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[Tio Walt - Parte 4] Juntando as Moedinhas


Após as experimentações de Válter misturando animação e cenas reais, ele decidiu que era hora de fazer algo de útil com isso. Há muito tempo ele queria fazer um filme com as histórias do Tio Remus, um personagem folclórico que contava fábulas durante o tempo da escravidão dos EUA.

Só por esse parágrafo cê já deve pensar que deu treta. Os caras da produção tentaram alertar o patrão, mas Válter disse "pro inferno com isso, vamo fazer mesmo assim".


E assim o fez.




A história se passa num período após a abolitura da escravação, quando a família de Johnny vai visitar a plantação de sua avó. Logo ele descobre sobre Tio Remus e começa a se encontrar com o velho, que conta histórias sobre Br'er Rabbit e como ele fugia das armadilhas de Br'er Fox.

Mas Johnny acaba aplicando algumas espertezas de Quincas com uns bullies e sua mãe lhe proíbe de ver Remus. Claro que isso não o impede, bladi bla di bla.


O filme em si é basicamente um slice of life. Não tem um conflito central, não tem exatamente um vilão, é só Johnny no sul, interagindo com outras crianças e ouvindo as lições de Remus. Mas que é o suficiente pro filme se sustentar, certo?



...eh.


Embora tenha excelentes conceitos, o filme é bastante esquecível. Não que ele seja necessariamente ruim, certamente vale a pena assistir duas ou três vezes, mas eu tava pesquisando pra fazer essa resenha e nem lembrava que tinha outras músicas além de Zip-A-Dee-Dooh-Da.

As aventuras de Johnny são identificáveis e fazem o filme trazer o que tem de melhor: Tio Remus contando as histórias.


Não só as histórias são de fato interessantes e com boas morais, mas a animação é muito linda e bem-feita. E eu digo, rapaz, é BEM-FEITA. Se eu pudesse escrever "bem-feita" em tamanho maior, colorido e com glitter seria melhor.

É a animação Disneyana da época, mas a mistura no live-action é simplesmente fantástica, mesmo que hajam poucos momentos. Quando há sombra, eles fazem a sombra; quando um desenho pula na água, a água quica de maneira equivalente, a interação com os atores é dirigida de forma competente; é simplesmente lindo.


E como a cereja do bolo, temos Tio Remus. Meu Deus, que cara legal. Quando eu crescer eu quero ser que nem ele e o Bert. Esse cara tem um coração de ouro, um sorriso e uma risada calorosas, e um jeito especial de lidar com crianças e de contar histórias que tenham valor pra elas. Ele é simplesmente o cara mais legal possível, eu quero dar um abraço nele.


E é interessante o ponto em que a mãe proíbe o moleque de ouvir as histórias (de fato, com boas morais) porque ele não soube aplicar na vida real. Até parece que a história se passa nos anos 50, com a perseguição aos quadrinhos. Ou nos anos 90/00, quando o alvo foram os videogames.


E falemos do Elefante na Sala. Até mesmo na época, o filme sofreu várias acusações de racismo, e pelo pouco que sei, sim, ele tem idéias datadas que são se sustentam; o diálogo é escrito de forma sofrível... Mas o negócio é, até mesmo na época tavam acusando o filme sem sequer assistir. Walter Francis White, secretário executivo da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor, emitiu uma nota dizendo que o filme glorifica o relacionamento de dono/escravo. Sendo que nunca vemos de fato nada explícito ou implícito sobre isso. A nota foi emitida baseada em testemunhos de dois membros da Associação que viram o filme. Ou seja, ele sequer tinha visto o filme.

Quem raios ele pensa que é? Jack Thompson?




Como eu mencionei, o filme se passa depois que os escravos foram libertos, e era um período de transição. Tio Remus inclusive já era um escravo livre, enquanto outros ainda iriam receber a soltura.

A Disney poderia relançar o filme (já que o último lançamento foi em VHS) fazendo o mesmo que a Warner fez com os desenho de Tom e Jerry. Aliás, fizeram algo parecido com Victory Trough Air Power, dá pra pegar o mesmo cara e fazer a introdução.


Segundo a Disney Wiki, existem planos de relançar o filme, já que é parte da história do estúdio, e eles tão estudando a melhor forma de fazer isso.

Não é um filme espetacular, mas tem excelente animação e excelente atuação do Tio Remus. Talvez o status quo da escravidão de lá se aplique de uma forma diferente que a gente vê por aqui, mas eu sinceramente não consigo ver algo ruim na figura de Remus ou dos outros personagens negros no filme. Pelo contrário, vejo eles contando histórias na fogueira, cantando, Tio Remus sendo o cara mais gente fina do lugar.


Com isso de lado, é um filme beeeeem "ok". É assistível, talvez não deixe uma impressão forte, mas é parte da história do estúdio.

A propósito, Walt não tinha experiência com live-action, mas queria que os filmes tivessem o mesmo nível de qualidade que seus desenhos, então costumava chamar gente de peso pra fazer os (futuros) live-actions. Song of the South tem como diretor de fotografia Gregg Toland, o mesmo de Cidadão Kane.
Se acertar uma pergunta dessas num quiz, já sabe a quem agradecer.


Ok, antes de irmos pro próximo filme, precisamos voltar um pouco na História.

Lembram que haviam curtas de Mickey, Donald, Pateta, Pluto? Então, Mickey era a estrela principal e mais popular até meados dos anos 30, quando o pato e os cães se tornaram mais populares que o rato. Temendo por sua vida e alegando que tinha namorada e dois sobrinhos pra criar, Mickey exigiu ao seu criador que desse um jeito nisso, ou ele iria pra Universal. Válter não podia deixar escapar o rato (que, como Walt dizia, era da família) e produziu mais curtas estrelando os três círculos mais poderosos do mundo, como O Aprendiz de Feiticeiro e O Alfaiate Valente.

No entanto, porcausa da Segunda Guerra, um projeto ficou em pausa, que foi justamente Mickey e o Pé de Feijão, lançado juntamente com a adaptação de uma história pra crianças, Bongo.

Agora eles tinham tempo e um certo orçamento, que foi usado pra cortar uma pancada de coisa nos dois projetos e juntar num filme-pacote só.



Fun and Fancy Free (no Brasil, Como é Bom se Divertir) começa com O Grilo Falante invadindo uma casa e botando pra tocar um disco com a história de Bongo, narrada pela Dinah Shore.

Bongo é a estrela do circo, mas não é tratado tão bem quanto deveria, e ouve o chamado da natureza. Até que um belo dia, ele resolve escapar e descobre que a natureza é bela, magnífica, OH! Mas também é cruel, feroz, difícil de entender, onde ursos demonstram afeto batendo uns nos outros.

E você achou que entender os sinais daquela sua amiga que tinha uma queda por ti era difícil de entender, hein.

Bongo acaba se apaixonando por uma ursinha, aparece um ursão que detona Bongo, blablabla, vocês sabem o resto.


Pra um curta, é até longo demais. Depois de um tempo a história fica cansativa e a piada meio que se perde no tempo. Embora a animação continue bastante agradável e no tom certo que a cena pede, a narrativa em si se perde demais. Há dois grandes momentos que poderiam ser cortados pela metade e tornariam mais assistível, que é toda a cena de Bongo e da ursinha cujo nome esqueci, e a batalha final entre Bongo e o ursão. Se essas duas cenas fossem reduzidas, provavelmente seria mais divertido, mesmo não sendo muito meu estilo.

...sei lá, ele é muito fofo, mas de uma forma... Datada. Eu vi esse curta quando criança e também achei demorado e chato, depois de um tempo.


Mas o que me chama a atenção é que, mesmo numa história mais ou menos, a animação ainda é supimpa e rápida, e nos momentos lentos ela é fluida e bem ritmada. E os cenários são lindamente produzidos.

Provavelmente chame a atenção de crianças bem pequenas, mas pra mim, meh.


Depois, o Grilo vai pra uma festa na casa da frente, com Edgar Bergen. Oloco, Grilo! Se eu soubesse, tinha te mandado pra lá logo! Até porque é um senhor de meia idade com bonecos entretendo um única garotinha... E não vemos sinais dos pais dela por perto...

...já sabemos um dos motivos desse filme-pacote ter sido lançado completo pela última vez em 97.



Enfim, Edgar começa a contar a história de Mickey e o Pé de Feijão, onde havia uma terra linda maravilhosa, frutífera e frondosa, tudo graças à magia de uma harpa que parecia levemente com a Cinderela. Até que um dia, uma sombra a rouba, e a maravilhosa terra fica miserável, infrutífera, povoada apenas pelos nossos 3 heróis e estudantes de filosofia da UECE.



Mickey então resolve vender a vaca, e volta com feijões mágicos que os levam às nuvens, direto ao castelo do gigante que roubou a harpa. E o resto vocês já sabem, e os que não sabem, vão ler um livro, pelo amor de Deus.

Esse curta é mais fácil de assistir, principalmente porque os personagens tem mais personalidade, carisma, e são até melhor animados que Bongo. Ora claro, são a joia da coroa de Valdisnei.


E a história é mais fácil de acompanhar por já conhecermos, não há muitas surpresas.

...exceto o gigante ter poderes de transformação, invisibilidade e mudar de tamanho.

Que é de longe uma das coisas mais inexplicavelmente desnecessárias que eu já vi.

Ele já é um gigante, pra que raios ele precisa de poderes? E desse estilo, especificamente? Isso tira toda a graça que um gigante deveria ter e até bota em descrédito a identidade de gigante. Ele é um gigante ou um metamorfo que gosta de ficar gigante? Aliás, na cena final, ele aparece procurando pelo Mickey numa cidade, e ele é gigante. Não seria mais fácil mudar de tamanho, ou virar um pássaro pra ter uma visão aérea? Aliás, DAONDE RAIOS ELE GANHOU ESSES PODERES?


MEU DEUS QUE CONCEITO IMBECIL!



Ok, mas o curta em si, é divertido?

...é...

Digo, é ridiculamente previsível e assim como Bongo tá claramente no lugar errado, mas sim, é aproveitável. Não é altamente memorável, mas é criativo em vários pontos da narrativa. Uma parte que ficou comigo desde pequeno foi a de Mickey partindo o feijão, embora na minha memória fosse completamente diferente.

E esse é o último filme em que o homem em pessoa, Walt Disney, dublou Mickey Mouse! Depois disso ele só fez a voz do personagem na abertura de Mickey Mouse Club, em 55.


Agora você sabe, e saber é metade da batalha! Hu-ha!


Após Fun and Fancy Free, Walt e sua equipe rasparam o fundo dos arquivos de idéias e encontraram mais algumas, o que levou Walt a dizer "faz um filme-pacote de novo", e assim tivemos o último do estilo, Melody Time (Tempo de Melodia).


Por algum motivo, foi o que eu senti mais longo. Não sei se teve mais curtas que os outros ou se foi só mais maçante, mas foi... aproveitável.

A coletânea começa com Once Upon a Wintertime, uma sequência bonitinha sobre um casal de jovens que aproveitam o inverno. O cara faz uma besteira sem querer e a guria fica danada de raiva, e o abandona. Daí a guria entra em apuros e o mocinho vai salvá-la com a ajuda de animais da floresta. E sim, o curta é tão meloso quanto parece.


No mesmo estilo gráfico de All the Cats Join In (mas com menos polêmicas), Wintertime é competente no que promete: é uma história curta e melosa sobre paixão juvenil durante o inverno. Tem umas idéias criativas, mas não sai muito além do que tu espera.


Bumble Boogie é uma que retorna às raízes de Fantasia. De fato, esse curta era uma idéia descartada de Fantasia, que provavelmente seria feita nas suas reexibições. E de fato, mostra. É basicamente a música literalmente tentando matar a mosca, o que dá idéias fantásticas de serem exploradas. Eu particularmente gosto mais desse tipo de curta, que sincroniza música e animação criativas. Considero a evolução natural das Silly Symphonies, parando pra pensar nisso.




Johnny Apleseed é um dos poucos momentos onde a Disney toca em personagens reais, onde a história se mistura com o status de lenda. Johnny queria muito ir pro Oeste com o resto das caravanas, pra expandir o lugar e etc. Mas ele se sentia inútil porque tudo que ele sabia fazer era plantar e colher maçãs. Até que seu anjo da guarda aparece e diz pra ele ir mesmo assim, porque os cara vão precisar de maçã pra comer. E assim Johnny fez, espalhando maçãs pelo país todo.

Sendo um dos curtas que conta uma narrativa completa, é mais fácil de acompanhar, ainda mais pelo caráter histórico e lendário, bem como o carisma de Johnny. Que não é lá essas coisas, mas é o suficiente pra manter interessado.


A direção artística é impressionante, com belos backgrounds e animação padrão Disney, que é o suficiente pra ser surpreendente. Eu realmente gosto da idéia das árvores se tornarem nuvens, capta bem a idéia final do curta.



Little Toot é uma típica história pra criança, mas que tem lá seu charme. Pra quem não gostar, é curta o suficiente.

Conta sobre um barquinho rebocador que sonha em ser como seu pai, mas acaba fazendo uma merda lá e seu pai acaba rebocando lixo, e Toot banido.

O que na real é assustador e injusto pacas, Toot é uma criança e eles deixam ele em mar aberto? Meu Deus.

Mas Toot acaba rebocando um navio e é recebido de volta como herói. Bonitinho, não tem muita coisa interessante fora a animação na tempestade, é um negócio lindo demais.



Trees é um que divide opiniões: uns acham muito maçante; e outros apreciam a beleza e a poesia da simplicidade. Eu faço parte do segundo grupo.

A poesia é narrada, enquanto a animação a descreve, de uma forma sutil e bela. Digna de Fantasia.
Eu poderia descrever mais, mas não faria jus, é algo pra ser experenciado.


Blame it on the Samba é uma idéia descartada de Los Tres Caballeros e... É divertido. Donald e Zé Carioca chegam cabisbaixos, como se o Vasco tivesse sido rebaixado de novo. Até que o Aracuan faz uma mistura musical que os deixa animados. Obviamente, deu samba.

Essa expressão existe né? Nem sei o contexto, fica assim mesmo.


No mesmo estilo surreal de Caballeros, o curta mostra o talento criativo dos animadores, com cores vibrantes e animação rápida. A melhor parte é quando a animação se mistura com a moça tocando no piano, que ainda mostra o talento da mesma.

É um piano de dois andares e ela faz o som base com os pés. Eu tenho quase certeza de que tem um nome próprio pra isso mas tou com preguiça de pesquisar, alguém aí com certeza vai dizer o que é.


O último segmento é Pecos Bill, que começa com um bando de cantores de country posando de cowboys, com os dois pivetes de Song of the South, que provavelmente só apareceram porque tavam no intervalo de gravação do filme.

Daí o guri pergunta porque os coiotes uivam pra lua, e os cantores começam a cantar sobre Pecos Bill.

De como ele caiu do vagão e foi adotado por uma família de coiotes, até se tornar um caubói adulto e a versão animada do Chuck Norris, praticamente.

Eu assisti esse filme há uns 2 ou 3 anos atrás, quando passou no TCM, e eu não lembrava o quão exageradamente engraçado é esse segmento.


Os feitos que são atribuídos a ele são de fato, no estilo dos feitos do Chuck Norris, como domar um redemoinho e laçar a chuva da Califórnia pro Texas. E tudo é lindamente animado, como de costume.

Eu realmente gosto desse curta, talvez mais que o de Johnny Apleseed. Pela energia, criatividade, e comédia que ele tem.

Mas, no geral, Melody Time acaba sendo... mediano. Ele não é espetacular, mas... Existe.


Nesse tempo, tio Válter já tava começando a juntar uma certa grana, mas ainda faltava um último filme-pacote pra lançar: Ichabod and Mr. Toad (As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo, ou Dois Sujeitos Fabulosos, antigamente). Havia planos de usar o Grilo Falante como em Fun and Fancy Free, mas foi descartada. Ao invés disso, eles usaram uma biblioteca com narradores invisíveis (o que poderia explicar os livros flutuantes, mas divago).


E esse é um filme que já mostra sinais de melhora de orçamento. A qualidade da animação é melhor, tu nota que os personagens tem mais movimento e vida; os cenários tão mais bem acabados que os anteriores, e até a narrativa é mais interessante.


A primeira história é Wind in the Willows (O Vento nos Salgueiros), que conta sobre Mr. Toad, um sapo que, assim como eu, parece ter uma nova obsessão a cada semana. Mas no caso de Toad, é um negócio incontrolável, que o leva a julgamento por ser suspeito de roubar um carro, e junto de seus amigos (um rato d'água, uma toupeira e um texugo) vão tentar recuperar sua mansão.



Essa é uma história legitimamente divertida, com várias indas e vindas. A animação é excelente, com momentos calmos mas também momentos rápidos e tensos. Muito das personalidades vem justamente da animação, mas o roteiro também é inteligentemente escrito. A cena do julgamento tem um lindo plot twist bem como uma piada memorável.

Sem falar no clímax, onde vemos um dos melhores slapsticks que a Disney já fez, no mesmo estilo daquele curta do Pateta jogando futebol americano.




A história foi sugerida pra Walt em 38, justamente porque, como a história traz animais antropomórficos (e em escalas reais, o que torna meio estranho contrastando com humanos, aliás), seria ideal pra se fazer uma animação, ao invés de um live-action.

A adaptação de 83 é uma prova disso.


[war flashback]


O outro curta é de fato o highlight do filme. Sleepy Hollow (também conhecida como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) conta sobre Ichabod Crane, um professor que chega numa cidadezinha próxima a Nova York, quando ainda era um condado. Ichabod faz amizade com as pessoas da região e embora tenha uma aparência estranha, conquista a confiança e admiração das pessoas.




Exceto por Brom Bones, o projeto de Gastão local. Ichabod e Brom são rivais na conquista do coração de Katarina, filha única do lavrador mais rico da região. Na festa de Halloween do dito lavrador, Brom tenta separar Crane e Katarina, sem sucesso. Até que ele resolve apelar pra superstição de Ichabod, contando sobre a história do Cavaleiro sem Cabeça, que habitava justamente o bosque que ficava no caminho de volta pra casa.

Ichabod encontra a criatura e... Some. O final dá uma alternativa sobre o paradeiro de Ichabod, mas a resolução é que ele realmente morreu. Que ficou um final muito melhor que no livro, onde Ichabod se mudava pra outro canto e virava advogado e político.


A animação é ainda melhor que Wind in the Willows, bem como os backgrounds. A primeira metade do curta é bastante simples, mas com muita atmosfera. É amigável, é bonito, quase te dá vontade de morar nesse lugar. A segunda metade é igualmente atmosférica, mas no sentido oposto, te dando arrepios, claustrofobia, e um senso de perigo constante. É incrível o trabalho que os caras conseguiram nesse curta, um dos melhores cenários do estúdio.

A animação também é superior a Mr. Toad, e precisa ser, já que não tem diálogos, é tudo contado pelo narrador (exceto pela música cantada por Brom). E ainda assim os personagens tem tanto carisma, tanta personalidade, tudo contado de forma visual.



O clímax é uma das coisas mais espetaculares que eu já vi na vida. O build up pra aparição do Cavaleiro é sensacional, reflete bem o que uma pessoa que tem medo de quase tudo sente. Eu sei disso porque eu era uma criança medrosa, e em casas grandes (como da minha avó) eu sempre tinha medo de alguma coisa, e aqui isso é refletido de forma fidedigna.

Exceto que Ichabod não tinha primos armando pra ele.

...ou tinha?


Há um debate se o Cavaleiro era real ou se era Brom disfarçado. Certas coisas batem, como o cavalo de ambos ser da mesma cor, mas eu não sei exatamente quanto à altura deles, então eu não tenho uma opinião conclusiva quanto a isso.

Mas isso é uma das coisas que torna o curta tão especial, ele não te dá respostas, ele te deixa questionar e voltar a ele pra ter não só as emoções, mas também procurar essas respostas.


E também há um certo debate (com mais consenso) de que Ichabod é um babaca. Desde o primeiro momento que ele tem contato com o pessoal da vila ele tá tentando de maneira sutil se aproveitar deles. Rouba a torta de uma moça que ele ajuda a passar; olha as lancheiras dos alunos. Até deixa de disciplinar um aluno porque a mãe dele cozinha bem, e faz uma lista de visitas nesse sentido. Ora raios!

E pior, ele só quer casar com Katarina porque o pai dela é rico, e já se imagina tomando o lugar do pai dela.


Agora, Katarina também não é uma santa, a música dela deixa bem claro que ela não se importa muito com os sentimentos de quem se apaixona por ela, ela só quer ser servida e ver o circo pegando fogo, incentivando a rivalidade entre Ichabod e Brom.



Ironicamente, Brom é o cara mais gente boa da vila. Eu não sei se foi intencional, porque obviamente Ichabod é o protagonista e Brom o antagonista, mas ele serve cidra pra todo mundo, até pros animais; não vemos ele fazer nada exatamente errado; ele legitimamente parece gostar de Katrina e a ajuda sem esperar nada em troca. Ele é o Gastão da Terra-2.

Olhando por esse ponto de vista, Ichabod ser morto pelo Cavaleiro foi basicamente uma punição justa.


Ambos os curtas são sensacionais. Wind in the Willows pode demorar um pouco a se desenvolver, mas vale todo o tempo investido, bem como Sleepy Hollow. Um excelente jeito de terminar uma Era Disneyana.

Walt iria fazer mais uma aposta, em outro período difícil.

Começava a Era de Prata Disneyana.

[Tio Walt - Parte 2] Ascensão




Após o estrondoso sucesso de Branca de Neve, Walt começou a produzir o próximo longa, também baseado em um conto de fadas. Enquanto ele tentava desesperadamente conseguir os direitos de O Maravilhoso Mágico de Oz, Walt começava a lapidar as técnicas de animação.

O esforço da equipe resultou num filme que até hoje é aclamado por muitos como o pilar da animação Disneyana e ocidental como um todo: Pinóquio.




A história conta sobre Gepeto, um marceneiro/relojoeiro que faz peças de mobília de madeira e relógios cucos. Ele adiciona "marioneteiro" no currículo ao construir Pinóquio, um marionete no formato de um guri. Desejando à uma estrela que o boneco fosse um guri de verdade, seu desejo é atendido pela Fada Azul, que dá vida a Pinóquio. Mas o jovem autômato precisa provar que pode ser altruísta e blablabla, aliado ao Grilo Falante, sua consciência.


No caminho ele se encontra com João Honesto e Mel Blanc, que são a porta de entrada pra tudo que parece bom pra Pinóquio, mas que acaba dando merda. Pinóquio precisa aprender a ser um bom menino e salvar Gepeto, que saiu em sua busca e acabou engolido por uma baleia.

...acontece.



O filme tem vários daqueles elementos de contos de fada que adoramos zoar (como por exemplo, João Honesto se surpreende com um marionete vivo, esquecendo de que ELE É UMA RAPOSA DO TAMANHO DE UM SER HUMANO QUE FALA, USA ROUPA E FUMA CHARUTO), mas que no fundo, acaba sendo uma admiração por ser um mundo mais inocente, onde a lógica muitas vezes não existe (ao menos comparado ao nosso mundo real).


Embora a narrativa possa se sentir datada de leve, é na verdade um imenso avanço em comparação a Branca de Neve. Pela primeira vez temos uma história com narrativa mais concreta, com um personagem ativo na história (embora ele passe muito tempo preso ou em posição de vítima), e que além disso é bastante explorado em sua inocência. Muito do carisma de Pinóquio vem do fato dele ser um menino normal, mas quase criminalmente inocente. Ele fuma, bebe, é enganado, mas tudo porque ele não tem um norte moral muito definido.



O que ele deveria fazer era obedecer ao Grilo Falante, mas uma vez que Pinóquio ainda não tem uma mentalidade muito formada, não o faz, e age por instinto.

O Grilo é um daqueles personagens que de fato fazem o filme. Pinóquio é identificável e aprende a moral, mas o Grilo é o que faz o filme mover, é como a personificação da platéia torcendo pra que Pinóquio faça a coisa certa. Mas ainda assim, ele é um personagem humano, que se irrita, e que em certo momento admite estar errado e se sente dispensável. Há esse sentimento irônico por todo o filme, aliás. O cara dos show de marionetes em um momento está feliz e saltitante, pra imediatamente se irritar por ter sido enganado, pra no outro segundo enganar Pinóquio agindo como se estivesse sendo bom pra com ele.

A animação é esplêndida. O filme até hoje se mantém como um dos mais belos filmes que os estúdios já fizeram, com belíssimas sequências que apefeiçoam o uso da câmera de multiplano, onde temos um zoom na cidade, seguido de uma panorâmica, e depois outro zoom, enquanto personagens se moviam.




O filme faz uma jornada em uma variedade de cenários: a cidade pequena, os festivais circenses, ao oceano, e é tudo tão belissimamente executado, em termos de design, de animação, de atmosfera. O clima dos diálogos também ajuda a manter o interesse do público, há sempre uma certa ironia permeando tudo, como já falei.


E claro, Walt não estava satisfeito de assustar crianças com a bruxa em Branca de Neve, ele agora subiu mais um nível com a Ilha dos Prazeres, que continua tendo algumas das cenas e conceitos mais sombrios que se pode imaginar pra um filme pra crianças, creio que até os dias de hoje (já que os produtores parecem ter medo de traumatizar as crianças, bando de covardes politicamente corretos criados a danoninho e tekitos).





Branca de Neve estabeleceu as técnicas de animação, Pinóquio aperfeiçoou as técnicas de narrativa. Mas tio Válter tinha planos diferentes pro próximo filme.

Walt planejava um curta comum de Mickey Mouse baseado na história e música do Aprendiz de Feiticeiro. Enquanto batia um rango com um dos mais famosos maestros da época, Leonard Stokowski (cujo nome é complicado o suficiente pra mim a ponto de eu errar a escrita dele duas vezes enquanto consulto a Wikipédia, então o chamarei de Leléo a partir daqui), Walter mencionou sobre o novo curta de Mickey, ao que Leléo respondeu "Ow parece uma idéia massa, bota meu nome no trabalho, vá lá". 

No entanto, o projeto parecia ser custoso demais pra ser só um curta, então Válter pensou numa forma diferente de filme, tão diferente que a distribuidora dos filmes (RKO Radio Pictures) não quis distribuir. O projeto resultou em Fantasia.


A idéia de Walt não era fazer um simples filme, mas de uma nova experiência. Do mesmo jeito que você vai assistir a um concerto de música clássica/erudita, uma ópera, você iria ver Fantasia. Mas ao invés de simplesmente ver os cara tocando, ia ver desenhos animados que sincronizavam com a música de uma forma única e criativa. O esforço era tanto que a distribuição foi feita totalmente pelo estúdio, que vendia ingressos antecipadamente, dava um folheto com a programação do dia e apresentava as mentes envolvidas no projeto (Válter, Leléo, e o crítico e compositor Deems Taylor como comentarista), assim como numa apresentação comum.

As salas de exibição também tiveram que ser adaptadas com cortinas na tela e com o sistema Fantasound, que foi o precursor do som estereo. Hoje qualquer zé faz qualquer coisa com som estéreo. Raios, o teu celular comprado "usado" na Feira da Parangaba tem som estereo, mas na época os caras tiveram que se virar pra ideia de estar em um concerto funcionasse.


É difícil falar do filme como um todo. Eu pessoalmente amo música erudita (obrigado pela boa influência, pai), e amo os desenhos Disney. O que eles fizeram foi basicamente elevar as Silly Symphonies à décima potência, e o resultado é muito bom.

...na maior parte. Algumas sequências eu amo profundamente, como a primeira, totalmente abstrada e surreal; a que usa música do Quebra-Nozes, que se passa numa floresta, e é simplesmente belo de se ver; Aprendiz de Feiticeiro; e beeem de leve o dos centauros e a Dança das Estações, ou seja lá como se chama, é a sequência com avestruzes, hipopótamos, elefantes e jacarés dançando balé. 





O resto eu simplesmente tenho uma vontade enorme de pular, porque o ritmo é lento demais e as imagens (pelo menos pra mim) não batem muito bem com a música. Exceto o Night at the Bald Mountain, que tem alguns designs interessantes, mas logo perde o ritmo.

Mas eu assistia Os Imaginadores não ironicamente, do que é que eu sei?

Mas é simplesmente um espetáculo, e se você nunca assistiu, deveria assistir pelo menos uma vez, garanto que vai achar algo que vai te agradar.




Uma última curiosidade: Fantasia teve algumas cenas alteradas devido a uma centaura considerada racista. Não é algo que vá fazer muita diferença no final (exceto na cena que Baco vai se sentar em seu trono), mas ainda é negar um elemento da época, assim como outro que veremos no futuro. Se tem curiosidade, veja esse vídeo.

Embora Fantasia tivesse sido um sucesso de crítica, foi um fracasso na bilheteria, e Válter acabou gastando mais que o normal devido a toda a parafernália que teve que criar e arrumar com sua equipe. Então resolveu voltar à sua zona de conforto, rápido, e de forma lucrativa.



Walt produziu The Reluctant Dragon, que à primeira vista parecia ser um longa animado, mas na prática era mais um making-of do processo de animação.
O filme acompanha Robert Benchley, que é um ator tão antigo que eu creio que nada que ele tenha feito vá ser familiar a vocês. Eu pesquisei sobre o cara e não lembro o que ele fez, oras. A esposa de Robert leu o livro do tal Dragão, e mandou ele pro Sr. Válter pra sugerir como adaptação.



Relutantemente (HÁ), Robert vai pro estúdio e acompanha o processo da craftação de um desenho animado, das salas de treinamento pra desenhistas até a projeção final.

O filme faz um bom trabalho em nos afeiçoarmos a Robert e ao estúdio em geral. A forma que eles mostram como cada elemento se encaixa na confecção de uma animação, dos efeitos sonoros, da gravação frame a frame, é tudo feito de forma leve e divertida.

O filme contém alguns curtas, como do trem Casey Jr, o primeiro "How To" do Pateta, um curta totalmente em storyboard, e o curta do Dragão propriamente dito.



A melhor parte do filme é de fato quando eles mostram como o processo de animação é feito, os efeitos sonoros, dublagem, etc. Embora o curta do bebê gênio seja mais previsível que O Bom Dinossauro, ainda tem idéias interessantes, mostrando uma faceta do processo.



O curta do Pateta é bom, primeiro daqueles vídeos de tutoriais engraçados (o que é curioso, o narrador foi pedido pra narrar como se fosse algo sério, depois descobriu do que se tratava). Nada de muito especial, mas mostra o potencial da série.


E o curta do Dragão Relutante é... Ok. Tem boas idéias, mas o guri do curta é meio desinteressante, e o Dragão e o Cavaleiro são tão previsíveis e exagerados que chega a dar uma irritação. Ou seja, a melhor parte do filme é realmente os dois primeiros terços.



Durante o filme, vemos como os funcionários são todos alegres e bonitos e empolgados. Isso porque não são funcionários, mas sim atores contratados. O filme foi filmado num dos momentos mais tensos e sombrios dos Estúdios Disney.

Sim, pior do que Alice do Burton e pós-O Caldeirão Mágico.



Se você lembra alguma coisa de História, lembra da Grande Depressão dos anos 30. Nesse tempo começou a surgir sindicatos trabalhistas, inclusive nos ramos artísticos. O líder da Aliança dos Animadores ("Clã dos Animadores" soa mais cool, mas enfim) era Herbert Sorrel, que era descrito como um "extrema-esquerda durão". Aparentemente ele também era bastante temido pelos estúdios, até porque ele garantiu contratos com estúdios como Walter Lantz, MGM, e Leon SHILESINGUER, que na época produzia os curtas de Looney Tunes e Merrie Melodies.


Leon SHIBESIJER tentou contornar a situação com Herbert, mas fracassou. Caiu, mas caiu atirando, ao se lembrar do adversário em comum dos estúdios. Lançou um olhar para Humberto e o indagou: "Ei, e o que faremos em relação a... Valdisney?"

Humberto olhou para Leon. Um olhar comum, a princípio. Mas que evoluiu.

Humberto teve uma idéia.

Uma terrível idéia.

Humberto teve uma incrível terrível idéia.

"Eu sei exatamente o que fazer." Humberto riu com prazer.


Os artistas disneyanos eram os mais bem pagos do mercado e com as melhores condições, mas ainda assim eles não estavam satisfeitos. Walt tinha uma política de dar 20% dos lucros dos curtas pros funcionários como bônus, mas depois de Branca de Neve abandonou a prática. Depois que se mudaram pros estúdios em Burbank, os artistas foram separados em uma hierarquia, e alguns benefícios (como sauna, restaurante, academia, e gostosinho com guaraná na merenda) eram reservados aos animadores e escritores top de linha. O resto tinha que se contentar com o calor abafado de escritórios pequenos, pegar o PF a dois quarteirões do estúdio, queimar as calorias enquanto andava os quarteirões no calor, e merendar pão dormido de ternantontem com uma manteiga verde que acharam enquanto faziam a mudança pro estúdio novo.


O sistema de pagamento era de fato desigual. Funcionários de alto escalão ganhavam 200 ou 300 Roosevelts, enquanto os de baixo escalão ganhavam 12. Muitos animadores se juntaram ao clã sindical e começaram a fazer greve. O caos tomou conta do estúdio e de Walt, que via o estúdio e os animadores como uma família.


Walt reuniu 1200 funcionários num auditório e discursou se defendendo. Em resumo foi algo na linha de "Se você contribuiu bastante pro estúdio, merece alguns privilégios. Tu não vai conseguir nada reclamando e esperando alguém te dizer o que fazer. Se quiser crescer na empresa, vai ter que mostrar que é bom."



A justificativa de Walt fazia sentido, mas não foi o suficiente pra agradar os animadores lá de baixo. As tensões também se estabeleceram enter Walt e Art Babbit, que era um animador do alto escalão, mas que simpatizava com os colegas menos favorecidos. A discussão chegou num ponto que o Walt disse "Se você não parar de organizar [sindicalmente] meus funcionários, eu vou te dar um chute na bunda com a força de mil infernos pra fora daqui"

Não dá pra traduzir direito a frase original , mas foi esse o tom.


Após a greve, o clima no estúdio nunca mais foi o mesmo, especialmente porque o número foi drasticamente reduzido (de 1200 pra 649). Walt se livrou dos funcionários preguiçosos, e o estúdio se preparava para os próximos filmes, que já tinham recebido uma certa prévia em Reluctant Dragon.


O filme "making-of" deu um certo retorno financeiro ao estúdio, mas não foi o suficiente, especialmente porque já havia se iniciado a Segunda Guerra, e alguns animadores foram chamados a servir, fora que o mercado europeu estava fechado pros filmes, tornando Pinóquio, Fantasia e Reluctant Dragon fracassos financeiros na época. Este último sequer conseguiu se pagar.


Walt apostou em um filme mais simples e com menor orçamento, sobre um livro que queria adaptar faz um tempo.



Dumbo conta a história de um elefante de circo que nasceu com orelhas imensas, que obviamente levou à zombaria dos moleques locais. A mãe de Dumbo roda a baiana e vai parar na solitária. Após uma tentativa fracassada de uma apresentação única, Dumbo acaba indo parar na equipe dos palhaços. Ostracizado pelos outros elefantes, Dumbo possui um único amigo, o rato Timóteo, que tenta ajudar o pequeno paquiderme a levantar o humor.

Eu gostava muito desse filme quando criança, provavelmente porque o SBT cosutmava fazer dobradinha no Dia das Crianças e eu gravava em VHS. Lembro até que esse filme passava antes de "Você Já foi à Bahia?", e no outro dia passava Alice no País das Maravilhas e outro que no momento eu não lembro qual era.

Infelizmente, eu tenho que admitir que não é um filme que envelheceu bem.



Digo, não é como se ele fosse insuportavelmente datado, ele é só... Ok. Não é um dos melhores trabalhos do estúdio, não tem exatamente personagens cativantes ou uma narrativa envolvente. É só uma historinha bonitinha sobre um elefante orelhudo e um rato de circo.

A animação é a tradicional animação Disneyana, muito fluida e muito bem feita, como de costume. Embora um olhar mais forte deva ser dado à cena de montagem do circo, que realmente tem um nível superior às demais.

E claro, a cena dos elefantes rosa. Meu Deus, que cena fantástica.



As imagens surreais e criativas que os cara mostram, é uma linha tênue entre assustador e divertido.
Eu realmente não tenho palavras pra descrever, se nunca viu, pare o que está fazendo e vá ver.
Exceto se tiver problemas com epilepsia, nesse caso pule o final.

Aliás, como raios o episódio do Porygon deu problema com epilepsia e esse filme nunca deu nenhum resultado parecido?
De qualquer forma, é uma cena que não tem propósito nenhum, mas que todos nós amamos por ser tão surrealmente estranha e divertida.



O filme serviu pra Walt arranjar uma grana fácil (o filme tem 1h de duração, ao invés do tradicional 1h30), fora dar uma cutucada nos animadores grevistas (na cena onde os palhaços falam sobre pedir um aumento pro patrão).

Oh sim, e sobre os corvos. Há muita controvérsia sobre serem esteriótipos racistas (e são, de fato, baseados na figura do Jim Crow), mas há o argumento que eles de fato foram mais progressistas que se imagina, já que eles são interpretados por atores negros (prática pouquíssimo comum na época), e serem os personagens mais bacanas e inteligentes do filme.


Como Doug Walker disse, eles são daora, ensinaram Dumbo a voar e tal. Claro, zombaram dele a princípio, mas depois se arrependeram e ajudaram o moleque a voar, that's cool.
Voltaremos a tratar desse assunto em um post futuro, sim.


E Válter usou o dinheiro pra financiar o próximo longa, Bambi.



...que é de longe um dos filmes mais entendiantes do estúdio, se não o mais.

A história é sobre um filhote de cervo chamado Bambi, e sua vida na floresta, fazendo a idéia do ciclo sem fim.

Só que sem orçamento e sem Shakespeare pra dar aquela mãozinha.

Eu na metade do filme.


Embora sim, filmes sem uma estrutura narrativa bem definida possam ser bons, no caso de Bambi não ajuda muito. Não é um filme que envelheceu bem, e as marcas do tempo deixam um gosto monótono na boca. A falta de desenvolvimento de personagens não nos incentiva a acompanhar e até a fofura dele acaba cansando, embora tenha um bom motivo pra ser usada.

Sendo um filme ambiental, ele é interessante por não mostrar o bicho-homem,e só sabermos da presença deste por outros sinais. Mostrar o caçador que matou a mãe de Bambi, ou a cena onde Bambi e o Grande Príncipe encontram o corpo de um dos caçadores foram idéias descartadas por serem complicadas de mostrar (o caçador teria que ser caricato demais e a cena seria pesada demais, mas tá presente no livro).

Artisticamente ainda é belíssimo, tho.


Embora tenha dado um certo lucro ao estúdio, foi feito e lançado durante a Segunda Guerra, e pra dar uma melhorada na situação financeira, Walt reexibiu Branca de Neve nos cinemas, prática que virou tradição do estúdio.
Infelizmente, seria o último longa animado feito pelo estúdio até 1950, com Cinderela, porque então o estúdio começou uma fase estranha e em certa medida, controversa.

Começava-se a era dos package films, ou filmes-pacote. Eu particularment gosto de chamar de "restos mortais de sequências de Fantasia", mas divago.

Uma célula de Bambi sendo colorida
em Reluctant Dragon.