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[Opitorial] Sobre remakes, reboots, n'stuff.

Imagem meramente ilustrativa. Eu espero.

Pra quem não sabe, no momento em que escrevo este artigo está acontecendo a D23 Expo. Basicamente, uma Nintendo Direct da Disney, só que em proporções muito, muito maiores.

Esse ano, foi anunciado alguns filmes pros próximos anos, e algumas coisas me incomodaram. Muito.

Vamos dar uma olhada no que tá acontecendo e como isso nos afeta.





Primeiramente, Pixar. Temos, em ordem, O Bom Dinossauro, Procurando Dory, Toy Story 4, Coco, Carros 3 e Os Incríveis 2.
Já notamos que houve uma mudança considerável na política da empresa sobre fazer sequências. Ao ver a história da Pixar (e da Disney em geral) nota-se que na maioria das vezes, eles chegaram com histórias novas, com ideias novas. Sim, quase sempre baseado e algo existente, mas com material novo e bom o suficiente pra ser memorável.

Mas era assim que devia ser. Eram estúdios novos, tentando fazer sua própria história, nada melhor que começar com histórias em domínio público que eram facilmente reconhecidas pelo público, dando um toque particular a cada uma delas.
Sim, Toy Story 2 veio pouco tempo após o 1, mas foi uma série de fatores que ocasionou isso, mas porque dava pra fazer algo bom. (Assistam "The Pixar Story", caso se interessem)

Com o tempo, a Disney iniciou uma linha de sequências dos clássico "direto-pra-vídeo", com algumas raras exceções pras salas de cinema. E nós sabemos o quão certo isso (não) deu.

Dos 6 filmes anunciados, apenas 2 são novos. O que não é garantia que seja algo completamente bom, como vimos em Valente. Mas o que mais me chama atenção é a presença de Carros 3 ali.

Pensem bem. Carros. Eu consigo respeitar o primeiro filme, era meio que algo pessoal do John Lasseter. Era um filme fraco, só isso, acontece. Críticas medianas, sem muita expressão na bilheteria.
Mas o filme rendeu horrores em brinquedos e produtos licenciados e tiveram a ideia de fazer Carros 2, e foi uma bela porcaria. É uma daquelas sequências que não lembra em absolutamente nada o primeiro filme, e falta carisma, falta senso de humor, e falta lógica no roteiro, como na própria existência do filme em si.

Mas hey, vende brinquedos e mochilas, então manda bala!
...literalmente. Tem espiões, explosões, etc.

"It's not a parody of a spy movie. It is a spy movie. But it's with cars as characters."


E aí alguém veio com outra ideia pra mamar na franquia Carros. Aviões.
E Aviões 2.

O conceito original de Carros já era meio idiota, mas eles conseguiram fazer algo ok. Não é como se por apenas o conceito ser idiota não se dê pra fazer algo bom, Tartarugas Ninja que o diga. Mas agora a gente já tá esticando a baladeira, isso se chama "desespero". Ou ganância, sei lá.

Sim, Aviões foi... ok. Como o primeiro carros. Mas meu problema é o motivo dele existir. Não é porque é uma história divertida ou interessante, mas sim pra vender quinquilharia. Que é ok, mas notem que a filosofia da Disney mudou drasticamente, talvez até fazendo com que o grupo perca a própria identidade.


Mas hey, poderia ser pior, né? Quer dizer, eles poderiam pegar um filme extremamente ruim, com recepções negativas, mas que fez um sucesso entre o nicho "teen edgy tumblr", e fazer uma sequência disso.



How could this happen to me?
I've made my mistakes
Got nowhere to run
The shit goes on...

Pois é, aquela batida de trens flamejantes dirigida por Tim Burton vai ganhar uma continuação.
Eu não culpo exatamente o Burton pela péssima qualidade do filme. Ele fez o trabalho que lhe foi pedido, visuais góticos e espirais, dirigiu os atores.
...com resultados questionáveis, mas enfim.
O roteiro foi escrito por Linda Woolverton, que trabalhou também em Malévola e O Rei Leão. Se bem que em Rei Leão ela teve dedo no roteiro, teve umas 30 pessoas escrevendo junto.

Enfim, o ponto é: foi um filme ruim. Assim como Malévola. E assim como Malévola, vai ganhar continuação. (Isso se a moça Jolie não se aposentar da atuação antes, mas os planos de continuação estão de pé)

O que é interessante de notar é que esses filmes não se baseiam tanto na venda de brinquedos e produtos licenciados. Pelo menos não como Carros. De alguma forma, o filme teve uma boa resposta do público...-ish.


Minha teoria é que é posto um esforço maior nos visuais (e nomes envolvidos na produção) do que nos roteiros.
Você conhece essas histórias, conhece esses personagens. Então quado se mistura esses elementos conhecidos com coisas novas (mesmo que sejam fora dos personagens), com imagens bonitinhas, você sente-se confortável, mas ao mesmo tempo desafiando sua percepção do que você conhece. Isso, pra quem se impressiona facilmente, distrai do roteiro fraco, sem inspiração, e cheio de buracos argumentais.



Você é seduzido pelos visuais ""realistas"", você sente que tá recebendo mais informação do que realmente recebe, pelas lembranças do material original que o filme toma como referência, e esquece de fazer uma coisa que a massa não costuma fazer: pensar sobre o filme.

Botar nomes conhecidos também ajuda. Tim Burton, Johnny Depp, Angelina Jolie, Disney, James Franco, Mila Kunis, tudo ajuda a vender. Você imediatamente cria uma ligação com aqueles nomes, aqueles conceitos, e sabemos como a primeira impressão conta.

Lembro de estar no cinema e ver o pôster de Up, e imediatamente virar os olhos em desinteresse. Então, vi de relance o nome "Disney - Pixar" e de repente me senti interessado em assistir. Isso por causa do histórico do estúdio, de pegar conceitos comuns, infantis ou bobos e transformar em algo aproveitável, até mesmo de um ponto de vista artístico.
Algo parecido aconteceu quando eu vi o pôster e o teaser de Frozen. Mas, em um plot twist, eu vi o nome Disney atrelado a isso e continuei a achar que não seria lá essas coisas...
E... É um filme bom.
...só isso.

"Você conhece as histórias, conhece esses atores, e conhece o ambiente.
Agora nos dê seu dinheiro."


Meu ponto é: existe muita gente que apenas por ter aquele ator conhecido, aquele diretor conhecido, vão tender a achar o filme bom. Sem desmerecer o trabalho dos atores, diretores, etc, mas quando algo no seu âmago está ruim, eles no máximo podem aliviar um pouco.

Por exemplo, Descendentes. É um filme ruim, com problemas já no conceito mais básico que você pode pegar dele. Mas uma das coisas que se salvam é a atuação da Dove Cameron, que não é exatamente boa, mas que é relativamente divertida, não exatamente por ser boa, mas por ser meio fora de lugar. Algo na linha do "tão ruim que é bom".

E isso se aplica a vários filmes e séries que tem um roteiro ou direção fracos, atuações que são tão exageradas ou cartunescamente ruins que acabam sendo boas, divertidas.
Mas nem isso salva um filme quando todo o roteiro é pretensioso demais sem oferecer o que propagandeia.

Dos estúdios e grupos fazendo remakes, reboots, e releituras, eu creio que o mais perigoso seja a Disney. Não me entendam mal, eu adoro a Disney, pelo que ela já fez, mas ultimamente a única coisa que o grupo tem feito é fazer coisas baseadas nas IPs que já tem, adquirir novas IPs, e lucrar horrores sem fazer muito esforço, porque a história deles já garante a sobrevivência deles. Pega os filmes antigos já consagrados, faz umas edição remasterizada com uns extras (em alguns casos aqui no Brasil sem a mesma qualidade ou quantidade de extras das edições originais), cobra o equivalente a uma feira mensal e volta a jogar Candy Crush sem preocupações.

Eu só espero que eles parem de pegar coisas antigas pra dar uma recauchutada, botar nomes conhecidos e esperar o saldo bancário subir. Especialmente com obras consagradas e praticamente perfeitas.
Certo?
CEEERTOOO?


Agora, se me dão licença, vou ali bater minha cabeça na parede.

[Opitorial] Bob Esponja Moderno



Eu amo Bob Esponja. Foi um dos desenhos que marcaram minha infância, engraçado, e com personagens e momentos memoráveis.

Até que em algum ponto a Nickelodeon resolveu fumar um cachorro-quente com purê de batatas e virou a bela porcaria que é hoje, com seus sitoms repetitivos, irritantes, e previsivelmente sem graça.

Sério, desafio a qualquer um a ver a dobradinha "Sanjay e Craig - Breadwinners" sem querer chorar em posição fetal ouvindo "Two Worlds" do Phil Collins.

Em russo.

Mas outro dia falo de Sanjay e Craig e Breadwinners, hora de falarmos sobre os episódios modernos de Bob Esponja.

E já aviso, algumas descrições e imagens podem ser fortes pra algumas pessoas.






Vamos primeiramente falar de alguns episódios onde os problemas são bem mais evidentes.


-A Farpa (The Splinter)

Um plot simples. Uma farpa entra no dedo de Bob Esponja e ele tenta tirar. Simples até demais para um episódio de 11 minutos, que é preenchido por dor, agonia, e exagero gráfico realista demais pra um desenho animado de comédia.



Vejam bem, slapstick é engraçado porque é algo exagerado. Alguém tendo a cara moldada por um golpe de ferro de passar? Engraçado. Explosão que te deixa inteiramente preto? Engraçado. Piano na cabeça? Engraçado. Morto por um piano na cabeça? Pelo amor de Bob Hoskins, tragicamente hilário.

Então, qual o problema aqui?



O problema é que a farpa no dedo é algo extremamente relacionável, e os escritores e animadores se esforçam pra fazer com que as cenas sejam o mais dolorosas possível.
Oh, e a história continua.

Bob esponja vai atrás da ajuda de Patrick, que joga lixo em cima do ferimento, que faz inchar ainda mais e fica roxo.



Logo depois, seu Siriguejo tira a farpa, e saltam confetes dela.
E depois o velho cascudo leva um banho de pus.
...
É sério.

Imagino a conversa dos TRÊS ROTEIRISTAS que escreveram esse episódio.

Nate: Cara, não acha que é demais dar um banho de pus no Siriguejo?
Sean: Verdade, então bota uns confetes antes pra aliviar.
Steven: Galera, "parte da casa" com 6 letras, alguém sabe?


-Um Companheiro Para Gary (A Pal for Gary)


Esse é um dos sinais de burrice extrema dos personagens.

Bob Esponja se preocupa que ele passe o dia fora trabalhando e Gary se sinta sozinho em casa (na verdade Gary fica muito bem comendo porcaria e assistindo faroeste, coisa que qualquer pessoa normal com acesso a YouTube/TCM faria), então ele compra um  monstro de Yu-Gi-Oh pra fazer companhia pra ele.

O problema já começa quando Bob compra o tal bicho, que não escuta a Dona Estranha Cigana dizer que os bichos podem ficar muito agressivos caso eles estejam com outro bicho de estimação.


Gary fica com medo e evita o bicho novo, e Bob entra naquele estado de "ow aprendam a dividir", "Gary não seja mal educado, brinque direito com seu novo amiguinho", etc.

E então Gary começa a fugir do bichinho novo. A noite toda. E Bob Esponja sequer acorda.
Ao acordar, Bob nota a casa com alguns probleminhas (portas e forro caindo, biblioteca pegando fogo, roupas rasgadas) e imediatamente conclui que Gary está com ciúmes.
E então ele encontra Gary na seguinte situação e grita de pavor.


E eu juro, o que ele diz nessa situação é algo que não seria engraçado nem em paródia de desenhos oitentistas.
"Ponha o Fluffy no chão agora! Menino mau, Gary! Menino muito, muito mau!"


...
SEM MAIS PERGUNTAS, MERITÍSSIMO.

Não, nem vou me dar ao trabalho de terminar o episódio. Não. Hm-hm. É daí pra pior, eu juro.
Não tem plot, não tem comédia, personagens fora do personagem, e há uma alta probabilidade de assustar crianças.



-O Bebê Lula (Squid Baby)

Antes de mais nada, esse é aquele mesmo episódio que o Bob e o Patrick cuidam de uma ostra. O que mostra um desgaste geral na série.

O episódio começa com Bob Esponja e Patrick brincando com os brinquedos de Bob de quando ele era um bebê. E depois começam a imitar bebês.
...que jeito de começar.



Então Lula tropeça nos brinquedos, bate a cabeça, que incha, e ele começa a agir como um bebê. Bob Esponja (agora inteligente) acha melhor levar Lula ao médico. Patrick o ajuda, com a cabeça de Lula pendurada e batendo no chão no processo.

E sim, essa informação é necessária, pois esse é um característico "Pornô de Tortura Lula Molusco™".



Em uma série de comédia, normalmente há regras de carma. Se um personagem faz algo ruim, ele deve ser punido. Isso é parte da comédia, de certa forma. Até mesmo mocinhos podem virar anti-heróis, em alguns casos.

Há histórias do Donald onde ele começa impedindo os sobrinhos de irem pescar, e os leva a um torneio de golfe. Nesse momento, ele é o vilão. Até que ele faz uma aposta com Gastão, e os sobrinhos os ajudam a vencer pra irem embora mais cedo. Então agora Donald leva a torcida do leitor, naturalmente.

Normalmente, o Lula está numa posição meio que do Donald. Mas em um PTLM, a lógica é: "se (Lula Molusco); punir (Lula Molusco;)". Sem rima ou razão, sem motivo ou necessidade. Voltarei a esse tópico depois.



Enfim, basicamente o episódio é Bob Esponja e Patrick cuidando de Lula Molusco de uma forma bem semalhante a de tomar conta de um bebê. O que é meio arrepiante se você pensar que é o Lula Molusco. E que eles estão constantemente machucando-o.

Ah, e o Siriguejo diz que não importa se ele tem a mentalidade de um bebê, contanto que ele trabalhe.
O que me leva ao próximo episódio...



-Bob Esponja, Você Está Despedido! (Spongebob, You're Fired!)


Bob Esponja começa o episódio fazendo o trabalho Severino Multiuso de sempre: limpa o restaurante, faz os hambúrgueres, tudo com habilidade ímpar.


Aí Seu Siriguejo chega e demite ele.
Porque?
Porque cortando o salário do Bob Esponja ele vai economizar cinco centavos.
...

Perdão, esse é o mesmo Siriguejo de "Siriguejo Nasce de Novo"? Onde ele vende o Bob Esponja ao Holandês Voador por uns centavos, e depois se arrepende amargamente?

Uma coisa é o personagem ser mesquinho, mas humano.É uma característica que pode gerar muitos momentos engraçados e memoráveis, e também momentos de sincero heartwarming. Tio Patinhas e Julius Rock tão aí pra provar isso.

Mas o Siriguejo atual chega a pontos que o tornam quase um anti-herói, ou mesmo o vilão, como veremos no próximo episódio.



-Refeição Grosseira (One Coarse Meal)




Quem me acompanha sabe que eu gosto de usar analogias ou piadinhas na hora de descrever algumas ideias ou plots. Como Darth Vader sendo o filho do Exterminador do Futuro em Um Herói de Brinquedo.


Pois bem, eu vou tentar ser o mais direto possível. Sem piadas, sem analogias, nem nada.
Seu Siriguejo descobre que Plankton tem fobia de baleias, porque seus ancestrais foram comidos por baleias como a Pérola (ignoremos por um minuto que cachalotes não comem plâncton e que isso provavelmente seria crime nesse mundo).

 Então ele faz uma fantasia de Pérola e começa a perseguir e assombrar Plankton, que chega a se isolar em casa em paranoia profunda, chegando a se estirar no meio da estrada esperando ser atropelado.


Em resumo, Seu Siriguejo persegue Plankton incansavelmente até que Plankton decide se matar.
Seu Siriguejo leva Plankton a tentar o suicídio.
E ainda ri quando Bob Esponja diz que o Plankton está estirado no meio da estrada esperando um caminhão passar por cima dele.
...

Isso ao menos parece um plot de uma série de comédia voltada para crianças?


Porque nem pra humor negro isso serve, é cruel demais, e sem propósito. Siriguejo e Plankton tem um histórico de rivalidade, e só. É como o Tio Patinhas e o Mac Mônei, é um duelo entre cavalheiros (mesmo que Plankton trapaceie algumas vezes), a vitória deve ser por meios estratégicos e de igual pra igual, não por meios sádicos e perturbadores.

Fora que, no final do episódio, Bob Esponja também faz terrorismo psicológico com Plankton (o que contraria o que ele mesmo diz mais cedo no mesmo episódio, que é de boa natureza e nunca faria mal a alguém). E Siriguejo é recompensado no final com... Se livrar de Plankton por um tempo. Ou seja, o episódio não leva a nada, por nada, não é engraçado, e nos faz odiar o Siriguejo por ele estar justamente na posição de vilão maquiavélico.


Além de tratar a depressão e paranoia, além do suicídio como algo banal.

E já que falamos nisso, vamos tirar esse elefante na sala logo.



-"Está Feliz Agora? (Are You Happy Now?)

Esse é um dos episódios que está disponível no próprio site da Nickelodeon e você pode vê-lo dublado e sem peso na consciência.
...kinda.

Antes de tudo, um background. Há uma creepypasta chamada O Suicídio do Lula Molusco, que, se parar pra pensar, ela é ridícula, mas que sim, consegue dar medo em alguns (incluindo este que vos fala). Alguns teorizam que esse episódio veio baseado nos rumores que a creepypasta cita. E, considerando os episódios listados nesse texto, eu acredito. É como se os roteiristas e produtores estivessem implorando pra série acabar, e entraram num modo "eu não ligo a mínima pro que vão dizer, só quero meu pagamento no final do mês" tão alto que faria Silvio Santos repensar seu modus operandi atual.

Oh, well. Para o episódio, então.



Bob Esponja está juntando num álbum todas as suas memórias felizes no Siri Cascudo, e Lula Molusco descobre que não tem nenhuma memória feliz. Então Bob Esponja tenta criar algumas com Lula, levando ele a atividades que ele gosta (relacionadas a arte), que acabam dando errado de maneiras catastróficas, física e psicologicamente pro pobre Lula. (Ainda assim, temos que dar crédito ao Bob, ele pelo menos tá tentando ajudar, da forma certa. Ao contrário de certas estrelas-do-mar, como veremos mais adiante).

Após a última tentativa, Lula Molusco se isola em sua casa, e Bob fica preocupado (levando-o a dizer, aliviado, "Pelo menos vi que ele tá vivo.") E então seguem-se várias piadas que levam o espectador a pensar que Lula vai de fato se matar (o que nunca ocorre).



O que poderia talvez ser engraçado em uma série voltada a adultos, e onde a depressão não seja retratada de forma tão realista (dá pra fazer um baita estudo de semiótica na casa do Lula no estado de depressão). Engraçado porque é algo que te pega de surpresa, mas só. Ainda assim, creio que seria um grupo bem seleto de pessoas que acharia isso engraçado.

O principal problema do episódio é retratar a depressão de forma extremamente realista. Não sou contra programas voltados a crianças falarem sobre problemas do mundo real, ou de forma realista, mas precisa-se de um estudo ao redor do tema, e testes. Sesame Street engavetou um episódio onde seria abordado o divórcio por quase 20 anos, porque sentiram que havia muitas falhas no roteiro, e as crianças que participaram dos testes não entenderam a mensagem. Do mesmo modo com o episódio da morte de Mr. Hooper . Há estudos, há pesquisa, há consultoria, para que nada seja traumático, ou assustador, ou que passe a mensagem errada.

Mas aqui, como eu falei, a produção ligou o modo "dane-se, só quero meu pagamento no final do mês". "Falem bem, falem mal, mas falem de mim."



E mais, em isso tudo que falei acima, eu desconsiderei de que BOB ESPONJA É UMA SÉRIE DE COMÉDIA. Puramente comédia. Não precisa adentrar profundamente na psique dos personagens, não precisa ter plots megalomaniacamente complexos, só um slice of life surrealista e nonsense. "Ah mas Friendship is Magic adentra a psique dos personagens" Mas Friendship is Magic faz isso de forma certa, nunca vai tão longe, ou dá traços tão bizarros (a menos se você for um 4channer procurando demais), e é uma série mais voltada a aventura, podendo ter um balanço entre aventura e comédia.

Sim, Bob Esponja também tem seus episódios mais de aventura, mas ainda assim, a veia cômica é mais forte. É o mal entendido, as missões absurdas que são passadas aos personagens (como no episódio da Pizza do Siri Cascudo, é uma aventura, mas é levado a níveis nonsense). FiM tem que manter o equilíbrio entre a aventura/slice of life e a comédia (e o faz muito bem), personagens complexos vem no pacote. Em comédias, os personagens precisam ser pelo menos sólidos o suficiente para serem engraçados, complexidade é um fator extra.

Uma coisa é alterar, por exemplo, os dias de feriado do Siri Cascudo em prol do plot, outra é...



-"A Figurinha" (The Card)

...isso.



Eu sei, muitos de vocês se lembram desse, eu lembrava vagamente, na verdade.
O plot é o seguinte: Bob Esponja faz coleção das figurinhas do Homem Sereia e o Mexilhãozinho, e há uma figurinha raríssima, holográfica, e com som. Bob Esponja gasta todas as economias comprando quase todos os pacotes em busca da tal figurinha, mas não encontra. Patrick compra o último pacote, e nele vem a tal figurinha.

Então Bob Esponja faz um acordo com Patrick de no final do dia, a figurinha passar pra ele. O problema é que o Patrick usa a tal figurinha o dia todo em diversas situações (de palitar os dentes a fazer churrasco), todas na frente de Bob Esponja, assistindo a agonia de seu melhor amigo, que chega a chorar ruidosamente em certo ponto. E Patrick não dá a mínima.


E no final, a figurinha vira pó, e Patrick diz que se o Bob quisesse, era só ter pedido mais, porque o pacote dele veio com 5 figurinhas daquela.

Oh, e há certo ponto no episódio onde Patrick faz uma burrada que põe em risco a figurinha, Bob Esponja pergunta o porque daquilo, e ele responde "Você não pode esperar sempre meu mesmo nível de estupidez, eu gosto de misturar".


Não é uma boa desculpa quando você tortura psicologicamente seu melhor amigo, fazendo-o mover mundos e fundos pra salvar a figurinha tão amada, que aliás, também devia ser bem cuidada pelo Patrick, que também é um grande fã de Homem Sereia e Mexilhãozinho.

O que me leva a crer que ele fez tudo isso de propósito, caso contrário o episódio terminaria com "toma, pega outro, veio 5 dessas no meu pacote".
Mas então, o próximo episódio...



-"Presos Nos Rolos Espremedores" (Stuck in the Wringer)


...consegue ser ainda pior.

O episódio começa normal, um típico dia na vida de Bob Esponja. Tomar banho, se secar no rolo espremedor. Aí ele fica preso no rolo espremedor.

Normalmente isso seria uma gag normal, e sim, devo admitir que tornar ela ser o foco do episódio é uma jogada interessante.

Até o momento que o Patrick chega pra ajudar e passa cola permanente no Bob Esponja.

...perdão, o quê?


COMO RAIOS ALGUÉM CONSEGUE SER TÃO IDIOTA ASSIM?

Patrick era um cara idiota, mas ele não chegava ao nível criminal. Isso porque esse artigo já tá imenso e vou poupar vocês de "Pat, Babá de Mascotes" (Pat Sitter Pat), porque ele é meio que remake do "Um Companheiro para Gary" com Patrick como vilão.

Enfim, IT GETS BETTER!

Bob Esponja não consegue trabalhar direito e acaba machucando quem está ao redor, e Patrick tenta ajudá-lo levando-o ao parque de diversões.

Onde Bob é surrado por tudo e por todos, e Patrick fica de boas. Até que Bob surta e briga com Patrick (tendo uma multidão como plateia). Bob está certo em ficar com raiva de Patrick, claro.
Mas Patrick sai chorando dizendo "Eu só queria ajudar!", o que faz a multidão ficar com pena do CARA TODO LASCADO E QUE QUASE MORREU POR CULPA DO OUTRO. Qual é a lógica? O cara que saiu chorando tá certo porque ele tá arrependido, porque ele quis ajudar? O cara lascado e que quase foi morto tá errado? E eles ainda dizem que a culpa é do Bob e o fazem se sentir culpado! Onde se passa essa história, no Brasil?


Eu senti uma genuína vontade de socar cada um daqueles personagens na multidão, sério mesmo.
Ah, e o final. Patrick chora arrependido e as lágrimas soltam Bob Esponja.

Então, crianças. O que aprendemos hoje? Que chorar resolve seus problemas, afinal.

...não, é sério. O Bob diz exatamente essas palavras. Olhando pro público.

Eu nem consigo fazer uma piada com isso.



-"Visita Do Lula" (Squid's Visit)



Começa com Bob Esponja chamando Lula Molusco pra ir na sua casa, e Lula educamente recusa. Bob Esponja então começa a chorar agarrado aos pés de Lula, seguindo-o por todos os cantos (primeiro sinal do episódio).

Patrick sugere que Bob Esponja pegue emprestado (a.k.a. roubar) algo do Lula pra que o force a ir pra casa dele.

Lula ouve barulhos e vê um bilhete de Bob dizendo que levou o aspirador de pó dele. Lula vai pra casa de Bob pra pegar de volta, e a casa de Bob está exatamente igual a de Lula.
É uma exata réplica.

Bob Esponja ficou tempo demais na casa de Lula pra copiar o menor dos detalhes, inclusive o bordado da mãe de Lula. Bob age como se fosse um stalker do tipo mais perigoso, quase um estuprador, por assim dizer. Ele ouve um "não" e entende como "sim" e ninguém vai impedir ele de agir como quer e ouvir o que quer.

Além de  torturar psicologicamente o Lula Molusco, no final a casa original é queimada.
Ou seja, Bob Esponja é um stalker doente.



-Ignorante na Corrida (Demolition Doofus)

E como a cereja do bolo, esse episódio. Que assim como "Você Está Feliz Agora?", está no site oficial da Nickelodeon (a partir de 11:40).



Começa com Bob Esponja indo pra (mais uma) prova de pilotagem, até que por ele ser um imbecil retardado ele bate nos carros ao (tentar) fazer a baliza, incha a Sra. Puff, e explode o carro.
Batendo no farol.

No hospital, o médico explica que a bexiga inflatória ou algo assim estourou e que a Sra. Puff nunca mais vai poder inflar de novo.
Aí o Bob Esponja faz piada e a Sra. Puff tenta esganar o nariz dele.



Justo, se me perguntar. Bob Esponja aqui é aquele cara desagradável que pergunta pro outro que faz tratamento de câncer "Tá fazendo quimioterapia? Massa, bixo! Na federal?"

E durante TODO o episódio a Sra. Puff faz questão de deixar bem claro que não quer de jeito maneira Bob Esponja por perto, e ele age como se nada estivesse acontecendo.

E embora eu compartilhe (nesse caso) do desejo da Sra. Puff de dar umas mãozadas no Bob, ela leva sua ira além.


Ela descobre sobre as corridas mortais de carros-monstro, e pensa em mandar Bob pra lá.
Ok, essa imagem pode ser só metafórica, certo? Ela não seria tão cruel assim.

Certo?

CERTO??


A luta começa e ao ver que Bob continua intacto (mesmo sem não fazer ideia do que está acontecendo, diga-se de passagem), ela começa a gritar coisas como "Isso não está certo", "Esmaguem o Esguichador" (apelido dado a Bob na luta), e, o que mais me chocou, no original em inglês (porque foi adaptado pra fazer um trocadilho em português), "Porque ainda está vivo?"

Prestem atenção nessa frase. Não "Porque ainda está de pé", ou "Porque não está ferido". "Vivo" é a palavra usada. Sra. Puff quer literalmente, exatamente, diretamente, ver Bob Esponja morto, sem alma, enterrado. E se bobear, vai passar o enterro todo gargalhando.

Hey, Seu Siriguejo também sentiu um prazer delirante ao torturar Plankton, não duvido que eles fariam a mesma coisa aqui.

Bando de mentecaptos.



E então Sra. Puff resolve que "se [CENSURADO] não vai à montanha, então a gente passa por cima dela quebrando geral".
E no final Sra. Puff volta a inflar, mas a escola de pilotagem é reduzida a pó no processo de perseguição.

Ou seja, nada com nada chega a nada.


Eu não vou mentir. Esse foi um dos episódios mais difíceis de assistir, pessoalmente. Eu sempre tive um apreço pela Sra. Puff, justamente por ela ser aquela professora de escola pública brasileira, que nunca desiste de seus alunos pelo amor de ensinar.

"Mas Capão", você pode se perguntar, "teve aquele episódio que o Lula dá uma torta-bomba pro Bob Esponja, cadê ele?"

Acontece que aquele episódio tinha coisas que esses da lista não tem. Como piadas de fato engraçadas, personagens agindo exatamente como devem agir, e momentos genuinamente tocantes. Esse episódio torna Lula um pouco mais humano. Sim, ele não suporta Bob Esponja, mas ao descobrir o que ele fez ao pobre rapaz, resolve passar o dia todo fazendo tudo que o Bob mais queria. Lula nunca quis matar o Bob, aliás, foi um mal-entendido criado por um pirata ganancioso.

Esses episódios que eu citei... Não são só ruins. Eles chegam a serem danosos. Muitas vezes séries pra criança são subestimados, e por serem "coisa pra criança" são ignorados. Mas justamente por serem pra criança é que eles tem uma responsabilidade imensa.

Do fundo do meu eco, eu não quero acreditar que esses episódios tenham sido feitos por mal. Não quero acreditar que eles foram feitos pra fazer mal às crianças. Quero acreditar que eles são sinal de uma série que pede há tempos pra morrer, porque já deu tudo que tinha que dar. Assim como Padrinhos Mágicos.

E sim, eu defendo muito o que Carl Barks disse sobre o politicamente correto. No entanto, é necessário haver primeiramente um propósito no quão politicamente incorreto você vai ser, e ainda, analisar seu público-alvo e pensar como eles provavelmente vão reagir.

Coisa que a Nickelodeon tá pouco se lixando, bota qualquer merda aí, Sanjay e Craig, Breadwinners, sitoms sem graça, vinhetas irritantemente agudas.

Agora, não vou fazer de conta que não existem bons episódios modernos do Bob Esponja. Eles existem e merecem crédito. Mas não tiram a culpa dos episódios citados aqui.

"Ninguém liga mesmo, são só crianças."


(Obrigado à minha amiga Patty Gunther por ter me incentivado a escrever esse artigo.)


[Opitorial] Sobre Haters e Saban



Eu não queria ter que falar nesse assunto tendo como motivo certas coisas que aconteceram recentemente. É um assunto bastante interessante, e que eu adoro estudar, debater, e pesquisar.

Mas aparentemente eu preciso começar do começo.




No início dos anos 90, Haim Saban viu que séries tokusatsu tinham um certo apelo na Europa, e decidiu tentar fazer a mesma coisa nos EUA.

Então ele fez um acordo com a TOEI de usar as cenas e roupas japonesas e misturar com cenas produzidas pela empresa dele, nascendo assim Power Rangers.




A tática não era nova, entretanto. Godzilla de 54 teve o mesmo tratamento na época.

E as crianças gostaram, foi um sucesso absoluto, uma verdadeira febre com direito a até música de Sandy e Júnior em terras brasileiras.

O Brasil já tinha recebido dois booms de tokusatsu: o dos anos 60/70, com National Kid, e o da geração Manchete, com Jaspion, Changeman, etc.



Com a chegada de Power Rangers no Brasil, muitos ficaram "olha só os americanos fizeram uma série tipo Changeman", e pouco se sabia das origens da série.

A história era passada pouco a pouco, chegou na revista Herói e aí é onde eu acredito que começou-se a criar um certo ódio de Power Rangers, porque os fãs se sentiram "traídos", eu imagino.

E após a chegada da internet, essa informação se espalhou mais rapidamente e, consequentemente, o número de haters aumentou.



Eu compreendo totalmente que se odeiem Power Rangers. O nome da franquia carrega uma gama de significados, dentre eles "série tosca" e "infantil". Como eu já falei aqui, não há nada errado em ser infantil.

Mas, como eu falei, a palavra carrega uma série de significados, em geral nem todos bons. Nesse caso, eu aconselharia a preparar um discurso rápido explicando a história da franquia. Adotei essa postura há anos e nunca pretendo mudar.

Você tem todo o direito de odiar Power Rangers. No entanto, me sinto obrigado a levantar alguns pontos.



-Se você gosta do tokusatsu da Toei atualmente e odeia mortalmente Power Rangers, você é um(a) mal-agradecido(a). Como eu falei, Power Rangers aumentou bastante os lucros da Toei, possibilitando que ela investisse mais nas séries.

-Power Rangers possibilita que fãs com pouco dinheiro e/ou não confiam na internet pra fazer compras, adquiram os bonecos. Sim, alguns vêm estranhos, mas ultimamente têm vindo diversos bonecos com muita qualidade, bastante articulados, até. E se o boneco tiver o tipo físico de montanha (como é em algumas ilustrações de PR), então é só não comprar.



-Há a possibilidade de vir uma série boa, ou até melhor que a original. E Power Rangers RPM tá aí pra provar isso. Não vi a série inteira, mas ela introduz elementos que não se vê tanto no próprio tokusatsu como um todo, como um mundo pós-apocalíptico, um tom mais sério, e quebra de alguns clichês, e ao mesmo tempo sabe quando não se levar tão a sério.

E se vir uma série ruim, apenas fazer o que um entusiasta comum faria: apontar erros e acertos e debater com outros entusiastas como melhorá-los, trocar ideias.


No entanto, recentemente presenciei algo que é quase surreal. Uma página chamada Herosatsu, administrada pelo Red Turbo, teve uma atitude ditatorial e anti-democrática, ao apagar comentários que simplesmente discordavam das ideias do dono.

Postagem do Herosatsu

Diversos comentários, apresentando argumentos contrários aos apresentados na postagem. Isso porque Red Turbo pregava a prevalência do "tokusatsu original", e repudiava qualquer obra adaptada.

...isso é tão errado em tantos níveis...

O que o Red Turbo acredita é que Power Rangers não é tokusatsu pelo simples fato de ser uma adaptação.
O que é uma estupidez.

Ora, se as cenas de luta (vindas de séries japonesas) tem sua ligação dentro da história criada, então elas formam um conjunto de estrutura semelhante ao das séries japonesas.

Então, se Power Rangers, que se baseia em Super Sentai em todos os aspectos possíveis, não é tokusatsu, então o Super Sentai também não é tokusatsu.

O mesmo pode ser aplicado a Dragon Knight, Masked Rider, France Five, Insector Sun, Guerreiros Místicos de Tir Na Nog, Jovens Guerreiros Tatuados de Beverly Hills, os filmes e a série live action das Tartarugas Ninja, e Bibleman.
Note que eu não estou debatendo a qualidade das séries, mas simplesmente a classificação. The Cat in the Hat (2003) é um ~>PÉSSIMO<~ filme de comédia, mas a estrutura e desenvolvimento apresentados mostra que tenta ser uma comédia.

E os comentários eram bastante embasados, um deles até dizia que porcausa de PR, Zyuranger vai chegar em DVD nos EUA, e estava até esperançoso de vir novas séries.
Mas ele cometeu o terrível crime de discordar da opinião de Red Turbo.



E no entanto ele apagou praticamente todos, restando apenas uns poucos, e o resto de mensagens de apoio a ele.
E ainda deixou um comentário na postagem dando a entender que "os fãs de PR não aceitam a opinião dele de que PR não é tokusatsu e por isso vem xingar".

...indeed.

Enfim, esse foi um dos principais motivos para eu escrever essa postagem. Achei que não houvessem mais pessoas com esse tipo de pensamento (ou maturidade, ou a falta dela), mas aparentemente eu estava enganado.

Escrevi essa postagem para fazer esses haters extremistas pararem e pensarem um pouco no que estão fazendo. Isso é uma atitude que não deveria ocorrer com indivíduos adultos, e eu sinto que alguém precisava falar algumas coisas em voz alta.

A postagem original está no link https://www.facebook.com/Herosatsu/photos/a.347260105382471.74005.347255258716289/655976187844193/
Os comentários apagados estão registrados nas imagens abaixo. As identidades foram preservadas em respeito à privacidade de quem postou, espero que entendam.
(Clique para ampliar)