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É Fada!







Sim, isso foi minha introdução.


A história começa com Geraldine, uma fada madrinha incompetente que causou o 7x1 de 2014 (a especificação é necessária, já que todo dia tem um 7x1; esse filme incluso). Sua última chance de ganhar suas asas de volta é ajudar uma guria com problemas familiares e sociais, Júlia. O problema é que ela é uma fada ornitorrincamente Millennial, e com morais totalmente confusas. O que claro, ocasiona em vários problemas pra Júlia e seus pais divorciados.


E... Basicamente o filme é isso.



São as tentativas de Geraldine pra ajudar Júlia, aparentemente conseguindo transformar a vida da guria mais fácil. O problema é como ela faz isso.
A solução de Geraldine é deixar Júlia o mais parecida possível com as garotas populares do colégio, a ponto dela ignorar o amor e preocupação de seu pai e do único guri que de fato se importa com ela. Sim, você já viu esse filme na Sessão da Tarde, provavelmente. Nada de novo é feito aqui, exceto que ele se passa no Brasil.

A mensagem é bastante clara: seja quem você é, não queira se espelhar nos outros. O que eles não deixam claro são os padrões morais dos personagens, a mensagem pára no "seja você mesmo", mas não ressaltam é que as gurias que Júlia queria se espelhar eram pessoas que faziam coisas más e que prejudicavam a si mesmas e até aos outros, além de serem estereotipadamente fúteis e mesquinhas.
Meu Deus eu fico com agonia só de ver um bando de pirralha que mal teve tempo de tirar as fraldas querendo agir como adulto, que merda de geração a gente vive.

E o problema da moral não para por aí, porque Geraldine, a suposta heróina, personagem principal, que estampa os pôsteres também não tem um pingo de bondade.


Tudo que ela faz por Júlia é por benefício próprio, pra conseguir suas asas de volta. Fica claro quando tu liga o fato dela dar uma solução rápida pra Júlia como ela tá pouco se lixando pra guria. E como Geraldine quer suas asas de volta o mais rápido possível, todas as atitudes que ela toma ignoram todos os efeitos que elas vão ter na vida da guria. Fora que o plano dela é que ela faça amizade e se pareça com as gurias fúteis e mimadas da classe, apelando inclusive pra sexualização delas mesmas.

Eu juro tem uma cena que ela manda Júlia apertar os peitos "pra criar teta" ELA TEM 15 ANOS SEU PROJETO DE MOSCA DAS FRUTAS COM ANEMIA!


E caso você tenha esquecido desse detalhe, o filme faz questão de te lembrar perto do terceiro ato, esfregando na sua cara toda a babaquice e egoísmo de Geraldine.


Esse filme é um achado. Foi uma das piores experiências que eu já tive, com diálogos excessivamente clichês e irritantemente datados, com morais erradas a torto e a direito, mensagem confusa e passada rapidamente como se não fosse grande coisa, uso constante de palavrões em um filme que deveria ser family-friendly (já que o foco são pré-adolesentes de 15 anos) e uma trilha sonora cujo efeito é como se eu tivesse ligando uma furadeira num ouvido com aquelas bolinhas Bate-Bate batendo no outro.


O único personagem gostável é o pai da Júlia, que é legitimamente preocupado com a guria e esforçado. Meu instinto paternal claramente se identificou com ele. Mas ele não é o suficiente pra salvar esse filme.

Esse flme é um resumo de tudo que tá errado nessa era, em especial no Brasil. Morais são maleáveis, crianças que se acham adultos (e não é uma atitude devidamente repreendida ou punida), e a falta de conteúdo real são simplesmente irritantes, a ponto de eu mal conseguir fazer uma piada pra essa resenha.
É praticamente a nossa versão de Jem e as Hologramas (2015).

É ruim assim.


E uma pequena história pessoal. Eu queria muito ver Kubo e as Duas Cordas nos cinemas. Pelos trailers parecia ser um filme fantástico, com cenários e designs criativos, com animação soberba e conceitos interessantes. E embora o roteiro não seja exatamente desenvolvido (como eu expliquei na resenha), ele faz bem o seu trabalho de divertir e até te dar algo pra pensar.

Eu não pude ver Kubo no cinema pelo simples motivo de que não havia mais uma sala ou horário decente pra Kubo porque a maioria tava ocupada passando É Fada!.
E não, eu não odiei esse filme simplesmente porcausa disso. Qualquer um com o mínimo de noção poderia ver pelos trailers que esse filme seria um amontoado de fezes de cavalo.


Eu poderia terminar com uma piada, mas eu não consigo. Simplesmente não consigo. Eu não me sinto pessoalmente ofendido por um filme desde 2013, quando eu vi The Cat in the Hat de 2003. É um filme estúpido, irrelevante, sem nenhuma mensagem que de fato funcione, e é um desperdício de tempo, dinheiro, e esforço.


Se eu um dia ter o DVD desse filme em mãos, será pra pendurar numa estaca e botar fogo.



(Essa resenha foi sugerida por JCarlos, se tiver alguma sugestão pode mandar.)

O Grilo Feliz





Eu gosto de ver coisas pra criança, e quando são brasileiras tem uma coisa especial a mais.
...às vezes.

Parece que por estarmos muito acostumados às produções vindas de fora, quando se faz algo 100% nacional tem alguma coisa diferente. Eu não sei bem explicar o que é, mas às vezes alguns produtores não sabem bem como encaixar elementos nacionais numa história que faça sentido ou que seja ao menos divertida. (Isso porque normalmente se pensa que se tem uma obrigação de botar pelo menos um personagem mitológico no meio)

Ou quando tentam mesmo criar algo que não apele aos elementos nacionais ou ao elemento educativo, falta um certo refino de... Tudo.

Mas quando eu resenhei Cassiopeia, eu não pude deixar de me lembrar de outro filme que ficou gravado na minha mente. Não porque eu assisti na época (levou uns 4 anos até eu ver esse filme na TV Globinho), mas porque era assunto de uma edição da revista Recreio.


Então, hoje falaremos de O Grilo Feliz.






A história é absurda, mas nada tão diferente dos padrões de filmes pra criança. Feliz é um grilo que compõe e canta músicas em sua viola sem cordas, porque "a música vem da alma".

...nem pense em fugir.

Um belo dia, quando ele termina uma música sobre ecologia (porque é um filme que tem insetos como protagonistas, é claro que eles vão exaltar a mata) que foi inspirada por uma estrela chamada Estrela Linda (fique firme), um lagarto chamado Maledeto invade a floresta e se autodeclara rei. E como ele não gosta de música, a proíbe.


E não só isso, mas também rouba a Estrela Linda, e Grilo parte com seus amigos pra regsatar a estrela e se livrar de Maledeto.





A primeira coisa que se nota é que a animação não é das melhores. Orçamento apertado de quase 25 mil FHCs, os personagens se movem de forma estranha e pouco orgânica. E não só isso, eles parecem ter uma obrigação de se mexer, sendo quase impossibilitados de ficarem completamente parados. E como são usados poucos quadros, os movimentos parecem ligeiramente forçados ou totalmente anaturais.


A melhor descrição que eu posso dar é Ferngully. Não só na animação, aliás.
Ferngully tentava emular o estilo Disney, enquanto o Grilo Feliz tenta buscar algo mais próprio; o que é bom, na verdade, mas o resultado ficou estranho. Acostumável, mas estranho.




O que realmente não combina de jeito nenhum são os modelos 3D que vira e mexe aparecem no meio. Algumas não tem muito motivo pra existir (como um bichinho peludo sem nome) ou a própria estrela quando cai. Mas pode-se passar por experimentação, afinal o desenho do Homem Aranha de 94 já usava isso.

Não, sério! Porque o
porta-retratos é feito em 3D??

O tom do filme é beeeem pra crianças, o tipo de coisa que tu veria no canal Gloob, por exemplo. Ele tenta pegar uma faixa etária dos 5 a 8 anos, mas o modo que os personagens falam e a forma que eles mandam a mensagem ambiental parece ter saído de um desenho do Discovery Kids. Não é tão forçado, mas é algo que poderia ter dado um polimento melhor.


Mas o que destronxa o filme mesmo são os diálogos e a edição. Oh, que dor!


O tamanho dessa joainha
me deixa confuso.

Os diálogos são o mais clichê possível, fruto de uma possível inexperiência em ler o roteiro e pensar "hm, eu acho que dá pra reescrever isso aqui". Piadas fracas, personagens mal desenvolvido cuja impressão final é de um token, e simplesmente uma falta de tentativa de fazer algo que nos faça se importar com o que acontece.


O Maledeto vai cortar as árvores pra mandar cupins fazer estátuas dele? Wathever. Feliz perdeu a viola? Ok. Feliz e Bituquinha vão ser esmagados por espinhos vivos? Como raios isso funciona, aliás?


Os cortes de uma cena pra outra geralmente acontecem sem timming nenhum. Normalmente quando há a passagem de cena mudando o ambiente, tem-se um pouco de tempo para nos situarmos (a menos que a sensação de claustrofobia seja intencional). Fora os personagens falando um atrás do outro, e com efeitos sonoros, e as vozes agudas demais ou caricatas demais sem precisão. Às vezes eu me sentia assistindo The Magic Voyage ou Felix the Cat: The Movie. Graças a Deus isso não era frequente, mas ainda assim dava um certo desconforto.


É isso aí, majestade,
Vai na minha!

Mas há uma cena específica, quando Maledeto consegue a estrela. Literalmente DO NADA, os capangas dele começam a cantar um rap ostentação, com direito a metade do orçamento indo pra modelagem de uma mansão em 3D, e assim como veio, se foi. Sem nenhuma explicação. Um exemplo legítimo de um Big Lipped Aligator Moment.
...ou calango, eu sei lá o que o Maledeto é. Se sinta satisfeito porque eu lembrei o nome dele, oras.

As músicas (que deviam teoricamente ser o ponto forte do filme) acabam caindo no mesmo ponto dos diálogos: são fracos, sem inspiração, e parecem músicas cantadas na escola na primeira série, só que piores.

No entanto, eu vou dizer isso. O rap dos capangas é tão grudento, que após quase uma década que eu assisti esse filme, essa era uma das únicas coisas que eu conseguia lembrar bem.



Eu realmente entendo que naquela época ainda se pensava muito mais em animação como algo literalmente infantil, mas esse é um daqueles filmes que provavelmente nem crianças próximas da faixa etária se interessariam. Tem uma ou oura coisa interessante em termos de arte, os cenários são bem-feitos, o conceito geral não é ruim. Mas é tudo atropelado por uma confusão de estilos, derails, e simplesmente uma falta de sensação de divertimento.


Eu gosto de coisas genuinamente pra crianças. Turma da Mônica teve seus dias estranhos e ruins, mas os desenhos recentes são muito bons e com roteiros criativos. Doraemon também é um ótimo exemplo de como fazer algo pra crianças do modo certo.


Um tucano mágico que pode mudar de forma.
Eu nem

Eu não consigo culpar tanto esse filme pelas falhas, ele tem boas intenções, o cara aparentemente fez pros filhos dele (algo meio na linha de Pequenos Espiões 3D), e o filme ganhou uma sequência em 2009, em parceria com a Fox (que sim, está na lista).

Eu pessoalmente recomendaria apenas pra propósitos de estudo, assim como Cassiopeia. É uma parte da história da animação no Brasil, afinal.







Cassiopéia


Quando eu tive que fazer um trabalho sobre a história da animação, lá em 2013, um dos filmes que mais me intrigavam era Cassiopéia. Não por ele em si parecer ter uma história interessante, ou por ter bons visuais, mas sim por ser o mote de uma polêmica sobre o primeiro filme totalmente feito em computador.
Eu vou chegar lá mais tarde, mas por ora, eu pretendo apenas analisar o filme como ele é. Não percamos mais tempo e vejamos se Cassiopéia realmente vale a pena.




O filme começa nos jogando em um planeta habitado por robôs que está sofrendo um ataque alienígena. Aparentemente os alienígenas querem roubar a fonte de energia do planeta. Em uma série de medidas desesperadas, o Conselho do planeta resolve lançar cápsulas de fuga pelo espaço, e os aliens vão atrás dessas cápsulas, para que não os incriminem.



Uma das cápsulas acaba caindo em outro planeta habitado por robôs, que por sua vez vão atrás das outras cápsulas porque… Eu não faço idéia. Eles nunca explicam direito, mas logo eu falo disso.
Após pegar todas as cápsulas, eles chegam no planeta atacado e vão defendê-lo de seus invasores.

Eu realmente não esperava muito graficamente. Digo, até Toy Story em alguns momentos é datado demais (especialmente pra fazer seres biológicos, como humanos e o cachorro). O nível que temos aqui é superior aos filme da VideoBrinquedo, os personagens tem pouquíssimas texturas, mas a atuação deles de fato mostra ter um certo esforço. Ao menos gestualmente, porque a expressão facial dos personagens é basicamente a mesma, possuindo poucas variações. Especialmente em momentos necessários.

Esses olhos comuns, que parecem
desinteressados.
Há momentos onde um personagem deveria estar assustado, mas os olhos não ficam “arregalados”. Eu compreendo, dificuldades da época, era um método ainda mais artesanal que o de Toy Story, com menos recursos. Se bobear isso foi uma falha técnica que o diretor notou e disse “deixa assim mesmo, vai.”.

Eu consigo perdoar até os designs de personagens extremamente sem inspiração. Eu não sou técnico na área, mas eu não duvido que eles tenham esses designs simples pra reduzir gastos.

Entretanto, analisando o roteiro e a fotografia do filme, começam os problemas.

O famigerado Vaporwave?

Todos os diálogos entre os personagens são explicações. Sabe o efeito que temos no ÚltimoMestre do Ar do Shyamalan, onde nenhum personagem parece vivo, ou demonstra emoções, ou fala sobre o que sente… É mais ou menos isso que temos aqui. É um esteriótipo de esteriótipo de ficção científica, onde se resume nos personagens falando termos semi-técnicos, o procedimento que vão tomar, narrando o que tá acontecendo, etc. Claro, tudo numa linguagem que as crianças conseguem entender, mas continua sendo só explicações.

Eu juro, eu não consigo sentir absolutamente nada pelos personagens, ou pelas situações que acontecem. Tudo é simplesmente jogado na tua cara, sem muito pensamento. É um filme onde simplesmente coisas vão acontecendo, mais ou menos a ideia do George Lucas pra Star Wars, mostrar como um personagem foi de A a B, quase como numa aula de História.


E fica pior. Em sci-fi, o diálogo semi-técnico serve pra nos dar uma base científica de algo que poderia acontecer (como, por exemplo, raios laser e viagem na velocidade da luz). Mas aqui eles de fato não explicam nada, e quando acontece algo extremamente idiota, como dobrar a luz, eles simplesmente não explicam absolutamente nada.

Mesmo que a história seja boba, se os personagens são carismáticos, já é um grande avanço pra tornar o filme divertido. Por exemplo, a série de curtas do Pateta aprendendo alguma coisa, poderia ser simplesmente um guia pra te dar uma ideia do assunto em questão, mas o personagem tem tanto carisma que acaba mudando totalmente o contexto da narração (sem contar a brilhante execução da animação em si).

E você achou que eu tava brincando.


Aqui os personagens vão de um canto para o outro, você não os conhece, não tem porque torcer por eles. Chegou no final do filme e eu juro como esqueci qual era o propósito dos vilões, se eles não tivessem citado isso eu teria que dar uma olhada no artigo da Wikipedia sobre o filme.
O filme sequer se preocupa em apresentar o mundo novo pro público, assim você fica perdido logo de cara, perdendo o interesse rapidamente.

A fotografia também não ajuda, com planos repetitivos que envolvem os personagens mexendo em computadores com muita constância do mesmo ponto de vista. Fora a sempre andante câmera, que não consegue ficar quieta.


Agora, sobre a polêmica. Segundo o artigo sobre o filme no Risca a Faca (que vocês deveriam ler depois daqui, aliás, vale a pena), os produtores acreditam que foi sabotagem da Disney. A Casa do Mickey descobriu que eles tavam fazendo o filme, lembraram de Jobs e sua Pixar, e jogaram umas verdinhas pra acelerar o processo. Fora a invasão nos laboratórios onde o filme estava sendo gravado em película, onde levaram CDs contendo cenas de Cassiopeia.

No entanto, Cassiopeia ainda tem o trunfo de ter sido feito 100% digital, enquanto os modelos de Toy Story foram feitos em argila e escaneados pro computador. Cassiopeia pode ter sido iniciado antes de Toy Story, mas Toy Story saiu antes, e tem Disney do seu lado. E já sabemos com o caso Tezuka que, mesmo estando certo, contra a Disney, você tá errado.

Tipo discutir com sua esposa ou pais.



O que eu acho disso tudo? Cassiopeia foi sim o primeiro filme animado a ser feito 100% em computação, mas Toy Story foi o primeiro que colocou emoção na animação 3D.

Cassiopeia é um filme entediante, desinteressante, com uma narrativa monótona. Eu recomendaria assistir apenas por motivos históricos, porque como sabemos, o Brasil não tem um nome muito bom em se tratando de animação (ou filmes em geral, vai.).

E sabem o que isso me lembrou? O Grilo Feliz. Eu lembro desse desenho, na revista Recreio. Boas recordações a partir disso…



...quer saber? Semana que vem, resenha dos dois longas d'O Grilo Feliz.


O nome dela é Lisa.
Quadro feito por um personagem chamado Leonardo.
Eu juro.

Mônica Especial de Natal #1 (Panini)


Primeira resenha de uma História em Quadrinhos em vídeo. :D
Depois do break:



Chico Bento: Pavor Espaciar

O personagem Astronauta, de Maurício de Sousa, já havia ganhado uma Graphic Novel nas mãos de Danilo Beyruth, assim como a Turma da Mônica em Laços de Vitor e Lu Cafaggi (que eu ainda não tive o prazer de pôr as mãos).




Mas consegui ler "Pavor Espaciar", do cartunista, chargista, colaborador do "Lance!" e quadrinhista Gustavo Duarte, que já havia lançado os álbuns "Có!", "Taxi" e "Birds" (com característica marcante e comum de não possuírem diálogos), além de ganhar prêmios do Troféu HQ Mix.




A história é bastante simples: Chico Bento e Zé Lelé vão passar uma noite sozinhos em casa enquanto os pais de Chico visitam uns parentes. Mas, como são crianças indefesas e ninguém acreditaria nelas, aparecem alienígenas e raptam Chico e Zé, além do porco Torresmo e a galinha Giselda.

E... Basicamente é isso. Não há reviravoltas, grandes temas complexos, filosofias sobre a humanidade e sua existência. É simplesmente uma história do Chico Bento, apenas exagerando em alguns pontos. O que é bom, porque não foge do clima das histórias de sempre do pequeno caipira, assim como o Astronauta de Danilo não fugiu ao tom melancólico que constantemente toma o personagem.



A arte é simplesmente linda. Gustavo tem uma maneira bastante única de fazer seus personagens, dando a eles bastante expressividade. O que é bem útil, pois boa parte do álbum é narrada sem falas. Embora em alguns momentos (como o mostrado abaixo) a característica boca fique meio exagerada, dando ao personagem uma cara estranha.



Ainda falando da arte, a finalização também é muito bem trabalhada. O estilo cartunesco de Gustavo possui personagens com bocas imensas, e graças ao belo acabamento, dá até pra imaginar o dedo dentro (como se fossem bonecos, claro).

Na apresentação, o Sr. Maurício diz que a arte de Gustavo é tão dinâmica que quase dá pra vê-los se mexendo. Achei que fosse exagero, mas quando li, entendi. Fora o estilo ser bem propício a uma animação, o modo que os quadros e as cenas retratadas são tão interligadas que realmente lembra uma animação. Algo semelhante ao que Shotaro Ishinomori costumava fazer.



O fato de a arte não possuir onomatopeias ou linhas de movimento ajudam a produzir essa ideia de desenho animado, sem chegar a prejudicar a leitura. Em alguns momentos, cheguei a "ouvir" os sons dos passos na trilha sonora, recurso que os desenhos cômicos usam constantemente.

Fora a história, há vários easter eggs durante a leitura. Alguns mais óbvios, outros mais escondidos, que dão um toque final na narrativa.

A apresentação do Roger, do Ultrage a Rigor, apresenta o artista, mas não me pareceu muito inspirado pra escrever. Ao contrário do Mauricio, que chega a mostrar uma certa intimidade com o leitor, por meio de marcas de oralidade.



Extras de esboços e curiosidades no final, bem como um breve histórico do personagem Chico Bento, fecham o álbum com leveza.



"Pavor Espaciar" é um típico "causo" de interior. É uma história relativamente curta, mas se o leitor for parar pra ver cada referência, além de apreciar a arte, vai passar mais tempo e, logicamente, aproveitar mais.







Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme



Ah, Castelo Rá-Tim-Bum! Belas lembranças de quando eu era um pirralho inocente e que estudava de manhã, e como perdia os desenhos de manhã e de sábado (porque eu nunca acordava no horário certo, e quando acordava, passava outra coisa), e me contentava em assistir as séries com a péssima transmissão da TV Cultura pra cá. Castelo Rá-Tim-Bum, Rupert, Pequeno Urso, Viva Pitágoras, Bill e Bem, Turma do Pererê, e tantos outros programas feitos pra crianças abaixo de 7 anos que ensinavam alguma coisa e que era o que eu tinha e aproveitava isso. Provavelmente uma das série que eu mais gostava era Castelo Rá-Tim-Bum, junto com Rá-Tim-Bum e Rupert.

Quando era pequeno, eu não gostava e não conseguia assistir o filme do Castelo. Finalmente, após tantos anos, resolvi dar uma olhada.
Acompanhe-me nessa visita e se você não souber acertar A SE-NHA, não direi as palavras mágicas e você não poderá entrar NO CAS-TE-LO! PRIIIII!



Antes, um pouco de história. “Castelo Rá-Tim-Bum” foi uma série idealizada por Cao Hamburger. Antes de “Castelo”, Cao dirigiu dois curtas de animação, apenas. Depois da já citada série pra crianças, foi que a carreira de Cao começou a subir, e ele trabalhou no “Disney Club”, “Cidade dos Homens”, e escreveu e dirigiu “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” e “Xingu”. Provavelmente “Castelo Rá-Tim-Bum” é a sua obra mais conhecida e amada, e talvez por isso tenha ganhado um filme em 1999, com argumento e roteiro final do idealizador da série, Cao Hamburger


O filme começa com Nino nos dizendo que a história que vai nos contar pode parecer estranha, mas é a mais pura verdade. Por um momento achei que ele iria contar a história da Segunda Guerra Mundial como o meu professor de História, mas depois ele volta aos trilhos.

A propósito, George, se estiver lendo isso (e sei que não estará, porque você trabalha demais), abraço aí, jóvi!

A história começa quando três crianças que perdem uma pipa dentro da área do Castelo, e entram pra pegá-la, quando são surpreendidos pelos moradores do local, Victor, Morgana e Nino, todos feiticeiros da família Stradivarius.

Logo depois, Victor explica ao seu sobrinho/aprendiz Nino sobre o alinhamento dos planetas. A cada 400 anos, os planetas se alinham, e os livros de magias deles recebem mais energia do cosmo. [inserir piada com Padrinhos Mágicos] Dr. Victor deposita muita esperança no Livro de Nino, porém o garoto enrola o tio para que a fiscalização do livro seja adiada, que é respondido com o clássico “Raios e Trovões!” do Dr. Victor.


...a propósito... Sabemos que Victor trabalha em algo, e é chamado de Doutor, até mesmo na série. Mas até onde me lembre, na série, nunca foi explicado qual exatamente é o trabalho dele... Aqui, ao que parece, ele é um professor de Universidade ou algo do gênero.

Enfim, após arruinar os sonhos de Dr. “Josso Ares Mago” Victor, Morgana tenta animar o garoto, ensaiando a Dança do Alinhamento, ou algo assim. Mas só faz o garoto se lembrar do seu Livro e que precisa trabalhar no mesmo.

Então somos apresentados ao Pompeu Pompílio Pomposo (ou Abobrinha) e seu fiel escudeiro, Rato. Desde que era pequenino, Abobrinha tem um sonho mau: derrubar o Castelo e fazer um prédio no lugar. (Quem entendeu a referência me abraça.) No entanto, seus esforços sempre são em vão. Mas ele faz uma aliança com Losângela, uma vidente que pode facilitar seu desejo.

Acontece que Losângela era da Família Stradivarius, mas foi banida da família e perdeu todos os poderes que possuía. O plano dela é simples: tornar Abobrinha o Prefeito e assim, ele pode expulsar os donos do Castelo e tomar a propriedade.

Claro, porque na cidade não existe outro terreno melhor pra construir esse prédio.

Abobrinha consegue adentrar-se no Castelo devido a um descuido de Nino, e agora que a confusão está armada, esse garoto terá que juntar seus amigos e viver altas aventuras pra sair dessa encrenca!
A narrativa do filme é bem orquestrada, mostrando os acontecimentos em um ritmo agradável. A história também é muito interessante, com detalhes como disputas na família, Conselho Universal de Bruxos, e até mesmo politicagens, mesmo que sutis.


O cenário é extremamente diferente da série. O Castelo é mais sombrio, mais gótico, com uma arquitetura mais complexa, e arrisco dizer que até mais psicodélico em certos aspectos. Essa mudança foi necessária pra combinar com a história ao estilo de narrativa do filme. Aliás, até a trilha sonora ajuda a criar esse clima de magia e mistério, com uma releitura da abertura clássica da série.

A trilha sonora em geral é competente, dando o tom certo no momento certo. Mas em determinados momentos ela parece ser genérica demais, e fica muito parecida com tantos outros filmes, perdendo um pouco de identidade própria. Felizmente são pouquíssimas as vezes que isso acontece, e não atrapalha o filme de forma alguma, e é compensada com uma belíssima trilha cantada.
Um dos aspectos positivos do filme é que eles mantiveram alguns atores originais da série, como Rosi Campos (Morgana), Sérgio Mamberti (Dr. Victor) e Pascoal da Conceição (Abobrinha/Pompeu Pompílio Pomposo).


Alguns personagens foram cortados, como Etevaldo, Caipora, Celeste, Tíbio e Perônio, dentre outros. Claro, porque nem todos seriam bem encaixados na trama do filme, podendo apenas criar elementos desnecessários e desprezíveis, mas alguns apenas foram adaptados, como o Relógio, o Porteiro e a Penélope, e as crianças Biba, Pedro e Zequinha, ou simplesmente foram levemente referenciados. Deixo vocês procurarem essas referências.
Foram criados personagens 100% exclusivos pro filme, como Losângela e Rato. No entanto, eles são essenciais pra que o filme tenha uma identidade própria e que o mesmo possa correr normalmente. Porém, um dos furos do roteiro é que depois, Rato desaparece sem mais nem menos, e esse fato não é explicado em momento algum.


As atuações são muito bem executadas, em especial de Marieta Severo como Losângela, que entra na personagem e parece se divertir ao máximo enquanto atua. Também destaco Matheus Nachtergaele como Rato. Ele e Abobrinha são tão exagerados que chegam a ser engraçados, e Rato chega a ser ainda mais engraçado que o PPP, mas sem roubar a cena do mesmo, ficando apenas complementando o vilão. Ele, aliás, tem algumas das cenas mais engraçadas lá pela metade do filme. Também adorei a atuação do garoto Diegho Kozievitch como Nino. A própria personalidade original do personagem foi totalmente modificada para algo mais sério, mais solitário, e até mesmo tímido, coisa que Diegho fez e não tornou Nino um total anti-social chato.

A propósito, Diegho fez Disney Cruj em certo tempo, como o personagem Sputnik. Sim, o carinha que chega misteriosamente num balão. Se você se lembra, provavelmente está velho. Bem vindo ao clube.


E também, eu adoro a Losângela como vilã. Ela é aquele tipo de vilão extremamente arrogante que faz toda a pose de poder e “AAHAHAHHA VOCÊ ESTÁ NA PALMA DA MINHA MÃO, SEU VERME!” mas mal sabe lutar, ou no caso usar os poderes, e pra isso rouba os feitiços dos outros. Isso acaba marcando o Nino, o que poderia ser do futuro dele.

Os efeitos visuais não são exatamente muito complexos, alguns deles são bem simples e a computação gráfica é pouco usada. Mas as CGs apresentadas, não são feias.

Da esquerda pra direita: Cacau, João e Ronaldo.
As crianças que "substituiram" Biba, Zequinha e Pedro.

Outro furo no roteiro, lá pela metade, onde Nino dorme na casa de João, e no outro dia João o apresenta à família. MAS QUE RAIO DE FAMÍLIA PERMITE ISSO, MEU DEUS? Deixa o guri dormir em casa... Aliás, O CARA NEM AVISOU! ERA PRA ELE LEVAR UMA MÃOZADA NO MEIO DA CARA! E no outro dia ainda DEIXAM O NINO SOZINHO NA CASA! CLARO, PORQUE UMA CRIANÇA NÃO TERIA CAPACIDADE DE ROUBAR ALGO DE LÁ, NÉ? BANDO DE ABESTADOS!

Há também outro lá pelo final, e que poderia ter sido facilmente consertado, mas provavelmente é um spoiler.


O que posso concluir desse filme? Bom... É um bom filme. Uma boa releitura de uma série clássica pra crianças. Tem lá os seus defeitos, mas também tem vários pontos positivos que os compensam. Cao Hamburger conseguiu pegar os elementos necessários pra contar a história que queria de uma série educativa, que não deixava de ser divertida. Mas ainda tem algo no ar, pra mim. Digo, parece muito a história de Shoutarou Ishinomori com seu “Skull Man”, depois tornado em “Kamen Rider” pra ser mais vendável. Quando assisti o filme, pareceu que a idéia original de Cao para “Castelo Rá-Tim-Bum” era essa do filme, cheia de mistérios, Conselho de Feiticeiros, disputas na família, politicagem, e um toque de cultura gótica. Mas se tornou em algo alegre e educativo. OU eu posso simplesmente estar “esticando demais a baladeira”, e Cao simplesmente quis contar a história do Castelo por outro ângulo, como em um universo paralelo ou algo assim. Como até agora não ouvi nada de Cao sobre esse tópico, esse fica sendo meu headcanon pra esse assunto.

Quando pirralho, não gostava muito desse filme, porque não lembrava em nada a série, e eu amava, e ainda amo a série. Mas agora que cresci, vejo que é uma releitura bastante inteligente, e que deve ser apreciada como tal. Mesmo com uma roupagem meio gótica/dark e talvez até adulta, tenho certeza de que crianças vão gostar. Assim como adolescentes ou adultos com uma alma de criança, assim como eu.

Agora, com licença, eu tenho um Castelo para derrubar.

Astronauta: Magnetar

Maurício de Sousa é um ícone nacional. Criador da Turma da Mônica, Astronauta, Penadinho, Piteco, e tantos outros personagens que marcaram gerações, hoje é mais um empresário que um quadrinhista, de fato.
Diversos quadrinhistas brasileiros tiveram suas vidas/carreiras influenciadas pelas obras do Maurício de Sousa, e o mesmo deu a oportunidade de alguns desses artistas fazerem suas releituras do universo criado por Maurício, com as coletâneas "MSP por 50 Artistas", que rendeu uma continuação e o livro "Ouro da Casa", com a mesma premissa, mas usando os artistas de dentro dos estúdios.



"Astronauta: Magnetar" é o primeiro título do selo Graphic MSP, que pretende mostrar releituras do universo "mônico" para um público mais adulto e/ou maduro (porque uma história ser "adulta" não quer dizer necessariamente que é madura). A aventura foi escrita e desenhada por Danilo Beyruth, que já trabalhou no segundo volume da coletânea citada anteriormente ("MSP por mias 50 Artistas") e em "Bando de Dois", além de um personagem próprio, o Necronauta. Como ele se saiu com "Magnetar"?




A história trata sobre uma aventura do Astronauta. Vemos um fragmento de sua infância, no interior, pescando com seu avô, que transmite toda a sua sabedoria popular ao seu neto.
Depois somos levados ao espaço, onde o Astronauta investiga o Magnetar, uma estrela de nêutrons imensa.
No entanto, após uma pequena falha do protagonista, ele fica "naufragado" no meio do espaço, sem contato com nada nem com ninguém. Até mesmo o seu "Wilson", o Computador de Bordo, sofre danos e fica incapacitado de ajudar o Astronauta. Ou seja, o herói está sozinho no espaço, sem comunicação, e graças aos efeitos do Magnetar, começa a ficar louco.

A narrativa é de fácil entendimento, onde o autor, com o auxílio de um estudioso do tema, explica todos os termos científicos chatos e que provavelmente nunca ouvimos falar em nossas vidas, tudo num glossário bonitinho no final do livro.
O legal é que, quando terminei de ler, senti como se tivesse lido uma história aleatória do Astronauta. Eu tive uma revista que era só história do herói ovo de páscoa azul espacial, e muitas delas eram só aventuras normais, e outras incluíam reflexões filosóficas que cutucavam diretamente o pensamento de nós, terráqueos comuns. Em "Magnetar", algo parecido acontece, e é mostrado de uma forma bem interessante e desenvolvida.

Infelizmente, o tema de solidão e insanidade poderia ter sido melhor trabalhado e até mesmo estendido. Não que tivesse ficado ruim, mas ficou um pouco... Rápido demais. Poderia ter desenvolvido um pouco mais.



Os desenhos são excelentes. O visual do Astronauta, como também seu uniforme, recebeu uma boa repaginada para se tornar mais realístico e palpável, sem perder a essência. Inclusive, recebeu até um toque meio Homem de Ferro, com vários uniformes diferentes, um para cada ocasião. Isso sem falar na detalhada estrutura da nave.
O único defeito que encontro nos desenhos, são alguns traços aqui e acolá que saem dos quadros, mas não é nada que atrapalhe e só tou citando isso porque eu sou chato mesmo.
Pra fechar, ainda tem as belas core de Cris Peter, que casam perfeitamente com as situações mostradas.

Como bônus, ainda temos uma galeria de esboços de Danilo, e um pequeno texto sobre o Astronauta, seguido da primeira história publicada do herói.
A propósito, eu descobri que sou parente do Astronauta.

Com duas versões (uma de 19,90 de capa simples, e outra de 29,90, com capa dura pra colecionador), "Astronauta Magnetar" é uma graphic novel com uma releitura inteligente de um personagem clássico nacional. Vale MUITO a pena comprar.