly. Embora talvez a personagem tivesse sido mesclada com a Patchwork Girl (interpretada pela mesma guria que viveu Mary em Babes in Toyland).

Enfim, nesse especial temos algumas artes conceituais e demonstrações de sequências musicais e dança. E... É, não funciona. Tu pode ver no final do episódio que Walt parecia notar naquele exato momento que não ia funcionar.



O Mágico de Oz de 39 é atemporal, tinha uma ciência muito exata. Tanto é que uma das sequências deletadas, Jitterbug, datava o filme de uma forma incrível. Embora tu note traços do tempo nas outras sequências, elas se sustentam muito bem até hoje. Rainbow Road não, tu nota que pega muita referência da época, e os elementos simplesmente não batem muito bem. Embora sejam bem executados, e o trabalho de maquiagem e figurino seja muito bom.

O Leão claramente sofreu corte de orçamento em comparação o da MGM, mas nota-se que teve um esforço ali.



Walt sabia que isso não ia funcionar, e que ia causar muitas comparações com o clássico de 39, que ia afundar ainda mais o filme. Então deu luz verde pra Babes in Toyland, onde tu nota que ainda tem muitas influências conceituais desse projeto, por se passar em uma espécie de palco, um set de gravação, sem tentar te enganar.

Se tiver curioso, o episódio em questão tá aqui, e aqui tem um extra do DVD de Oz: The Great and Powerful sobre a história do estúdio com Oz.

Também foi lançado um LP chamado The Songs of Wizard of Oz, pela Disneyland Records, bem como adaptações da história em áudio (The Story and Songs of Wizard of Oz e The Story of The Wizard of Oz da linha Read Along).

...hm, talvez dê pra fazer um episódio da Maravilhosa Resenha. Pensarei no caso.




Pois bem. Sword in the Stone (conhecido na terra do Zé da Viola como A Espada era a Lei) teve uma história parecida.




Nos anos 40 mesmo, Walt estava com um projeto sobre a história do galo Chanticleer, que liderava uma fazenda porque todo mundo achava que o seu canto que fazia o sol aparecer. Walt juntou a idéia ao projeto da raposa Reynard, mas acabou envagetado até os anos 60. Dois animadores acharam o projeto e uniram ao desejo de fazer algo mais parecido com um espetáculo da Broadway, e começaram a desenvolver o filme. Enquanto isso, Roy tentava convencer Walt a parar com as animações pra poder injetar dinheiro nos dois parques, ao qual Walt respondeu com uma gargalhada.


No entanto, ele sabia que um dos projetos deveria ser engavetado, e Sword in the Stone foi escolhido porque animar humanos era mais barato que animar animais. (Mas se tiver interessado, tem concepts na Disney Wiki)




Eu imagino que a decisão de transformar os personagens em animais em vários momentos do filme seja de algum animador zueirão, mas divago.

A história nos conta sobre a morte do rei, que levou a um tempo em que a Inglaterra ficou desgovernada, prestes a ser quebrada em pedaços. Vindo da manga do roteirista, aparece uma espada em uma pedra, com a inscrição de que aquele que conseguir puxá-la, será o novo rei. Muitos tentaram, todos falharam. Então o povo decidiu que o novo rei seria escolhido através de uma peia federal, porque é mais divertido assim.

É o que eu sempre digo, o governante de uma nação deveria ser escolhido no ringue de MMA ou em um duelo Pokémon.

Hoothoot voltou pra pokébola!

Enquanto isso, Merlin está esperando um jovem com um grande futuro, pra que possa logo ensinar a ele sobre ciência e o raio a quatro. Então aparece Arthur, um órfão que é escravo de uma hospedaria, e ele começa a aprender sobre uma pancada de coisa com Merlin.


O conceito do filme não é ruim. Ao invés de focar nas lutas de espadas, cavalos, e em originar piadas de Capitão Planeta, eles falam mais sobre animais, um pouco de filosofia, e etc. Mas... É basicamente isso. E embora seja um conceito massa, não é bem explorado.

Acaba sendo um filme extremamente maçante de se ver. Eles tentam ser algo mais pra criança, sim, mas ainda assim, não é interessante, ou contado de forma atraente. É bem direto e simples, mas precisava de algo mais pra tornar divertido.



Por exemplo, as transformações são criativas, mas a forma que eles passam as lições são muito limitadas, quando o conceito era pra ser mais ensinando um moleque como ser um bom rei, um homem justo, e blablabla. Aí eles se prendem a coisas mais banais, ou a cenas de ação, ou engraçadinhas, e a mensagem acaba ficando em segundo plano.


A animação é... Rapaz... Digo, eu sei que o estúdio tava passando por dificuldade financeira na época, mas pelo amor do raio, algumas sequências tão quase do nível de Hanna Barbera. Além das cenas recicladas, aqui há mais daqueles momentos onde um personagem fica parado e a animação consiste no mínimo necessário, como olhos piscando ou barbatanas mexendo. E graças ao processo de Xerox, as falhas ficam ainda mais evidentes.

E em alguns momentos, tu nota que os personagens ou a câmera não se movem com a mesma fluidez de antigamente. É distrativo.

Mas os cenários ainda tão supimpa.

Mas talvez eu não possa reclamar tanto, já que, embora esses momentos existam e te distraiam até certo ponto, as animações que são boas são realmente boas. Os personagens se movem como sempre, e a batalha entre Merlin e Min é muito criativa (embora ela só tenha sido apresentada no último ato, provavelmente porque alguém se tocou que tava faltando um clímax e um antagonista).

O melhor personagem ali é o Merlin, de longe. A forma que ele fala, que ele é animado, a dinâmica entre ele e a coruja tsundere Arquimedes, a magia, o fato dele ser de fato sábio e saber quando e como usar os poderes, ele é um personagem muito divertido de se ver. Em Kingdom Hearts ele tá melhor, na minha opinião. Ele tem um peso maior, e há o mesmo tipo de respeito ao personagem.

E sim, ele foi baseado em Walt Disney, assim como Yen Sid.



É um filme interessante pra crianças, elas podem gostar das transformações, do pouco slapstick que tem (e nem tão bem executado no segundo ato), de algumas cenas com cavaleiros, e até aprender uma coisa ou duas. Mas se quer um filme com mais conteúdo, mais bem produzido, e mais interessante, esse é um pra deixar passar.


E não só isso, mas esse foi o primeiro filme animado dos Irmãos Sherman, que já trabalhavam com o estúdio e os parques há algum tempo.


E na próxima parte, veremos um dos grandes feitos dos irmãos, bem como, na minha opinião, o melhor filme Disney até hoje.

[Tio Walt - Parte 7] O Show Não Pode Parar



Voltando aos trilhos originais, o próximo longa de Walt seria um mais leve de se fazer. Ao invés de se prender a uma história conhecida, um livro, seria uma história própria deles, onde eles poderiam fazer basicamente o que queriam com os personagens e com a narrativa.

E assim o estúdio nos brindou com o fofíssimo A Dama e o Vagabundo.


Joe Grant, um dos animadores de Walt, fez alguns rascunhos de sua cadelinha, Lady. Sua filha acabara de nascer, o que moveu toda a atenção de Joe e sua esposa pra criança, o que resultou em algumas reações da cachorrinha. Walt gostou do desenho, e sugeriu que fizesse um stoyboard. Joe fez, mas Walt odiou o resultado. Lady era sim, uma personagem adorável, mas Walter sabia que fofura não fazia uma história.

Os live actions de Alvin e os Esquilos que o digam.


Assim, o projeto ficou engavetado por algum tempo, quando numa bela manhã de sol, Válter estava lendo uns contos no jornal, quando uma história de Ward Greene, sobre um cachorro cínico (ou assoviante, sei lá. Eu achei dois títulos, Happy Dan, the Cynical Dog e Happy Dan, the Whistling Dog) chamou sua atenção. Ele imediatamente comprou os direitos da história, e pediu que Ward jusntasse Dan com a personagem Lady. Valt sabia que unindo dois personagens tão diferentes, seria mais fácil de criar uma história.

Só 50 anos depois, na edição de Platina do filme, que Joe Grant recebeu o crédito que lhe era merecido.
Depois que sua esposa faleceu, ele voltou pra Disney e ainda trabalhou em projetos como Pocahontas e O Rei Leão.


Explicado esse pedacinho fascinante de História, vamos à história em si.



Um cara dá de presente pra sua esposa uma linda cachorrinha numa caixa de chapéu. Ignorando que hoje isso daria no mínimo um processinho daquela organização com nome de biscoito de polvilho, a moça morre de amores pela cadelinha, e a vida do casal é completa só com ela.

Até que a mulher engravida e toda a atenção do casal migra pra criança, e Lady tenta entender o que tá acontecendo.
Mas o casal tem que viajar e deixa a casa aos cuidados de uma tia deles, que tem dois demônios disfarçados de gatos. Aliás, eu tenho motivos pra acreditar que a tia deles é o próprio capeta, mas eu chego lá.

Coisas acontecem, e Lady acaba indo parar na rua, sendo salva e acolhida por um cachorro de rua, conhecido como Vagabundo. Que provavelmente é um dos nome mais sem criatividade pra um personagem que é tecnicamente um mendigo, mas o próprio Valdisnei botou o nome, então... É.

Blábláblá. Espaguete, esteriótipos italianos, romance, lucros.

Olha a reação dela, é fofo demais,
ao mesmo tempo humano e animal.

Agora, eu acho incrível como os caras do estúdio tem essa habilidade de pegar histórias simples e transformar em algo memorável. Isso tem todo o jeito daqueles filmes feitos só pra agradar aquele nicho específico de gente que vai ver filme só pra ver animaizinhos fofinhos fazendo coisas fofinhas; mas ao invés disso nos dá uma história genuinamente divertida por vários fatores.

Claro que a fofura é parte primordial disso, mas não é a única.

Os personagens em si são muito memoráveis, embora bastante simples. Lady é uma dama, mas ao mesmo tempo ela não é mimada demais, ou esnobe. Ela é delicada, gentil, mas também sabe quando precisa ser agressiva (porque instinto canino). Os vizinhos dela, um cão desmemoriado e um cão irlandês, também são memoráveis e divertidos, bem como ajudam a história a andar. E Vagabundo é o típico malandro de rua de bom coração.

Todo o filme é narrado e mostrado do ponto de vista dos cachorros, o que não me parece muito original, mas dá espaço pra coisas interessantes. Por exemplo, o nome do casal é Jim "Querido" e "Querida", porque a Lady só ouve eles se chamarem assim. E os cenários parecem maiores, mais espaçosos, como se fosse de fato a visão de uma criatura pequena.

Aliás, que cenários! Pegaram muito das artes conceituais de Mary Blair, e é um resultado incrível. É belo, detalhado, e eficaz ao mesmo tempo, não te distrai dos personagens.


Aliás, é interessante falar do enquadramento. Essa foi a primeira animação Disney (não sei se a primeira geral, eu creio que seja) feita em widescreen. Alguns cenários tiveram que ser expandidos depois de completados, e mesmo assim, nota-se como a ação normalmente ocorre dentro de um pequeno pedaço da tela, o que seria originalmente o 4:3. Alguns cinemas ainda não tinham essa tecnologia, então eles não eram prejudicados.


A animação também é sensacional. Se você tem um cachorro, vai se identificar com várias situações, desde o serzinho querer dormir dentro de casa até as brincadeiras típicas de cachorro, como ficar pulando pra chamar atenção do dono ou correr atrás de alguma coisa que se mova. E é tudo feito com uma naturalidade incrível, ao mesmo tempo em que eles mantém os traços humanos necessários.


E pra variar, os gatos siameses podem ou não ser um retrato racista de asiáticos. Digo, eles dizem ser siameses, fisicamente eles lembram asiáticos, e a música deles é tipicamente oriental, da melodia aos instrumentos.

Eu pessoalmente não me importo, mas poderia muito bem esganar os gatos e a tia do casal e fritá-los vivos. Eu juro, eles sequer são vilões, mas são personagens TÃO detestáveis e que criam situações TÃO injustas com Lady e o Vagabundo, que eu não consigo sentir pena alguma desses personagens.

"Ain nossa que crueldade" Crueldade é uma pitomba, não são seres reais: são personagens feitos pra transmitirem uma idéia ou sentimentos; se eu posso me apaixonar pela Pequena Sereia, porque eu não posso odiar mortalmente uma senhora de 70 anos que passa a mão na cabeça de meliantes como os gatos siameses?

HUNF! HARUNF!


Mas sério, até isso funciona perfeitamente bem, dentro da ótica de um cachorro. São seres estranhos, e o instinto da Lady diz que são prejudiciais, então esse sentimento faz todo o sentido. Estamos vendo do ponto de vista da Lady, afinal.

A Dama e o Vagabundo é, assim como Moana, um filme que não tenta ser demais. Ele simplesmente é divertido. É fofinho, te dá personagens cativantes e memoráveis, e tem músicas que vão te fazer ficar cantarolando depois de uma sessão: o que é suficientemente bom pra mim. É um filme divertidíssimo tanto pra quem ama filme de animais como quem não ama.


Uma nota menor: eu vi esse filme quando pirralho, mas a única coisa que me lembro era da cena onde a Lady sem querer rasgava o jornal. Bom, eu alguei o VHS de Tarzan na mesma época, e... É, pra um moleque de 6 anos, certamente Tarzan ficou mais bem gravado na minha memória.


E antes que eu me esqueça. Peggy Lee, dubladora da Peg e de outras personagens, que sugeriu que Trusty não morresse ao final do filme. Ela foi uma das poucas celebridades grandes que atuou em uma animação Disney na época, e junto com Sonny Burke, escreveu a maioria das músicas do filme, e cantou He's a Tramp, La La Lu, a música dos Gatos Siameses, e What is a Baby?.

O motivo que eu menciono isso é porque, como ela teve uma participação imensa na produção, ela tinha direitos iguais sobre a venda e lucro da distribuição do filme e das músicas. Até que em 87, a Disney lançou o filme em VHS. Não querendo dividir os lucros com Peggy, a Disney chegou nela e ofereceu uma graninha pra promover o lançamento. Peggy rodou a baiana e processou a Walt Disney Company e em 91 ganhou o processo, recebendo 2.3 milhões de Bushs.

Provando que nada é impossível, e eu ainda espero uma resposta oficial pra família de Tezuka. Mas aí já é outra história.



E já pegando carona em cachorrinhos bonitinhos, falemos de um dos live-actions mais lembrados e queridos de Walt Disney.

...que? Não, seu adolescente com o QI equivalente a um pepino, não é Air Bud!
Nem Space Buddies! Meu Deus, quem vocês pensam que eu sou?

Eu falo de Old Yeller, conhecido como Meu Bom Companheiro em terra brasilis.

BEST DOGGONE DOG
IN THE WEEEEEST
A história começa quando Davy Crockett tem que sair de casa por 3 meses pra caçar coelhos, ou algo assim. Ele deixa a casa sob o mando de seu filho mais velho, Travis, que começa a fazer todo o serviço de colheita. Mas durante seu trabalho, um cachorro amarelo cruza o caminho de seu cavalo, causando grande destruição. Mas ele não pôde fazer nada quando ao cachorro, já que seu irmão caçula insistiu em ficar com o animal.

Mesmo tendo ódio mortal pelo cão, aos poucos ele acaba se afeiçoando e aceitando seu espaço na família. Blábláblá, se você viu Marley e Eu, sabe como isso vai acabar. Talvez não como em Marley, mas ainda assim.

A princípio, é um filme que demora um pouco a se desenvolver. Lembra muito um faroeste, só que num conceito mais slice-of-life. Vemos a família em seus afazeres diários, Travis tentando conviver com o cachorro, e seu irmão caçula sendo irritante e mal-educado.

Sério, esse moleque é ridiculamente irritante e sem limites, se eu fosse a mãe dele já tinha dado uns tapa na boca dele. "Ain nossa que crueldade" O MOLEQUE JOGOU PEDRA NO DONO ORIGINAL DO CACHORRO, VAI SE LASCAR.

Não se deixem enganar
pelo olhar inocente
É difícil pra mim se conectar com os personagens quando eles são ridiculamente imaturos (como o moleque) ou não são simpáticos o suficiente. Eu entendo que o filme é sobre Travis amadurecendo e se tornando um homem, mas raio, ele rejeitou o filhotinho que a guria deu pra ele! E da forma mais fria e bruta possível! Não tem como eu simpatizar muito com ele.

Agora, em todo o resto, é um filme muito bem feito.


O clima é ótimo, a fotografia capta bem as paisagens texanas (embora tenha sido filmado na Califórnia), e especialmente o treinamento e pós-produção nas cenas dos animais é fantástica! Tem um making-of curto sobre o filme, se entender inglês vale muito a pena dar uma assistida. Até por ser curto.


A atuação de Travis em especial é muito boa. Pra uma criança atuar a esse nível de emoção, e protagonizar cenas tão difíceis de assistir, é um feito muito grande. Embora eu não goste muito do personagem, a atuação é extremamente bem executada.

E assim como 20 Mil Léguas, é um filme que se leva muito a sério. Poderia ter sido facilmente um filme muito meloso, um musical; mas ao invés disso decidiu ser sério, e aceitar a vida como ela é. Quando é alegre é alegre, quando é difícil é difícil. Mas se nos prendermos só aos momentos tristes e difíceis, toda nossa vida será triste e difícil. Como Bob Ross disse, precisamos ter luz e escuridão numa pintura, assim como na vida. Temos que ter uma tristeza de vez em quando, pra valorizarmos os momentos alegres. E essa é uma mensagem muito boa a se passar, e o filme a passa de maneira eficaz.

É um filme tanto pra amantes de animais como pra quem não é muito chegado. Assim como Marley e Eu, ele não é tanto sobre o cão em si, mas sim sobre os seres humanos e como eles foram afetados pelo cão. É um filme que merecia mais destaque, mas provavelmente pela postura atual da empresa, não recebe o destaque que merece, infelizmente.



Enquanto isso, Walt preparava desde 1951 o próximo conto de fadas do estúdio, Bela Adormecida.


A história, baseada no clássico balé de TCHAUCOVSK, narra sobre uma linda princesinha que acabara de nascer, e seus pais mortos de orgulhosos, proclamam feriado em todo o reino, e são visitados por 3 fadas que dão presentes pra criança, como beleza e canto. Mas a festa é interrompida por Malévola (que nesse ponto do estúdio ainda não era uma fada má, graças a Deus), que dá seu presente pra criança. Aos 16 anos, ela espetará o dedo em uma agulha de tear e morrerá. A fada que por algum motivo parece a Rosie O'Donnel dá o último presente, que abre uma brecha na maldição: ela só vai dormir e será acordada com um beijo de amor verdadeiro.

Pra esconder a guria de Malévola, as fadas levam Aurora pra uma cabana na floresta, onde a criam com o nome de Briar Rose, até que ela faça 16 anos.

Blábláblá, dragão, príncipe, lucros.

Pode apostar que tem príncipe e dragão.

Uma das melhores coisas desse filme é seu design de produção. As instruções de Valt foram bem específicas, ele descreveu suas idéias como uma tapeçaria em movimento. Então todo o filme tem muito dos designs extremamente geométricos medievais, mas equilibrando com as formas mais fofinhas Disneyanas. Mas uma coisa que eu só notei agora, é que os cenários são extremamente detalhados. Eles não são pra parecerem tridimensionais, pela referência das tapeçarias. Mas em alguns cenários há uma riqueza tão grande de detalhes que impressiona.

Obviamente, porque Bela Adormecida foi o primeiro longa Disney a ser gravado em alta definição, então os cenários foram feitos em folhas imensas, e com um nível de detalhes absurdo. Claro que isso causou problema pros animadores fazerem os personagens minúsculos nesse mar de espaço.

A animação em si, aliás, é linda. Aqui começa-se a notar mais um estilo novo Disney, onde há mais personagens cômicos e com um estilo gráfico mais moderno, que iria se seguir nos anos vindouros.

OLHA A CARA DA ROSIE, MANO
OLHA ISSO
ME MATA TODA VEZ QUE EU OLHO

Os personagens são ótimos. As fadas tem uma dinâmica muito boa, e cada uma é divertida por si só. Os reis tem uma certa comicidade, e as sequências filler não se sentem como filler, elas desenvolvem certos aspectos da história.


Mas o personagem que todo mundo se lembra é Malévola. E há excelentes motivos pra isso. Ela é má, gosta de ser má e praticar maldades, mas ao mesmo tempo ela tem classe, ela tem dignidade. Eu costumo dizer que ela é a prima européia e chique da Bruxa Má do Oeste. Assista esse filme e depois veja Descendentes, e vai entender o que eu quero dizer com isso.

Aliás, nem perca seu tempo vendo, a menos que você seja masoquista e ache que fazer a barba usando um cortador de unha enferrujado ensebado de óleo de porco é uma boa maneira de passar um sábado à noite.



A motivação dela é fraquíssima, mas todo o resto em Malévola é memorável: a forma de vestir, os poderes, a forma de falar, o clímax épico em forma de dragão. Aliás, esse é um dos melhores clímaxes que a Disney já fez, de verdade. Os animadores inclusive explicam que certas coisas não fazem muito sentido, como os espinhos; mas é algo do momento, da emoção, quase que como um pesadelo. É fantástico.

Infelizmente, o que o filme faz direito nos personagens de apoio, design de produção e animação, ele faz o equivalente contrário nos protagonistas.


Comecemos pelo Príncipe. É notório que os príncipes da Era de Ouro não eram bem desenvolvidos (parte disso era porque os animadores não conseguiam animar personagens masculinos e bonitos direito). Os príncipes de Branca de Neve e Cinderela nem possuem nomes (e se possuem, eu não lembrar disso é uma prova do quão subdesenvolvidos eles são). Aqui, ao menos eles tentam nos fazer gostar do príncipe, vemos ele criança no nascimento de Aurora, a reação dele ao ver a guria. Vemos que ele é muito amigo de seu cavalo... E... É.

Ainda não é o suficiente, mas ao menos eles tentaram.

Aurora, por outro lado... Ugh.

Eu DESPREZO Aurora. A ponto de em alguns momentos de debate onde eu a cito, eu esqueço o nome dela. É sério.


Em um artigo anterior dessa série, eu mencionei como Cinderela e Branca são bons exemplos pra todo mundo. São inocentes, puras, mas que sabem como agir dependendo da situação, o que geralmente envolve serviço pesado de casa (que, como já mencionei, não é fácil e não deve de modo algum ser menosprezado), e que tem formas louváveis de fazer esse serviço tentando se cansar o menos possível.

Ou seja, elas são donas-de-casa exemplares e tem personalidades agradáveis, cada uma a seu jeito.

Aurora... Ela é o esteriótipo que normalmente se pensa quando se fala "Princesa Disney". Ela é bonita, canta, e é ridiculamente plana. Mas não é só isso.

Como descrevê-la... Sabe aquela guria da sua sala que foi criada a leite com pêra e ovomaltino pelo pai divorciado que não sabe dizer "não"? Onde ela anda sempre maquiada, com um iPhone 18, tem um armário só pra capinhas, e vive postando foto no instagram na praia ou na baladinha top? Aquela guria que basta 30 segundos de conversa tu percebe que o nível cultural dela é o equivalente a uma vitamina de açaí?

Aposto como pensou em alguém muito específico agora.

Pois bem, essa é Aurora.

...guardadas as devidas proporções.

HAKUNA MATATAAAAAAA

O único trabalho que vemos Aurora fazer é ir colher frutinhas no campo. E em um momento ela abre a janela com um lenço na mão, que eu imagino que seja pra tirar poeira. Mas fora isso, não vemos ela fazer absolutamente nada.

Ela vai pro bosque colher frutinhas, encontra seus amigos animais, começa a cantar sobre o príncipe que encontrou num sonho, encontra o príncipe, fim.
E quando as fadas revelam sua origem e dizem que ela não pode ficar com o moço da floresta (porque ela não sabia que era o príncipe) ela começa a chorar.

Aliás, cês tem noção de que ela tem 18 linhas de diálogo? A primeira linha é aos 19 minutos, e a última é aos 39 minutos. O último som que ela faz é no castelo, chorando pelo príncipe. Meu Deus que criatura mimada e irritante.

E pior, eu só consigo imaginar como o presente das outras fadas (beleza e canto) não serviram muito, porque ela nem é muito bonita e a música que ela canta é com uma voz meio zoada. É bem afinada pra ópera, mas é totalmente fora do estilo, que causa estranheza.
E caso esteja interessado, a última fala do príncipe é "Goodbye, father!", quando ele parte pra encontrar Briar/Aurora na cabana na floresta.

E vocês achavam que os personagens de Branca de Neve eram planos. PTÚ! PTÚ, eu digo!


Ok, somados os prós e contras, é um filme que vale a pena ver ainda hoje?


Não só por motivos históricos, mas por motivos artísticos. O design, animação, e personagens são muito bons, e podem dar inspiração a outros personagens, mas os protagonistas e ritmo são muito ruins. É um filme lento demais, demora a acontecer alguma coisa que valha a pena. Mas ainda é assistível vez ou outra.


E enquanto eu assistia esse filme, eu lembrava de um momento de minha infância, quando meus primos alugaram um VHS de Bela Adormecida. Meu primo tentou me convencer a assistir, dizendo "é legal, a Malévola vira um dragão no final", e eu, achando que seria um filme de princesa chato (tipo, sei lá, um filme da Barbie que não seja O Quebra-Nozes) não quis. Bem, eu não tava errado, nem meu primo. É um filme extremamente plano em termos de protagonista e ritmo, mas tem um clímax do pipoco.




No mesmo ano, chegava aos cinemas Darby O'Gill and the Little People (A Lenda dos Anões Mágicos, na terrinha do Guaraná Jesus). Eu poderia falar sobre Shaggy Dog, que teve sequências e inspirou um remake com o Buzz Lightyear e o Tony Stark, mas vejam bem, Darby O'Gills tem efeitos práticos lindíssimos, e esse é totalmente meu ponto fraco.


A história se passa na Irlanda e segue um velho chamado Darby, que passa os dias no bar local a narrar suas histórias envolvendo duendes. Embora todo mundo na cidade goste de Darby e goste de ouvir suas histórias, há alguns que não acreditam, como Pony, filho da velha fofoqueira local.

Sim, o nome dele é pônei.

Mas o lorde decide que Darby não vai ser mais o caseiro de seu sítio, devido a sua avançada idade, e manda Sean Connery pra ficar no lugar do velho. E enquanto a mãe de Pônei tenta juntar seu filho com Katie, a filha de Darby, o velho acaba caindo no mundo dos duendes, onde o rei diz que ele não vai poder sair. O que não impede que Darby os engane e acabe capturando o rei, que agora lhe deve 3 desejos. Altas tretas acontecem, em um desafio de enrolação entre Darby e o rei dos duendes. E é divertido à beça.


O clima do filme é agradável e tem aquele tom de cidade do interior, que é bem típica a nós, parando pra pensar. Eu consigo até traçar uns paralelos entre Darby O'Gills e O Auto da Compadecida, tem uma cidade do interior, tem o contador de histórias, tem a moça bonita que não quer casar com qualquer um. Bote um pistoleiro que não gosta de matar e tamos feitos.

Não, o Sean Connery não conta, ele ainda não era James Bond. Aliás, esse foi o filme que o revelou, e ele acabou em 007 Contra o Satânico Dr. No.


Uma das melhores coisas no filme é o elenco. Meu Deus, que elenco bem escolhido. Darby é incrivelmente amigável, carismático, e alegre; mas ao mesmo tempo ele é seriamente preocupado com sua filha e com o futuro dela, já que eles vão perder a casa que ela morou a vida toda. O que o leva até a cometer erros, como não contar logo a ela toda a situação, mas no fundo ele é um cara bem-intencioado. O que não o isenta dos erros, inclusive de tentar roubar os duendes em mais de uma ocasião.


Katie é uma guria extremamente adorável, quase uma versão mais jovem e irlandesa da Marion de Indiana Jones. E não só fisicamente, mas a personalidade dela também. Ela é uma moça de gênio forte: quando tá alegre, ela tá MUITO alegre, ela canta, ela pulula, ela sorri, ela rodopia. Quando ela tá com raiva, ela pode te dar uma bifa na orelha só por tu perguntar se ela prefere Coca, Pepsi, ou se tá de TPM.

E Sean Connery é o típico galã boa gente: posa, faz o serviço que tem de ser feito, mas acima disso, ele canta.
Sean Connery cantando em um musical da Disney.

Exceto o voice-over da Katie, sim... É estranho... Mas veja bem, SEAN CONNERY!


Um dos grandes focos do filme são os duendes, e rapaz, como foi acertado. A idéia de Walt era que ele tinha usado duendes reais pra fazer o filme, tanto é que o único crédito deles é agradecimento pela participação deles, e em seu programa Disneyland, ele e Darby mostram como convenceram o Rei a participar do filme.


E há um motivo muito bom pra isso: os efeitos são bons.

Muito bons.

Muito bons MESMO, até pros padrões de hoje.


Me diz aí, se a Disney resolvesse fazer um remake dess filme (Deus permita que não), ia ser tudo em CG. Mas naquela época, eles usaram truques práticos, na marra mesmo. E ficou lindo, eu ainda tenho dificuldade em acreditar que é uma trucagem.

Tem um vídeo mostrando como foi feito, mas eu recomendo fortemente que não veja. É sério. É uma das poucas vezes que um making of pode de fato acabar com a ilusão do filme, que já é fantástica por si só.


Outra coisa que esse filme faz bem é no clima das cenas. Há várias cenas alegres, coloridas, em belas paisagens e cenários pintados em um vidro na frente da câmera, mas há também momentos sombrios, tenebrosos, e isso reflete as situações das cenas, já que há conceitos um tanto quanto sombrios, como prender o Darby o resto da vida no reino dos duendes.

E claro, o Banshee. Que não é assustador como o Doug Walker lembra (isso eu creio que seja mais nostalgia mesmo, tipo eu com a Caipora), mas é algo tão bizarro e tão bem executado, tanto em visual como áudio, que tu não pode deixar de sentir um certo arrepio, é bom demais.


Darby O'Gills é um daqueles filmes que é extremamente bobo e brega, mas sabe quando tem que ser mais sério, desenvolver personagens, e como fazer isso sem deixar de ser divertido. O roteiro é ótimo, os atores são ótimos, os efeitos visuais são incrivelmente ótimos, e a música complementa tudo, dando aquele sabor irlandês animado. 

É um ótimo filme, se ainda não viu, eu recomendaria que você assistisse o mais rápido possível.


E as novidades tecnológicas iriam continuar, na próxima parte veremos como os estúdios quase pararam de fazer animação 2D, e o Xerox os salvou.

Eu pensei em fazer uma piada relacionada a Princesa e o Sapo mas falhei miseravelmente.


Fiquem com o Darby imitando o Costinha, então.