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A Bela e a Fera (2017)


Às vezes eu me pergunto se o público entende um filme, bem como seu legado. Porque, veja bem, eu entendo um público leigo gostar de Malévola ou mesmo de Alice do Burton. São filmes feitos pro denominador comum e não se importam em cagar em cima do original sem nenhuma cerimônia.
E eu me sinto ofendido por esses filmes não tratarem o legado de seu fundador com mais respeito, mas eu sou um nerd obecado e apaixonado pela forma como o estúdio revolucionou a animação, eu claramente não sou o público-alvo desses filmes. Não senhor, esses filmes são feitos tendo o tumblr em mente, isso eu tenho certeza.

Mas sinto muito, não vai ser agora que eu vou parar de reclamar e xingar esses filmes que insistem em destruir o legado de Walt Disney. E sim, a resenha vai ter spoilers, como sempre nesses casos, eu tou fazendo um favor a você.

Então falemos sobre A Bela e a Fera.


Pra você que viveu debaixo de uma pedra se alimentando de vermes e fotossíntese nesses últimos 30 anos, primeiro reúna cientistas e relate o que viveu, depois volte que eu vou lhe contar sobre o filme.


Bela e a Fera foi um filme animado parte da Era conhecida como Renascença Disney, onde o estúdio se salvou de mais uma crise financeira, e trouxe algumas das melhores animações de sua História. O filme narrava sobre um príncipe que, por ser babaca e negar abrigo a uma mendiga, foi amaldiçoado a se tornar uma besta eternamente, a menos que ele aprendesse a amar e ser amado em retorno. Seus criados se tornaram parte da mobília como parte da maldição.


Até que em uma bela manhã de sol, um inventor de uma aldeia viaja pra vender seu invento, mas acaba prisioneiro no castelo do príncipe Fera. Sua filha Bela, ao saber, troca de lugar com seu pai e acaba descobrindo sobre a maldição do castelo e talvez seja a única capaz de quebrar o encanto.
Blábláblá, jantar, Gastão, rosa, lucros.



Esse live action faz algumas mudanças boas, então comecemos por elas, já que vai ser um tempo bastante curto.


Quando o filme começou, eu achei que iríamos ter algo até bom. Ao invés de contar o backstory da lenda como vitrais (o que funciona perfeitamente no original), ele “show, don’t tell” literalmente. Até que ele começa a mostrar suas falhas, quando o príncipe não faz o que o narrador narra.

Mas ao menos eles dão uma justificativa pra ninguém se lembrar do castelo ou de seus moradores, porque a maldição apaga as memórias do povoado.
...o que ainda não tem muita justificativa, porque dava pra levar a história sem isso, mas ok, bota o castelo e seus habitantes como um universo à parte, e dificulta o quebramento da maldição porque... Sei lá, a bruxa era cruel. Eu vou trazer isso de novo lá pra frente, nem se preocupem.

Outra coisa boa, Kevin Kline. A primeira cena que ele aparece é um primor da narração visual, tudo que tu precisa saber tá na tua frente, de uma forma natural e sutil, e a atuação dele realmente paga. Ele é sério, gentil, esforçado, e é claramente um homem traumatizado pela morte da esposa.

Eu vou trazer isso lá pra frente também. Vocês vão notar um padrão.


Que mais, que mais... Ah sim, as sequências de Gaston e Be Our Guest são fantásticas, mas cada uma tem seus próprios problemas que acabam distraindo do resultado final, e eu já já falo disso.

A única cena que eu consigo imaginar que é 100% ideal é a The Mob Song, mas porque se você consegue estragar The Mob Song, você vai fazer isso de propósito e com muito esforço. Se bem que a maioria dos problemas aqui veio de propósito, então eu sei lá.
Isso porque eu tou ignorando a sequência aleatória de atitudes do Gaston antes dessa música.

Ah, e a trilha sonora do Alan Menken, que tá no nível Broadway mesmo, vide a versão Broadway de Corcunda de Notre Dame. Mas algo me diz que a história de Quasímodo teve um melhor resultado que esse filme. Sei lá, a música de Corcunda é cheia, volumosa, grandiosa, mas ao mesmo tempo parece mais focada, ao contrário de Beauty and the Beast.


Ok, já falei as coisas boas. Vamos pra segunda parte da crítica, a qual eu chamarei carinhosamente de “vamos fazer alguns inimigos”.


A história é uma merda. Eu vivo dizendo aqui, eu compreendo completamente que mudanças precisam ser feitas numa adaptação, mas ao mesmo tempo ter o espírito do original.

Esse filme sequer tem um espírito por si só.

Certos filmes como Jungle Book tentam te fazer lembrar do original, mas ainda te dar algo novo dentro do universo que ele criou agora. E funcionam, Jungle Book respeita e admira o filme de 67. Outros tentam fazer algo totalmente novo e diferente, como Oz: The Great and Powerful. E em certa medida, funciona. Muito se deve ao fato de Oz não ter nenhuma animação Disneyana pra se basear, mas ainda assim ele pega uma ou outra referência de algumas produções de Oz pra fazer a própria história. Alice do Burton tentou fazer algo totalmente original e falhou miseravelmente em todos os sentidos.


Bela e a Fera tenta fazer quase uma refilmagem do original ao mesmo tempo que tenta ser um pouco original, e falha miseravelmente em ambos.


Comecemos pelo elenco. Dan Stevens não é necessariamente ruim como Fera, e a princípio seria uma criatura totalmente feita por efeitos práticos. O que seria sensacional por si só, aliás. Mas resolveram fazer o rosto em CG e... Rapaz... Não funciona muito bem. O Fera original tinha presença, a silhueta era massiva, mas ao mesmo tempo confortável. Ele conseguia ser amável e ameaçador ao mesmo tempo, e havia humanidade em seus olhos, que eram bastante expressivos. Aqui, você tem sorte se conseguir olhar pro Fera e não ver um cara usando trocentos sensores na cara pra animar um modelo em 3D. A atuação é boa, mas o conceito atrapalha o resultado final.

Embora o figurino dele funcione no decorrer do filme, mostrando uma certa evolução do personagem, não fez mais do que a obrigação dele, já que o clássico de 91 também fazia isso.



Emma Watson... Como eu consigo ser delicado?
Emma Watson tem tanto carisma quanto um pacote de batata Ruffles, e atua tão bem quanto uma banana cujas manchas na casca acidentalmente fazem um rosto.

Ela basicamente tem duas expressões: testa franzida e olhando pra uma tela verde com uma cara de pastel. Ela tenta fazer outras expressões, mas convence tanto quanto aquela sua tia que diz que "segunda-feira eu começo o regime".


Eu juro, não é piada: em vários momentos do filme eu ria compulsivamente da atuação da Emma, pelo simples fato da moça parecer tão perdida, tão sem foco, sem emoção. Eu não conseguir ver a Bela, eu só via Emma Watson fazendo um cosplay da mascote do Leite Moça e que por alguma coincidência se chamava Bela. “É ISSO que eles querem que a gente leve a sério?”, eu pensava cada vez que eu via aquela expressão de R$ 2,50 estampada na cara da Hermione.

Um exemplo perfeito é a sequência de Be Our Guest. Toda a sequência é bem feita, divertida, fiel ao original ao mesmo tempo que toma liberdades, é um espetáculo e funciona a favor do roteiro, ao mostrar o quanto aquela mobília queria servir alguém, assim como no original. Mas o que estraga a experiência, o que distrai de toda a parte divertida, é quando eles cortam pra Emma olhando pro vazio com a mesma empolgação que tu assistia aula no Ensino Médio. Eu juro, eu quase consigo ver o reflexo do pano verde-fuschia nos olhos dela, de tão falsa que ela aparenta.


O que é interessante, porque essa falha tu pode notar no maldito trailer do filme; e algumas pessoas ainda tiraram seu tempo pra fazer vídeos e gifs animados comparando a primeira vez que Bela vê a Fera e se assusta. Tu nota claramente que a versão animada é muito mais emotiva e palpável do que Emma, e ainda assim tinha gente “Ai nossa ela tá perfeita como Bela <3” MINHA FILHA ESSE GIF QUE CÊ ACABA DE POSTAR PROVA POR A+B QUE ELA É UMA ESCOLHA TÃO BOA QUANTO RICK MORANIS COMO BATMAN.



Se você gostou da Emma como Bela, provavelmente é baseado na sua nostalgia por Harry Potter, ou por Disney em geral.


E não, ela não consegue cantar como deveria, música é metade emoção e ela não consegue te entregar isso. No caso de Emma, a outra metade é autotune, até porque a voz dela é suave, não consegue alcançar notas mais altas. Ao menos eu imagino que seja, pelo que eu ouvi da OST. Eu vi no cinema dublado e Deus sabe como eu não pretendo ver esse filme de novo tão cedo.

A propósito, Lily Collins tava na lista de provável Bela, mas não pegou o papel. Dá uma googleada no nome dela e tu vai ver como só nessas imagens ela tem 10x mais cara de Bela do que a Emma Watson.


A mobília, que seria o casting mais estranho e errado do filme, acaba não sendo tão estranho ou errado como eu imaginei. Se bem que, de novo, eu vi a versão dublada.


Mas os designs da mobília são meio estranhos ainda, em especial Cogsworth, que não tem tanta expressão quanto deveria. Mas eu não sei exatamente quem culpar, eu entendo e aprecio o conceito dele ser um personagem mais mecânico. E boa decisão em tornar Plumette em uma espécie de ganso, dá mobilidade pra ela voar e limpar áreas altas das salas.

Gaston e Le Fou parecem se divertir enquanto fazem seus papéis, e até exploram mais o backstory de Gaston, explicando porque ele é o herói do povo.

E sim, falemos sobre o elefante na sala. Toda a polêmica sobre LeFou sendo gay (que eu pessoalmente não acho que seja um conceito que deva ser explorado em um filme familiar e/ou pra crianças), o diretor (que tem seu nível de babaquice) disse que era um “momento pequenininho”.


Não, não é. São vários momentos, esfregado na tua cara, enfiado na tua goela. E sim, é algo que distrai, especialmente porque já se criou toda a polêmica, e isso acaba saindo pela culatra no resultado final.

E mesmo que não tivesse, é algo que é obviamente um movimento político, feito pra seguir uma agenda, é colocado ali porque os gráficos disseram, porque os acionistas querem, e isso é trazido à tona, exageradamente, artificialmente, de novo e de novo e de novo.

“Ah mas crítico tal disse que é quase nada” ou ele é burro ou desonesto.


E o roteiro, bem como sua execução, são uma bosta.


Quando se faz um remake, se espera que a história se mantenha fiel à original, mas adicione plotpoints que expandam a história. E nas formas sutis, eles fazem isso: Gaston lutou na guerra; regras da maldição são melhor explicadas; o pai da Bela não é só um inventor meio maluco, mas sim uma espécie de Gepeto; e há até uma relação interessante entre as pétalas caindo e o castelo sendo destruído.


Mas ao mesmo tempo, ele coloca plotpoints que não fazem o menor sentido, te dão a ilusão de que vão pra algum lugar com isso (como Jungle Book, que tem um elemento novo e de fato o usa bem e tenta dar um certo contexto pra isso), mas no final acabam nunca mais sendo mencionados ou não fazem a menor diferença no final, e acabam sendo oportunidades desperdiçadas.

Um deles é que Fera teve uma infância difícil com um pai abusivo. Ok, aceitável, faz sentido. Aí cortamos pro flashback da morte da sua mãe e ele pirralho cantando pra ela ou algo assim. Então chega seu pai e o tira de lá.

...é isso? Sério? Com licença, mas que raio foi isso?

Bastava ter dito que o pai era abusivo, explicaria a atitude mimada do He-Man. Pra que raio mostrar um flashback, e pior ainda, nesse flashback sequer mostrar algum momento do pai sendo abusivo? Eu jurava como ia ser uma sequência um pouco mais longa e mostrando como gradativamente seu pai ficava mais e mais agressivo após a morte da esposa, intercalando com a reação do Fera lembrando desses momentos e entrando em agonia.


E sim, o nome do Fera é Adam, e na primeira dublagem brasileira do original, o dublador foi o Garcia Jr., que também dublou He-Man E  Gaston.

Agora você sabe, e saber é metade da batalha!

Oh, e fica melhor.


O Fera mostra a biblioteca pra Bela, e mostra até que é um rapaz estudado. O que faz sentido, sabe-se lá quanto tempo ele tá lá, o que ele tem pra fazer fora ler, chorar em posição fetal, e talvez dar um susto nos funcionários vez ou outra?

Mas ele mostra a ela um livro que a feiticeira deixou como “uma piada cruel”, porque o tal livro mágico pode levar ele pra qualquer lugar do mundo.
...oh, não, por favor, tudo menos isso…


Além de ser um plotpoint sem sentido com uma justificativa frouxa (na teoria seria pra mostrar que mesmo que o Fera viaje o mundo todo, todo mundo vai ter medo dele; mas a gente nunca vê isso na prática então... qual seu ponto?), poderia servir pra satisfazer o desejo de Bela na sua canção de apresentação (“I want adventure in the great wide somewhere “), de ver o mundo e blablabla. Mas não, NUNCA MAIS esse livro é mencionado, nem antes, nem depois, jogando pela janela todo um leque de possibilidades.


E o layout de cena vira e mexe é sufocante demais, especialmente na sequência musical de Gaston. Enquanto no original era belo, grandioso e bem coreografado, aqui ainda pega aquele clima brega de musical live-action Disneyano (lembrou alguns momentos de Pete’s Dragon e Darby O’Gills), mas o trabalho de layout não te deixa respirar, os personagens e elementos tudo muito perto uns dos outros em uma taverna minúscula, estragam o clima que poderia ter. Talvez se tivesse menos gente seria mais bonito de se ver.


Eu nunca fui muito fã do original de 91. Mas depois de começar a estudar a História do estúdio, eu consigo gostar e respeitar o filme que mostrou pros bossais do Oscar que animação era arte, e isso é muito. Foi o primeiro e único filme indicado pro Oscar de Melhor Filme, e criou o Oscar de Melhor Animação, numa época que o Oscar ainda tinha alguma moral. E esse é um legado muito difícil de sequer chegar perto.

Esse filme me fez gostar ainda mais do original, todo o esforço, toda a emoção. Quando Bela vê que seu pai está em perigo, o Fera só diz “vai lá”, enquanto no original tu consegue sentir a dor dele, tanto nas expressões como no tom de voz, ele tem uma certa dificuldade de dizer que ela não é mais prisioneira dele.


Ou a sequência da dança, onde no original seja um momento relativamente rápido, há um build-up, o momento em si é simples, doce, mas carregado de sentimento, há aquele momento onde os dois começam meio tímidos, mas aos poucos, principalmente Fera, vai se soltando, sorrindo, ele olha pra Lumiére e pra Cogsworth e eles tão lá torcendo, e Fera se sente realizado. No live action, acontece porque no original também acontece. É como se fosse aquele teu trabalho do colégio sobre o Barroco, tu fez o mínimo possível porque era o que tu precisava fazer pra ganhar uma nota.


E o que mais me irrita, é que tudo, TUDO, desde a polêmica com Le Fou, a escolha de Emma Watson, os visuais realistas (que acabam sendo sombrios demais pro 3D, e olha que eu não tive problema com Godzilla de 2014), é TUDO feito pra ganhar uma grana fácil. Depois que a Disney descobriu com Alice do Burton que essa era a hora certa pra investir em remakes live action (porque já tivemos outros no passado, como dois longas de Mogli, dois de 101 Dálmatas, Flubber, dentre outros), eles vão botar o mínimo de esforço e certeza que vão lucrar 4x mais em bilheteria, venda de merchandising, e músicas no iTunes. E logo que o DVD sair, eles vão absolutamente esquecer dessa bosta e vão voltar suas atenções ao original, por ser clássico e atemporal.

E na real, essa é a melhor opção. Esqueça essa versão, ignore. Ela é literalmente esquecível, dispensável, irritante, e desnecessária. Os próprios produtores do original disseram que não dá pra replicar o sucesso de Bela e a Fera, então pra que tentar? Só pra ganhar uns trocados às custas do legado do estúdio.


Bela e a Fera de 2017 é basicamente um tolete de matéria fecal com glitter, e nem o glitter é suficiente pra te fazer dizer “nossa que brilhante”.
E se você ainda gostou desse filme e acha que a Disney não pode errar, talvez esse seja o real caso de Síndrome de Estocolmo.

Sério, gaste teu tempo com algo bem mais curto e mil vezes mais proveitoso, tipo esse vídeo. 


[Tio Walt - Parte 9] Mary Poppins


Como eu mencionei na resenha dos Quatro Aventureiros, a Regra dos 15 Anos diz que, se você gostava de algo antes dos 15 anos, provavelmente não vai gostar hoje e vai ter vergonha de si mesmo. Caso isso não aconteça, esse filme passou no teste do tempo.

E quando criança, eu fui introduzido a vários clássicos, como Cantando na Chuva, A Noviça Rebelde, Sociedade dos Poetas Mortos (embora eu precise rever, não foi bem um filme que me cativou), Muppets na Ilha do Tesouro, O Mágico de Oz e Jogos de Guerra.
Eu agradeço todos os dias a Deus pela vida e influência do meu pai na minha infância, de verdade. Moleque rréi com 8 anos vendo Sociedade dos Poetas Mortos e ele achando bom, não subestimou minha inteligência.

Mas, dentre todos os filmes, um deles se manteve quieto na minha memória. E cada vez que eu via, eu me maravilhava com ele, e até hoje, mesmo conhecendo esse filme de cabo a rabo, de trás pra frente, de dentro pra fora, de có e salteado, eu ainda me maravilho por encontrar pequenos toques, pequenas coisas que eu não havia notado das outras vezes e que adicionam à experiência.

Poderia ser só mais um filme familiar, mas não. É muito mais que isso. É o filme familiar quintessencial.

Esse texto não é só mais uma parte da retrospectiva de Walt Disney, ou uma resenha. É uma carta de amor a um filme que marcou minha infância, minha adolescência, e continua a me marcar até aos dias de hoje, onde eu percebo na pele a importância de entretenimento pra crianças e como as tratamos. Se ainda não viu esse filme, fique avisado que tem spoilers, mas eu o encorajo a ler mesmo assim, porque eu não acredito que seja algo que vá incomodar.


Senhoras e senhores, Mary Poppins.



Mary Poppins é um filme cujo histórico de produção é tão interessante quando o produto final. Raio, a própria Disney fez uma dramatização sobre isso.
Walt prometeu a suas filhas que ele faria o filme, e insistiu por anos até conseguir os direitos e trazer a autora dos livros, P.L. Travers, pros EUA, pra então ela ficar brigando com todo mundo que quisesse adaptar alguma coisa na adaptação. Mas ela fez algumas mudanças que foram criticamente necessárias, como não transformar o Sr. Banks em um vilão.

O filme conta sobre George Banks, um dos sócios do banco da Inglaterra. Ele tem dois filhos, Jane e Michael, que não tem muita atenção dos pais, porque George é um workaholic que quer passar a impressão de que tem controle sobre o lar; e a mãe Winifred é uma ativista pelo direito do voto feminino. Então, as crianças ficam praticamente o tempo todo com babás, que nunca suportam as crianças, porque aparentemente elas pregam peças nelas.
Nunca vemos de fato, mas é sugerido.

As crianças fazem uma carta com as qualificações da nova babá, onde ela seria bonita, cuidadosa, dentre outras coisas importantes e sutis.


Sr. Banks odeia a idéia, rasga a carta, e manda que publiquem a versão da "babá general". Ao invés disso, aparece Mary Poppins, que recebeu a carta rasgada.

E assim ela leva as crianças em passeios junto de seu amigo Bert, que é de longe um dos meus personagens favoritos de todos os tempos, bem como um dos modelos de seres humanos que eu almejo.
É sério.



Ok, a descrição que eu dou desse filme pode não ser muito boa, e te fazer lembrar de, sei lá, Operação Cupido ou a Noviça Rebelde. De fato, Julie Andrews foi escolhida pra ser Irmã Maria (HA!) durante as filmagens de Mary Poppins.
Mas acreditem em mim, essa idéia tá longe daqui.

Em um dos passeios, Mary acaba levando as crianças e Bert a um dos quadros feitos em giz de cera, onde temos sequências fantásticas como Jolly Holiday e Supercalifragilisticexpialidocius.
Jolly Holiday é onde temos não só uma música agradável de se ouvir, acompanhada com uma das mais belas misturas de live-action com animação que você verá. Mas também exalta algumas características dos personagens de uma forma que não se vê tanto hoje em dia.


Bert fala como Mary é uma pessoa tão amável, tão carinhosa, tão gentil, que o caminho onde ela passa muda pela mera presença dela. E embora eu não duvide que exista de fato gente assim, quando Mary fala de Bert temos algo mais concreto.


Mary destaca como mesmo não tendo nenhuma posse ou nome importante, Bert ainda é um cavalheiro, uma pessoa gentil, que não pressiona ou faz amizade por vantagem. Essas características são o que a faz descrever como "sangue azul", porque elas o dão a aura de nobreza. Mas daqui a pouco eu falo mais a fundo sobre os personagens.


Step in Time é outra sequência fabulosa. Enquanto o passeio no desenho te dá a diversão e interação entre personagens o suficiente (sério, olha pra Mary e Bert em Supercal..., há um nível de cumplicidade e companheirismo ali que é simplesmente incrível), Step in Time te dá a coreografia e letras divertidas e fáceis de acompanhar.

E rapaz, olha o tanto de esforço que esses caras fazem. Toda a sequência levou uma semana pra ser gravada, e tiveram que gravar duas vezes por problemas técnicos com a lente da câmera.
Esses caras fizeram tanto esforço que eu acredito que as dores nas juntas vão ser passadas geneticamente até as próximas quatro gerações, mas eles tão lá, fazendo acrobacias, pulando dando cambalhota, e sorrindo como se fossem crianças com uma cortesia da 50 Sabores.


Conta-se até que durante um dos ensaios da sequência, Walt tava supervisionando a coreografia. Os coreógrafos tiveram que dar uma saída e quando voltaram, encontraram o próprio Walt de cotovelos unidos aos dançarinos seguindo os passos.

E há um equilíbrio fantástico entre os dois momentos, o passeio sendo mais desenvolvimento de relacionamento entre os personagens e claro, dar aquela dose de diversão pras crianças (porque corrida, raposas, pinguins, animação, e Supercal), e Step in Time sendo mais teatral, mas sem deixar de ser meio cartunesco.
Aliás, os pinguins foi idéia de Walt. Nos storyboards, eram garçons comuns, até que Walt disse "garçons me lembram pinguins. Bota pinguins pra serem garçons."

Entre uma coisa e outra, ainda há uma sequência de chá no teto com Ed Wynn, que... É uma das coisas que eu não gosto muito no filme.


Sempre que acaba a música Stay Awake eu já fico "oh, raio, vamo pra sequência mais chata do filme". E... Eu creio estar certo, é uma das sequências mais monótonas do filme, que se resume aos personagens ficarem rindo sem parar, contando umas duas ou três piadas antiquadas, sem nada relevante acontecendo.

Mas ainda assim, tem algo aproveitável. Eu não consigo não apreciar o esforço em fazer acreditar que o que estamos vendo é real. Foram usados vários truques durante a cena, e quando tu naturalmente consegue deduzir um, a cena já corta pra outro efeito diferente, te deixando meio perdido.
Fora que, mesmo com a atuação relativamente fraca de Ed Wynn, ele ainda é divertido à beça, ele tá realmente tentando fazer algo a mais com o personagem, mesmo que seja um momento curto e não muito memorável, comparado aos outros.


Mas de longe, um dos momentos mais memoráveis é a música Feed the Birds. Nela contém a base moral do filme, que basicamente diz pra aproveitar o tempo que temos e ajudar aos outros, nos importar mais com os outros, fazer aquelas pequenas ações de gentileza. E às vezes é algo que não custa nada, mas que pode fazer uma diferença grande.

Eu concordo que a ilustração de alimentar os pombos não seja muito viável hoje, mas eu sempre tento enxergar como uma atividade corriqueira, algo como o pai vai passear com o filho e eles passam aquele tempo ali, alimentando os pombos enquanto conversam, enquanto falam sobre os pássaros, ou algo assim. Isso é valioso, esse tempo entre família, especialmente numa idade tão tenra quanto Jane e Michael. Mas George pensava apenas no futuro deles, tentando convencer Michael a investir os dois pence no banco, pra no futuro receberem de volta com juros e blablabla.


A propósito, essa senhora é Jane Darwell, que atua desde 1913 e fez uma pancada de filme clássico, incluindo ...E O Vento Levou e Vinhas da Ira. Ela morava em uma casa de repouso pra artistas de cinema aposentados, e Walt insistiu que ela fizesse o papel, e ele a tratou como a estrela, incluindo uma limousine pra trazer e levá-la de volta no dia da filmagem. Pondo em prática a moral da própria música.

Aliás, essa era a música favorita de Walt, e foi a música que fez com que PL Travers aprovasse o filme (e não Let's Go Fly a Kite, como mostrado em Saving Mr. Banks). Quando Walt ia visitar os Irmãos Sherman, ele só dizia "toca aí", e imediatamente eles tocavam Feed the Birds.



O que faz esse filme funcionar tão bem são seus personagens. Mary é uma babá mágica, mas além disso ela é incrivelmente doce, generosa, protetora; mas nem por isso deixa de ser firme quando precisa. Mas ao mesmo tempo ela é bastante misteriosa. Ela vem e vai quando quer, sem necessariamente um aviso. Ela nega certos poderes que tem, provavelmente porque só as crianças que devem ser testemunhas disso, sei lá. E Julie Andrews consegue o tom exato da personagem.

Quando ela é carinhosa, tu sente o calor na voz dela. Quando ela tem que ser mais autoritária, ela consegue ser ameaçadora e firme. E quando tem que se despedir das crianças, mesmo que ela diga que não pode amá-las, porque ela não pode amar todas as crianças que ela já cuidou, ela consegue transmitir perfeitamente o sentimento de dor e saudade de uma forma velada. Isso fica ainda mais evidente no final, quando ela vê que seu trabalho foi cumprido, sua expressão é como um misto de satisfação e tristeza.



Bert é outro personagem fascinante. Eu adoro esse cara. É o típico sujeito que faz amizade com todo mundo, tem o maior sorriso, as histórias mais interessantes, e é simplesmente um cara simpático em tempo integral. Mas não só isso, cada vez que o vemos, ele tá com um trabalho diferente. Esse cara provavelmente mora nas ruas, mas ele não liga, ele só quer ganhar aquele trocado diário, perseguir novos desafios talvez, e se dá por satisfeito em ter o que vestir e como respirar.

Olhem pra cara dele, ele não tem onde dormir mas tá com um sorriso do tamanho do Aeroporto de Guarulhos. E ele faz todo trabalho com esse sorriso no rosto, ele é praticamente o Seu Madruga sem a parte da preguiça e mais alegre.



E o verdadeiro protagonista da história, Sr. Banks. George é o cara que ama seus filhos, mas que na real não sabe exatamente que direção seguir. Como quase todo pai, ele se preocupa com o futuro de seus pimpolhos e quer que todas as suas atividades sejam produtivas, o que é perfeitamente correto, ao meu ver.



No entanto, ele perde o foco. Ele esquece de que crianças precisam de diversão, precisam de apoio dos pais, precisam passar tempo com eles. E justamente quem o faz perceber isso é Bert, o cara que não tem um tostão furado no bolso.

Sim, abra a imagem em outra aba pra poder ler.
O contraste fica ainda mais interessante, porque, nesse momento, Banks sabe que vai ser despedido. Ele trabalhou duro sua vida toda, fazendo o que achava que era certo pra sua família. E ele está prestes a ficar talvez na mesma posição de Bert, e é quando a ficha cai, na hora mais exata e necessária.

Um uso excelente da mesma expressão
em outro contexto, mostrando
o quão profunda pode ser.
Se fosse um outro filme qualquer, seria um momento a ser passado batido, mas não aqui. Assim como outros live-actions do estúdio na época (como Old Yeller e... realmente, só consigo lembrar desse), o filme não se intimida em mostrar a realidade. George recebe uma ligação do banco, exigindo sua presença no mesmo instante. E o que temos é uma cena belíssima, onde George caminha solitário, tarde da noite, rumo ao banco. Não há diálogos, não há música cantada, apenas Feed the Birds instrumental e lento, e Banks andando no meio do breu das ruas frias da noite londrina, sentindo todo o peso do inevitável. E há aquele grande momento onde ele para diante do lugar onde a moça dos pássaro estava mais cedo, só que dessa vez, nada mais está lá.



Um dos meus momentos favoritos é quando Jane e Michael estão fugindo do banco, depois de causarem um alvoroço. Eles encontram Bert, que tenta entender a situação, e a sugestão dele é "vamos sentar e conversar sobre isso". E isso é algo que pouca gente faz: conversar com crianças, a sério.
Bert conhecia a família, conhecia os problemas, e só tava esperando a oportunidade pra poder conversar com as crianças e tentar ajudar como possível. Vemos também um dos grandes trunfos do roteiro, que é escrever crianças como crianças reais.


Quando Bert fala sobre George estar preso em uma gaiola, as crianças pensam literalmente, e a coisa mais próxima é a cadeia. E isso é muito real, criança pensa de forma muito concreta, não consegue entender muito bem analogias e metáforas. Mas Bert logo trata de explicar que não se trata de uma gaiola literal, mas de estar preso no trabalho, preso AO trabalho. E assim, o pai delas não consegue dar a atenção devida a Jane e Michael.

Mas também tem o momento em que eu sempre choro. Sim, eu ao menos derramo algumas lágrimas e soluço um pouco.


O que Bert fala é muito palpável, e não só a pais. Eu mesmo já passei por situações parecidas, e eu posso dizer, ajuda é necessária. E nesse momento, as crianças aprendem uma valiosa lição que será útil pro resto da vida.

Ainda sobre Bert, é notável que o sotaque dele é ridiculamente forçado. Mas eu meio que gosto dele. Dick van Dyke parece estar se divertido enquanto faz Bert, e ele tem aquele brilho nos olhos quando ele precisa ser solene, especialmente antes da sequência sobre os telhados.



A produção do filme tem uma história tão interessante quanto à do produto final. Mas praticamente todos os grandes filmes tem essa característica, de O Mágico de Oz a The Room.

Nos documentários, tu nota que é um trabalho de amor, de dedicação, de cuidado. E que embora eu até faça piadas sobre o quão amarga e razinza era P.L. Travers, a presença dela acabou sendo necessária pro filme, caso contrário Sr. Banks seria o vilão e tudo iria por água a abaixo.

Se tiver curiosidade e tempo, vale muitíssimo a pena comprar o DVD duplo, que tem todos os documentários que você precisa. Eu não tenho informações precisas quanto ao blu-ray, se alguém tiver, me avise que eu atualizo aqui.


Lá em cima eu falei que Mary Poppins é o filme familiar quintessencial. Um filme família, ao meu ver, é um dos mais complicados de se fazer. Se tu faz um filme pra criança, tecnicamente não é complicado, há um vasto material que pode ser usado de referência pra fazer legitimamente boas histórias com boas morais pra crianças. O mesmo vale pra filmes mais adultos, embora eles talvez requeiram um pouco mais de desenvolvimento, já que tentam passar idéias e até visuais mais complexos.

Mas um filme familiar precisa agradar a várias faixas etárias ao mesmo tempo, e isso é algo dificílimo. Mary Poppins consegue não só agradar ao público infantil, dando imagens, música e cores atrativas a eles, bem como morais condizentes com suas idades; mas ao mesmo tempo consegue entreter adultos pelos efeitos visuais, pelas técnicas, pelas músicas (algumas que remetem àquele nosso lado mais criança e bobo), pelo esforço da equipe de produção, dos atores, mas também pelo nível de roteiro, de personagens, bem como a moral que os atinge feito uma bazuca. E não só isso, a mensagem pros adultos permanece incrivelmente atual, nessa geração onde as babás contratadas permanecem e dividem espaço com as babás eletrônicas, e os pais passam mais tempo trabalhando pra garantir as coisas aos filhos ao invés de passar tempo com eles.

E quando crescem, eles não conseguem ter um bom relacionamento com eles porque perderam a fase da infância, que é tão preciosa e necessária.


E coisas tão simples poderiam remendar essa situação no momento certo. O filme abre com as crianças atrás de sua pipa, que eles mesmos fizeram porque seu pai não tinha tempo pra fazer com eles, e a pipa acabou rasgada. Com os mesmos dois pence, George consertou a pipa, e Winifred usou a faixa do ativismo como a rabiola da pipa, sendo a perfeita ilustração da família finalmente unida, com cada um sacrificando alguma coisa (mesmo pequena) em prol do todo, em prol da união, como deveria ser em toda família.
E lá vão eles, empinar pipa. Uma atividade tão simples, tão banal, tão barata, mas que vale muito.


Mary Poppins é não só meu musical favorito, não só meu filme da Disney favorito, mas meu filme favorito de todos. Nele tá resumido boa parte do que eu penso que deve ser um entretenimento pra crianças e familiar, ao mesmo tempo.
O único "defeito" que eu poderia apontar é que, pras crianças de hoje, talvez seja um filme muito lento. Crianças abaixo de 6 anos talvez não se interessem muito, o que é normal. O começo é bastante lento e demora até alguma coisa de fato saltar aos olhos delas. Dê um pouco mais de idade e tente mostrar de novo.

Mas mesmo com isso, é um filme lindo, necessário, divertido, e inteligente.

Eu sei que é clichê, mas dane-se. Mary Poppins é um filme praticamente perfeito em todos os sentidos, a verdade é essa.


Walt dizia que esse filme era a maior conquista de sua carreira, e nota-se os motivos. O que o motivava a produzir Mary Poppins era uma promessa a suas filhas, e ele batalhou até o fim pra conseguir os direitos. E ainda teve que enfrentar a autora, que demandava coisas mais ridículas e imbecis que a Emma Watson quando foi procurada pela equipe de La La Land, como tirar os bigodes de George, ou querer que o elenco fosse totalmente britânico. Ao menos nos espetáculos da Broadway ela conseguiu que isso se tornasse realidade, mas né.

Walt se sentia tão apaixonado pelo projeto,que ele foi pessoalmente numa pré-estréia de Mary Poppins, coisa que ele não fazia desde Branca de Neve.
Pois é!

Mas isso não impediu Walt de prosseguir. Esse foi o ponto alto em sua carreira, de fato, mas a vida continua, e havia mais livros a se adaptar. Até num processo similar a Mary Poppins, onde de fato pouca coisa do livro acabou sobrevivendo. O que, claro, não estraga o resultado final, mas veremos com calma.


Oh sim. Mary Poppins Returns estreará em pouco tempo. E essa postagem deve dar uma idéia a vocês do quanto eu NÃO quero que isso aconteça, mas só nos resta torcer que seja ao menos bom, o que vai ser ridiculamente difícil.


Como bônus, deixo dois vídeos do André Rieu, Supercal e Feed the Birds. E eu quero que notem especificamente em Supercal, as reações das pessoas mais velhas. Algumas delas provavelmente viram o filme quando pirralhos, e tão vivenciando aquilo.
Isso é a magia do entretenimento pra mim. Isso é lindo.

[Tio Walt - Parte 8] Freio no Cartão



Bela Adormecida fez sucesso na crítica, mas foi ridiculamente custoso. Os designs muito específicos em alta definição fez com que o retorno do projeto não fosse muito bom, o que levou Walt a demitir maior parte do pessoal pra reduzir custos.


Entretanto, Ub Iwerks, responsável pelos processos especiais e criador da câmera multiplano, fazia experimentos com o processo de xerox. Goliath II foi o teste que o estúdio fez pra ver se era viável.

Após o sucesso do experimento, os animadores apertaram suas mãos tal qual os cientistas da NASA ao descobrirem que em Marte há uma raça de alienígenas governada por um vulcão de bicarbonato, e Walt deu luz verde pro próximo longa: 101 Dálmatas.






Que por algum motivo aqui no Brasil, na época, se chamava A Guerra dos Dálmatas.

Eu nem consigo fazer uma piada com isso.



A história conta sobre Pongo, o dálmata cujo dono é um compositor de músicas que mora num kitnete em Londres. Pongo tá cansado da vida de solteiro, e decide arranjar uma parceira pro seu dono. Graças às Leis da Conveniência Universal, ele encontra uma moça bonita com uma dálmata igualmente bonita.

Eles se casam, os dálmatas tem dalmatinhas, que logo ficam na mira de uma amiga de faculdade da moça, Cruella DeVil. Que com um sobrenome desses, eu imagino que ela tenha algum parentesco com a Rainha Mariana da Branca de Neve.

...hm...
...foco! Tamos falando de dálmatas!

Enfim, Cruella contrata dois capangas pra raptar os dalmatinhas pra fazer um casaco de peles, mas os animais se ajudam, blablabla, latidos, carros, lucros.


O processo de xerox de fato diminiu drasticamente os custos de produção. Antes, os animadores faziam as sequências em papel normal, e então mandavam pros pintores, que iam passar a limpo a animação bruta pra folha de acetato, removendo os traços de rascunho. No entanto, esse era um processo caro e demorado, mas com o processo de xerox adaptado por Ub, era algo quase instantâneo, mas que tinha seus contras.

Por exemplo, a animação final fica com um aspecto mais "sujo", tu nota mais os traços de rascunho dos animadores, e isso pode acabar distraindo um pouco.

A animação em si continua boa, mas tu nota que eles tiveram um orçamento beeeem reduzido. Várias vezes uma animação é reutilizada, às vezes mais de uma vez. Mas isso gerou algumas idéias muito criativas, como fazer o processo de rotoscopia na perseguição dos carros usando modelos de papelão.


Mas infelizmente o filme em si é "meh". Eu diria que é o primeiro longa Disney que me passou esse sentimento (fora os filmes pacote). Pela primeira vez, não consigo sentir aquela empolgação, aquela criatividade, aqueles designs interessantes ou bichinhos fofinhos, como em Dama e o Vagabundo. O único design que é interessante é o da Cruella, e a personagem em si é divertida. Mas ela passa pouco tempo na tela, logo não tem muito o que gostar dela. As motivações dela são quase tão imbecis quanto da Malévola, só que Cruella é bem.. cruel.

Eu queria ver mais de Cruella, pra então ter uma base melhor pra odiar ela, e me divertir odiando ela.

Todos os outros personagens seguem muito o padrão básico, não tem muita surpresa. O que é engraçado, porque foi baseado em um livro, e a autora queria mesmo que o estúdio fizesse um filme sobre o livro. E na opinião dela, eles até melhoraram a história. (O que faz sentido, personagens e conceitos foram cortados ou alterados pra história fluir melhor, e no original tinha bem mais coisa)


Mas a idéia geral que o filme dá é que não foi totalmente pensado. Sente-se que falta algo, falta aquela paixão, aquela emoção dos outros longas. Não há isso aqui, embora o filme tente colocar e até funciona em alguns momentos. Mas é uma história travada, lenta, e o filme não se esforça muito pra que ela se torne interessante.

Agora, eu AMO os cenários desse filme.


Dentre os vários live-actions da época, eu poderia destacar Parent Trap, Absent-Minded Professor (que no Brasil se chama O FANTÁSTICO SUPER-HOMEM) e sua sequência, Son of Flubber. Isso porque eles tiveram reboots ou remakes em tempos recentes, mas eu falo deles outro dia. O filme que eu escolhi falar é um pouco mais divertido e criativo.

Talvez menos desenvolvido, mas né. Babes in Toyland (conhecido na nossa terrinha da pizza com rapadura como O Mundo Encantado dos Brinquedos).



A história se passa em um reino onde vivem os personagens das histórias da Mamãe Gansa. Conhecemos Tom e Mary, que estão prestes a se casar e são o casal mais adorável que você vai ver, e de alguma forma conseguem não ser melosos. Mas Barnaby (interpretado pelo Espantalho) quer casar com Mary, e contrata Sargento Garcia e Bernardo, de Zorro, pra capturar Tom e jogá-lo no mar. Mas o militar dublado pelo Scooby-Doo achou que era uma idéia melhor vender o cara pros ciganos.

O Espantalho chega na casa de Mary, onde a propõe casamento. Daí a história se desenrola, e tem outro plot onde eles vão parar na fábrica de brinquedos do Chapeleiro Maluco, blablabla, nanicolina, brinquedos, lucros.


Ok, comecemos então pelo pontos fracos do filme: os personagens são ridiculamente mal desenvolvidos.

Tom e Mary são a quintessência do casal de contos de fada perfeitinhos, mas nem passar o charme o suficiente eles conseguem. Há muito pouco espaço pros atores fazerem algo de interessante com os personagens, embora eles tentem e em alguns momentos os personagens tem até sequências divertidas, mas que não são o suficiente pra manter os personagens como gostaríamos.

Entretanto, eu creio que haja um bom motivo pra isso. Toda a produção tenta pegar o clima de conto de fadas, de cantigas de roda, de coisas que acontecem movidos mais pela emoção que pela razão.

E o design de produção é lindíssimo. O filme se apresenta como sendo literalmente uma peça de teatro.
...uma peça com efeitos visuais e cortes de câmera, mas ainda assim!




O cenários são criativos e não tem aquela necessidade te tentar te enganar: tu sabe que é falso, mas é tão bonito que tua única reação é deixar passar. Fora as performances de dança, em especial na abertura, nos ciganos, e no Espantalho.

Oooh sim, a melhor parte do filme, junto com o Chapeleiro Louco. Rapaz, como o vilão é divertido. Ele é o antagonista esteriotipado vaudevilliano, com cartola, bigode, capa preta, e Ray Bolger se empolga e se diverte ao interpretar o personagem. O único motivo que eu consigo imaginar pra ele não ser um dos vilões Disney mais bem lembrados é porque ele não é 2D e porque o filme não tem uma boa divulgação.

Isso até eles anunciarem remake né. Eu duvido nada.




Além dos designs de set e algumas atuações divertidíssimas, o filme tem alguns momentos em que tu primeiramente coça a cabeça e depois só aceita a situação.

Por exemplo, um dos meus momentos favoritos foi quando Garcia e Bernardo foram anunciar a Mary que Tom havia se afogado. Eles tavam disfarçados de piratas e começaram a cantar. Porque motivos!

Tem outro momento em que Mary pondera se deve casar ou não com Barnaby. E então ela começa um número musical sob as mesmas substâncias dos Elefantes Rosa sobre como ela não sabe fazer cálculos financeiros.

É sério.



E já que falei nas músicas, elas tem um papel fundamental na história. Vários diálogos são levemente cantados (se é que isso faz sentido), e são rimas gostosas de se ouvir, quase que um padrão Seussiano.

Sim, algumas coisas conseguem datar demais o filme, como os equipamentos do asisstente do Toymaker, que tem uma forte influência da época. Mas eu não sei, ainda é um filme deveras divertido. É muito memorável? Não necessariamente. Digo, Barnaby e os capangas são ótimos, Ed Wynn é ridiculamente engraçado e divertido de assistir, e as sequências musicais tem aquele clima de peça teatral que dá um gosto especial. Se você conseguir passar pelos protagonistas planos e uma história argumentalmente fraca, vai encontrar muito o que gostar daqui. Não é um clássico atemporal ou a melhor adaptação da história (ao menos é melhor que a versão de 1934 com o Mickey-pesadelo), mas ainda é divertida o suficiente e com uma ou outra coisa memorável. Vale a pena assistir sem muito compromisso.

Ah sim, e isso aconteceu.

No entanto, não era pra ser esse filme. Não senhor, Walt tinha um projeto em mente desde Branca de Neve, e agora parecia a melhor hora pra fazê-lo. Um projeto apresentado no seu programa Disneyland pelos Mouseketeers, The Rainbow Road to Oz.




Há tempos quero escrever sobre esse projeto e agora me parece o momento ideal.

Até porque não daria um episódio de A Maravilhosa Resenha de Oz, porque... Bem, tem 10 minutos.

Eu também demorei a falar sobre isso
porque olha isso dá medo mano se lascar

A história aparentemente seria original, ao menos nessa apresentação é. Vemos a Patchwork, o Espantalho, Dorothy, Ozma, e o Leão Covarde em um plot que não faz muito sentido, mas eu só li até Road to Oz, então não sei se é baseado em algum livro futuro. Raios, eu li o nome e fiquei decepcionado por não ter a Polly. Embora talvez a personagem tivesse sido mesclada com a Patchwork Girl (interpretada pela mesma guria que viveu Mary em Babes in Toyland).

Enfim, nesse especial temos algumas artes conceituais e demonstrações de sequências musicais e dança. E... É, não funciona. Tu pode ver no final do episódio que Walt parecia notar naquele exato momento que não ia funcionar.



O Mágico de Oz de 39 é atemporal, tinha uma ciência muito exata. Tanto é que uma das sequências deletadas, Jitterbug, datava o filme de uma forma incrível. Embora tu note traços do tempo nas outras sequências, elas se sustentam muito bem até hoje. Rainbow Road não, tu nota que pega muita referência da época, e os elementos simplesmente não batem muito bem. Embora sejam bem executados, e o trabalho de maquiagem e figurino seja muito bom.

O Leão claramente sofreu corte de orçamento em comparação o da MGM, mas nota-se que teve um esforço ali.



Walt sabia que isso não ia funcionar, e que ia causar muitas comparações com o clássico de 39, que ia afundar ainda mais o filme. Então deu luz verde pra Babes in Toyland, onde tu nota que ainda tem muitas influências conceituais desse projeto, por se passar em uma espécie de palco, um set de gravação, sem tentar te enganar.

Se tiver curioso, o episódio em questão tá aqui, e aqui tem um extra do DVD de Oz: The Great and Powerful sobre a história do estúdio com Oz.

Também foi lançado um LP chamado The Songs of Wizard of Oz, pela Disneyland Records, bem como adaptações da história em áudio (The Story and Songs of Wizard of Oz e The Story of The Wizard of Oz da linha Read Along).

...hm, talvez dê pra fazer um episódio da Maravilhosa Resenha. Pensarei no caso.




Pois bem. Sword in the Stone (conhecido na terra do Zé da Viola como A Espada era a Lei) teve uma história parecida.




Nos anos 40 mesmo, Walt estava com um projeto sobre a história do galo Chanticleer, que liderava uma fazenda porque todo mundo achava que o seu canto que fazia o sol aparecer. Walt juntou a idéia ao projeto da raposa Reynard, mas acabou envagetado até os anos 60. Dois animadores acharam o projeto e uniram ao desejo de fazer algo mais parecido com um espetáculo da Broadway, e começaram a desenvolver o filme. Enquanto isso, Roy tentava convencer Walt a parar com as animações pra poder injetar dinheiro nos dois parques, ao qual Walt respondeu com uma gargalhada.


No entanto, ele sabia que um dos projetos deveria ser engavetado, e Sword in the Stone foi escolhido porque animar humanos era mais barato que animar animais. (Mas se tiver interessado, tem concepts na Disney Wiki)




Eu imagino que a decisão de transformar os personagens em animais em vários momentos do filme seja de algum animador zueirão, mas divago.

A história nos conta sobre a morte do rei, que levou a um tempo em que a Inglaterra ficou desgovernada, prestes a ser quebrada em pedaços. Vindo da manga do roteirista, aparece uma espada em uma pedra, com a inscrição de que aquele que conseguir puxá-la, será o novo rei. Muitos tentaram, todos falharam. Então o povo decidiu que o novo rei seria escolhido através de uma peia federal, porque é mais divertido assim.

É o que eu sempre digo, o governante de uma nação deveria ser escolhido no ringue de MMA ou em um duelo Pokémon.

Hoothoot voltou pra pokébola!

Enquanto isso, Merlin está esperando um jovem com um grande futuro, pra que possa logo ensinar a ele sobre ciência e o raio a quatro. Então aparece Arthur, um órfão que é escravo de uma hospedaria, e ele começa a aprender sobre uma pancada de coisa com Merlin.


O conceito do filme não é ruim. Ao invés de focar nas lutas de espadas, cavalos, e em originar piadas de Capitão Planeta, eles falam mais sobre animais, um pouco de filosofia, e etc. Mas... É basicamente isso. E embora seja um conceito massa, não é bem explorado.

Acaba sendo um filme extremamente maçante de se ver. Eles tentam ser algo mais pra criança, sim, mas ainda assim, não é interessante, ou contado de forma atraente. É bem direto e simples, mas precisava de algo mais pra tornar divertido.



Por exemplo, as transformações são criativas, mas a forma que eles passam as lições são muito limitadas, quando o conceito era pra ser mais ensinando um moleque como ser um bom rei, um homem justo, e blablabla. Aí eles se prendem a coisas mais banais, ou a cenas de ação, ou engraçadinhas, e a mensagem acaba ficando em segundo plano.


A animação é... Rapaz... Digo, eu sei que o estúdio tava passando por dificuldade financeira na época, mas pelo amor do raio, algumas sequências tão quase do nível de Hanna Barbera. Além das cenas recicladas, aqui há mais daqueles momentos onde um personagem fica parado e a animação consiste no mínimo necessário, como olhos piscando ou barbatanas mexendo. E graças ao processo de Xerox, as falhas ficam ainda mais evidentes.

E em alguns momentos, tu nota que os personagens ou a câmera não se movem com a mesma fluidez de antigamente. É distrativo.

Mas os cenários ainda tão supimpa.

Mas talvez eu não possa reclamar tanto, já que, embora esses momentos existam e te distraiam até certo ponto, as animações que são boas são realmente boas. Os personagens se movem como sempre, e a batalha entre Merlin e Min é muito criativa (embora ela só tenha sido apresentada no último ato, provavelmente porque alguém se tocou que tava faltando um clímax e um antagonista).

O melhor personagem ali é o Merlin, de longe. A forma que ele fala, que ele é animado, a dinâmica entre ele e a coruja tsundere Arquimedes, a magia, o fato dele ser de fato sábio e saber quando e como usar os poderes, ele é um personagem muito divertido de se ver. Em Kingdom Hearts ele tá melhor, na minha opinião. Ele tem um peso maior, e há o mesmo tipo de respeito ao personagem.

E sim, ele foi baseado em Walt Disney, assim como Yen Sid.



É um filme interessante pra crianças, elas podem gostar das transformações, do pouco slapstick que tem (e nem tão bem executado no segundo ato), de algumas cenas com cavaleiros, e até aprender uma coisa ou duas. Mas se quer um filme com mais conteúdo, mais bem produzido, e mais interessante, esse é um pra deixar passar.


E não só isso, mas esse foi o primeiro filme animado dos Irmãos Sherman, que já trabalhavam com o estúdio e os parques há algum tempo.


E na próxima parte, veremos um dos grandes feitos dos irmãos, bem como, na minha opinião, o melhor filme Disney até hoje.