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Peanuts - O Filme




Eu juro pra vocês, eu tenho um legítimo medo toda vez que eu ouço que alguma coisa antiga vai ter remake/reboot/reimaginação. Eu já expliquei a fundo nesse artigo, então nem vou me demorar. Até porque, ao contrário do normal, esse é um filme muito, muito bom, e que captura a essência do original corretamente.





O plot do filme envolve Charlie Brown, o garoto mais azarado do mundo. Ele se apaixona pela vizinha nova, a Garotinha Ruiva, e quer fazer algo importante, ou pelo menos que ela não pense que ele é um mané.

...e é isso.

E essa é uma das coisas que tornam esse filme tão especial: ele é simples, como as animações originais e as tiras de jornal (até certo ponto). É um slice of life, simplesmente Charlie Brown tentando não ser um mané, não falhar, o que é suficiente, além de ser dentro do espírito de Peanuts.



O segundo ato do filme segue como se fossem vários segmentos dos especiais, onde Charlie simplesmente treina pra alcançar seus objetivos, vez ou outra tendo um derail pro Snoopy, que de certa forma se entrelaça com o plot principal.

É ótimo ver que o roteiro é tão bem escrito, e que ele tem um cuidado especial pra não ter gírias modernas, ou mesmo elementos como internet, smartphone, selfie, essas coisas que estão sendo praticamente forçadas no entretenimento atual (em especial pra crianças) que os torna automaticamente ultrapassados, e parecem algo desesperado pra ganhar um riso fácil. (Sim, Padrinhos Mágicos, tou olhando pra ti. Termine de morrer, por favor.)

Outro medo era o de cair no mesmo buraco de adaptações recentes como O Lorax (e Alvin e os Esquilos, e Os Smurfs, e Scooby-Doo, e Zé Colméia, a lista continua), tendo aquele misto desbalanceado entre o espírito do original e elementos modernos enfiados goela abaixo sem tom nem rima, tentando ser "hip and cool". Mas felizmente, não é o que acontece. O filme todo realmente se sente como um especial de TV com história própria com 1 hora e meia. Ele coloca referências a esses especiais, como Snoopy e o Barão Vermelho, a própria Garotinha Ruiva, o resumo do livro Guerra e Paz.



Isso quer dizer que o filme é totalmente isento de momentos claramente feitos pro trailer apelar pro público jovem? Não... Mas não se deixe enganar pelo trailer, dura por pouquíssimo tempo e não chega a atrapalhar o geral. Ele destoa MUITO do tom que a narrativa veio construindo? Sim... Mas, de novo, não demora muito tempo, e tem um propósito no filme.

Fora isso, outra coisa que me incomodou um pouco foi o pacing da comédia. Quem conhece Peanuts sabe que as animações eram low-budget, e mais lentas também. Eram histórias mais guiadas pelo roteiro que pela ação (até pela fonte de origem, que tinha muita filosofia sobre a vida). O pacing do filme parece seguir um pouco mais o padrão atual de comédia slapstick, muito rápido, muito energético. O que na teoria é bom, mas em Peanuts o negócio funciona diferente. No entanto, eu acredito que esse filme sirva também de teste com o público. Apresentar esses personagens a uma nova geração, e no próximo filme ser algo mais tradicional, mais ou menos como os Muppets fizeram na Era Disney.

Por mais que o pacing possa ter suas falhas, a animação é simplesmente LINDA. Ela é um 3D, mas ela se apresenta como um 2D, e tenta emular o máximo possível o traço dos desenhos e ele consegue muito bem. A sensação de profundidade 3D por boa parte do filme não faz tanta diferença, mas em outras vezes ele deixa o filme mais bonito. Não que ele precise, já que as cores e os designs são belíssimos.

Os cenários altamente detalhados só existem
na imaginação de Snoopy, e não temos tempo pra
apreciá-los. Logo, não destoa do visual geral de desenho animado
e ressalta que é uma imaginação.


Mas tudo nele foi cuidadosamente feito pra que se parecesse com os desenhos que já conhecemos, com algo novo e fresco. Mesmo que tenha gente da família envolvido na produção e roteiro, algumas coisas tiveram que ser feitas a mando do estúdio (como por exemplo, dar mais tempo ao Snoopy, por ele ser um personagem fofo e facilmente identificável e vendível), mas não é nada que vá atrapalhar o filme ou mesmo que desrespeite a obra de Schulz. Pelo contrário, a exalta, a ama, e mostra a todo mundo esse amor e respeito, com só um pouco de toque próprio. Eu não esperava muitos momentos tristes ou profundos. Como eu falei, é o primeiro filme (literalmente), estamos vendo uma nova forma de usar esses personagens, apresentando-os a uma nova geração. Agora que estamos apresentados, podemos esperar uma continuação mais densa, profunda e filosófica, sem perder o brilho e o sorriso de costume.

Só uma nota sobre a dublagem brasileira: algumas vozes não batem bem com os personagens, em especial de Charlie Brown. É uma voz aguda demais, no original a voz dele tá mais... pra baixo, depressiva. Um exemplo bom de voz é a dos DVDs dos desenhos, que é o mesmo cara que faz o Matheus em Cyber Chase e o Martin Mystery.

No entanto, todo o elenco principal na dublagem original é feito por crianças (de novo uma referência aos desenhos originais, só que com mais orçamento), os únicos adultos no filme foram Fifi (interpretada pela Rita Repulsa), Bill Melendez como Snoopy e Woodstock (porque Schulz não confiava em mais ninguém pra fazer esses personagens) e o tradicional trombone com um desentupidor de pia como todos os adultos.

Vá ver se ainda não foi, porque vale muito a pena, ainda mais num mundo onde temos tanto entretenimento fácil, rápido, imbecil, e desrespeitoso pras crianças, é difícil termos algo de tanta qualidade quanto esse filme.

Minha vida em uma imagem




Isto é Tóquio, Charlie Brown!


Charlie Brown e seus amigos estão acompanhando gerações de crianças e de adultos, mesmo após a morte de seu criador, Charles M. Schulz. Até hoje, as animações e tiras de jornal sobre Charlie Brown, o garoto mais azarado do mundo, são antigas, mas os sentimentos permanecem atuais.

Então, sim, eu estranhei quando descobri que haviam graphic novels novas de "Peanuts" (conhecida no Brasil como "Snoopy"), e feitos por outra artista.




A história abre já referenciando a animação, com a mostra do título sendo mostrada dentro da história. O que, narrativamente, dá um certo conforto pra quem reconhece o estilo.


A história começa quando Charlie Brown recebe uma carta do presidente dos EUA convidando o time de baseball dele pra um jogo de demonstração no Japão. Ignorando que talvez o presidente seja um trollão pra que o time do pequeno Minduim seja massacrado e humilhado internacionalmente, as crianças se alegram e partem pra terra do sushi, junto com Patty Pimentinha e Marcie, pra dar aquela forcinha no time.


Uma das coisas que eu devo parabenizar é como Vicki Scott conseguiu emular lindamente não apenas os desenhos de Schulz, mas também o roteiro. Os personagens são crianças, agem como crianças, pensam como crianças, e ainda tem a mesma personalidade. Linus continua sendo uma espécie de conselheiro de Charlie Brown, Snoopy continua sendo um "garoto estranho" com uma imaginação muito fértil, Sally continua sendo uma criança com manias de gente grande (nunca esqueço o episódio onde ela estava treinando pra formatura dela, hilário e crítico, de certa forma), Lucy continua sendo uma tsundere tentando chamar atenção de Schroeder, Charlie Brown continua sendo Charlie Brown, e por aí vai.

Sim, "Charlie Brown" se tornou praticamente um adjetivo.


Mesmo que a HQ referencie muito a animação, ela sabe que não é uma animação, e usa técnicas para que lembremos que é uma HQ, como onomatopeias. Aliás, esses elementos ajudam a reforçar mais o clima de desenho animado e de "Peanuts",  ainda conservando traços das tiras de jornal, como os pensamentos do Snoopy.


O desenvolvimento da história nos mostra as crianças fazendo um passeio turístico por Tóquio, que pra alguém que aprecia cultura japonesa e Peanuts (como eu) é algo sensacional, vê-los junto, por exemplo, de um  templo budista ou da Tokyo Tower. Um ponto turístico que acredito que muitos gostariam de ver era Akihabara, mas acredito que, além de esticar mais a história sem precisão, provavelmente iria distanciar um pouco do clima "Peanuts", porque... Bem, Akihabara.

Prédio 109, em Shibuya.

Todas as piadas seguem bem o estilo de Schulz de escrever, explorando as características marcantes dos personagens, ou fazendo alguma reflexão sobre elas. (Como a conversa de Linus e Charlie no avião). Talvez uma ou outra piada eu não tenha entendido por questões culturais ("Quem atende a todos os telefones por aqui?"), mas besteira. Inclusive, destaque pras explicações e curiosidades sobre o Japão, e como as crianças reagem a alguns costumes.


Um único probleminha foi no tocante ao desenvolvimento do grande jogo. Eu gosto de baseball, entendo as regras básicas, mas eu fiquei confuso ao ler a sequência do jogo porque... Não fazia sentido o que estava acontecendo.

Outra coisa que me incomoda é ter o nome e a assinatura de Schulz, como se ele tivesse feito. Mas o último desejo dele foi que não fizessem mais nada relacionado à série dele e eu cansei de pesquisar sobre direitos autorais relativos a ele, então melhor deixar quieto.

Deixar quieto, porque a graphic é realmente cuidadosa em relação à mitologia criada por Schulz, além de ser genuinamente divertida, e ter um tratamento muito bom pela Editora Nemo. Recomendado à crianças de 8 a 80 anos.

Mais imagens


"Minha vó já dizia..."

Agradecimentos especiais ao Blog do Selback, por fazer a promoção, e à minha amiga Fernanda Bender do Duas Épocas, por ter me lembrado que eu ganhei a promoção.