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Toontown Rewritten



No início dos anos 2000, a Disney lançou um MMORPG chamado Toontown, baseado na área dos parques temáticos, Mickey's Toontown. O jogo recebeu boas críticas, ganhou prêmios, tinha um bom nome.
No decorrer dos anos, os servidores foram fechando, até que o último servidor foi fechado em 2013. Desde então, a Disney disse que focaria mais em jogos pra celular e outros jogos online, como Club Penguin.

Até que, recentemente, um grupo de fãs disse “OH, HEEEEEELL NO!” e resolveram relançar o jogo por conta própria, usando arquivos do jogo guardados por eles e servidores próprios.

E assim se inicia a história de Toontown Rewritten.




Antes de iniciar a resenha propriamente dita, eu acho que é justo contar um pouco da minha história com o gênero MMO.

Quando eu era um projeto de gente (uns 10-11 anos) eu costumava ir pra lan house com meus primos. Enquanto eles jogavam Ragnarok e Lineage 2, eu ficava jogando Spider-Man 2, porque eu não tinha saco nem jeito pra jogar RPG. Eu achava legal os gráficos e tudo o mais, mas ainda achava complicado pacas.

Até que um belo dia eu resolvi tentar aprender a jogar Lineage 2, eles me ajudaram, blablabla. A partir daí eu me aventurei em Grand Chase, Ragnarok, Champions, The Duel, Aura Kingdom, e mais uma rruma aí que eu nem lembro, sendo meus favoritos Grand Chase (até enjoar mais que aquela música que tu ouviu tanto que fez um calo na tua mente) e Rusty Hearts. Ambos os jogos fecharam, mas foi com Rusty Hearts que eu fiquei realmente desapontado.

Hoje eu tenho receio em qualquer MMO porque eles tem um design muito genérico (e isso não é problema só dos MMOs, ao meu ver), e porque eles precisam de uma certa pesquisa em fóruns sobre que itens pegar, lugares pra upar, etc. E isso, pra mim, é um pé no saco, é entediante, e tira parte da graça de aventura. Em suma, muito complexo.

Veja bem, eu vejo que um MMO é bom quando mesmo sozinho tu consegue se divertir um bocado e continua tendo coisas pra fazer. Claro, com uma galera sempre é mais divertido, mas sabemos que nem sempre é possível reunir 5 pessoas pra jogar. Pra não me demorar muito, Rusty Hearts era um mmo de beat'em up, com mapas divertidos de explorar e com um gameplay geral que era agradável, fora que tinha um design de personagens e ambiente lindos. Fora que as quests e lugares pra ir tinham uma certa lineariedade, era tranquilo e intuitivo. Uma pena que tenha sido fechado, mas há um grupo que quer ressuscitar o jogo (assim como Toontown Rewritten) chamado Rusty Hearts Revolution.

Deus abençoe essas pessoas.


Enfim, Toontown Rewritten (que eu chamarei de TTRT a partir de agora porque Rewritten é uma palavra muito ruim de digitar) se passa na cidade de Toontown. Outrora administrada por Mickey Mouse em pessoa, houve uma eleição para novo prefeito, entre Slappy e Flippy. Slappy vence, mas ele é capturado por robôs engravatados chamados Cogs, cujo objetivo de vida é tornar Toontown chata e sem graça. Então Flippy fica sendo o prefeito.

Agora você, sendo um animal antropomórfico, tem o dever de aprender piadas físicas slapstick dos anos 30 para derrotar os Cogs, uma vez que eles não suportam piadas e alegria.


Após fazer seu cadastro e todo o procedimento padrão de jogos online, você cria seu personagem (chamado de Toon) e começa um tutorial sobre como funciona o jogo, explicando a história e alguns conceitos.

Passado isso, você irá para o Playground, que é um lugar sem Cogs, onde você poderá comprar piadas, pescar, conversar com outros toons, e brincar nos joguinhos pra ganhar jelly beans, que são usadas como dinheiro.


O jogo tem alguns elementos que lembram MUITO neopets, como os ditos joguinhos. Eles variam de cabo de guerra, caça a itens, nadar através de argolas, jogo da memória, coisas bem simples e fáceis de entender. Obtendo o sucesso, você ganha jelly beans pra gastar em roupas, mobília pra casa, mas principalmente, as piadas usadas pra derrotar os Cogs.

Entre um playground e outro, existem as ruas, que é onde a ação acontece. Além de encontrar Cogs e explodí-los com comédia pastelã dos anos 30, você também encontra NPCs com missões a serem realizadas, como todo MMO que se preze tem.



Uma das coisas mais bacanas do jogo é que ele realmente pega muita referência dos desenhos clássicos da Disney, mas de uma forma graficamente atualizada. Mais ou menos como OK Mundongo da Disney e House of Mouse (que surgiram na época do jogo original, aliás).
Os olhos tem o formato do pac-man; as piadas envolvem torta na cara e flor que espirra água; os prédios são datados mas tem um charme da época… Visualmente é um jogo bonitinho e agradável, e a forma que ele utiliza as mecânicas de batalha refletem esse clima kid-friendly.


A batalha contra os Cogs acontece em turnos, como um RPG comum. Pra iniciar uma batalha, basta ficar frente a frente com um Cog. Então é só escolher a piada e assistir as animações. Se o medidor de alegria do seu toon chegar a zero, ele volta pro playground cabisbaixo e depressivo, e com o tempo vai recuperando a alegria (somente no playground). Na área residencial e nos playgrounds também podem ser achados itens que curam sua alegria (como sorvete, estrelas, margaridas, depende do lugar).

Infelizmente, o jogo tem seus problemas. Lembremos, é um jogo de 2003 voltado a crianças pequenas e sua família (que presumidamente não tinham experiência com MMORPG), então algumas mecânicas são beeem datadas e estranhas.
Por exemplo, pra falar com um NPC você tem que chegar na frente dele, e só. Não tem que clicar nele nem nada, o que seria a coisa mais intuitiva, ter exatidão no controle do que tu quer fazer.

Embora não pareça ser tão ruim, o mesmo sistema é usado pra entrar em uma batalha contra os Cogs, e mesmo o multiplayer de batalha funciona assim.
Se tiver alguém já em batalha com os Cogs, você só precisa chegar na frente do Cog e tu vai ser adicionado à batalha. No entanto, isso atrapalha caso tu esteja só andando de um lugar a outro, sem ir atrás de briga, e ter que esperar um turno ou dois pra poder sair da batalha.


Algumas modificações são necessárias, mas eu entro em debate comigo mesmo, se o jogo de fato precisa dessas modificações. Por um lado, sim, atrapalha em alguns momentos, a mecânica precisa de um polimento; por outro, o jogo tenta recriar o máximo possível a experiência do jogo original. E os caras tão fazendo tudo isso do bolso deles, e eles não aceitam nem doações. Eles só querem que esse jogo tão único seja presenciado e experimentado por novas gerações.


Não é um jogo perfeito. Como eu mencionei, ele tem falhas, ele é bem datado em vários pontos, mas ele é leve, criativo, e divertido. Pode ser repetitivo? Sim, mas no fundo, todo MMO é repetitivo em certo ponto. Dê uma olhada, nem que seja por curiosidade, porque vale a pena. Kid-friendly, relaxante, visualmente agradável, e simples de jogar, mas não menos divertido por causa disso.

Oh sim, quase esqueço. O jogo ainda tá na fase beta, então tem algumas coisas (como o cinema e os pets) que não tão disponíveis, mas esperemos as futuras atualizações.


Toontown Rewritten










A Pequena Sereia (Ningyo Hime)



Já pararam pra pensar como adaptação pode ser um negócio complicado?

Não só por tentar entender uma obra e executá-la da melhor maneira possível, mas sim de enfrentar uma fanbase. Sempre irá ter diferenças entre a fonte e o produto, algumas gritantes. Mas como eu venho falando há algum tempo, tem diferenças que não fazem a mínima falta no produto final e ainda assim os fãs insistem em dizer que é de fato um problema. Como, sei lá, a cor do cabelo da Annabeth em Percy Jackson.

Eu só enxergo neles uma aspiração a serem a própria P.L. Travers.

Aí vamos pras animações Disney e todo mundo fica “nossa ainda bem que eles mudaram isso né?”
...ok eu nunca ouvi ninguém dizer isso, mas eu tenho quase certeza de que todos nós pensamos isso ao descobrirmos algumas coisas. (Recomendo a leitura disso aqui)


E hoje lhes apresento A Pequena Sereia da Toei, de 1975.




A história foca em Marina, sereia princesa. Ela sonha em ir nadar na superfície junto de suas irmãs, mas ainda é muito jovem para isso. Após usar uns cheats, ela chega na superfície e salva um príncipe de uma catástrofe com seu barco, e se apaixona por ele. Por salvar o príncipe, ela ganha o direito de ir até a superfície, mas agora ela quer mais que isso, e faz um contrato com a bruxa do mar para ganhar pernas (em troca de sua voz) e conquistar o príncipe. O final, todos vocês sabem (ou deviam saber): o príncipe se casa com outra; Marina entra em depressão, mas recebe uma proposta de matar o príncipe pra voltar a ser sereia; mas decide se sacrificar e morre, virando espuma marinha.



A história segue muito fielmente o conto de fadas de Andersen, mas infelizmente dá pouco desenvolvimento aos personagens. Eles são muito unidimensionais, não tem características marcantes ou identificáveis, o que torna o final meio sem sal (embora ele seja muito bem executado).


Marina é a típica princesa que quer explorar novas coisas e novos mundos, mas acaba sendo só isso, e talvez mais estúpida e mimada que a Ariel (já que vemos pouco da personalidade dela, e o que vemos acaba não sendo tão interessante ou identificável quanto Ariel); Fritz é o típico sidekick bonitinho que atua como golfinho de guarda de Marina, bem como a consciência dela. E o príncipe acaba sendo quase tão sem graça que o príncipe de Cinderela (1950).

Essa estátua tem quase tanto
carisma quanto o príncipe


Isso quer dizer que eles são intragáveis? Não exatamente, eles só são… Simples demais. A história é interessante o suficiente pra continuarmos assistindo. A edição atrapalha, tendo cortes rápidos e falta de música de fundo; fora que o supervisor de layout tirou férias durante o filme, já que ele tem excesso de close-ups nos rostos, que depois de um tempo incomoda.


A animação é 8 ou 80, ou ela é desconfortavelmente preguiçosa, ou ela é muito boa. Por exemplo, os personagens falando e flutuando na água são bem próprio de animações japonesas da época, mas quando se trata de coisas como movimento das ondas, barcos quebrando, ou mesmo Marina no seu dilema de matar ou não o príncipe são boas. Detalhe também pros cenários, que não são exatamente criativos, mas que nota-se que houve um esforço neles.



Mas de longe, a coisa que mais irrita é o gato falante.



Me ouçam: animais marinhos falam com Marina, ok. Mesmo depois dela virar humana, eles de alguma forma conseguem se comunicar com ela. Estranho, mas ok, não é como se o filme explicasse os detalhes da magia do mundo. Mas aí do nada um gato começa a falar, e ele tramava contra Marina. Ok, então o gato é a bruxa do mar transformada?




De fato não, porque depois o gato é nos mostrado tramando contra Marina juntamente com o primeiro ministro. Então, ok, então o primeiro ministro é a bruxa e o gato é algum lacaio dela.



Adivinha? DE FATO NÃO, porque depois vemos o gato falando com o rei e rainha sobre o príncipe não querer se casar como se fosse a coisa mais normal do mundo!


E se você procurava uma explicação, azar o seu.

"A TALKING CAT?"


Yup, eles botam essa coisa totalmente aleatória que tem pouco ou nada a ver com a trama principal e simplesmente deixam por isso mesmo.


Ok, mas no final, vale a pena? Bem… Se tu tiver muito interessado em saber sobre a história original, não é tãão ruim… Embora com certeza deva existir alguma coisa mais entretível que isso.
Tem em português no YouTube e eu juro como deve ter um DVD de 6,99 nas Americanas desse filme.

Eu nunca vi, mas durante um tempo saíram várias animações japonesas sobre contos de fada (já vi à venda O Pequeno Príncipe e eu lembro de um VHS do Robin Hood), então as chances de ter por um preço acessível são altas.


Mas, se quiser algo de fato divertido e agradável com a história mais fiel ao conto original, eu não posso te ajudar por não conhecer tal filme, mas a versão da Disney é boa o suficiente. Só assista se lembrando de que Ariel poderia ter morrido no final, e o príncipe carregado a culpa de ter casado com a moça errada e ainda ter indiretamente causado a morte da protagonista.


...your know, for kids!











[Opitorial] Bob Esponja Moderno



Eu amo Bob Esponja. Foi um dos desenhos que marcaram minha infância, engraçado, e com personagens e momentos memoráveis.

Até que em algum ponto a Nickelodeon resolveu fumar um cachorro-quente com purê de batatas e virou a bela porcaria que é hoje, com seus sitoms repetitivos, irritantes, e previsivelmente sem graça.

Sério, desafio a qualquer um a ver a dobradinha "Sanjay e Craig - Breadwinners" sem querer chorar em posição fetal ouvindo "Two Worlds" do Phil Collins.

Em russo.

Mas outro dia falo de Sanjay e Craig e Breadwinners, hora de falarmos sobre os episódios modernos de Bob Esponja.

E já aviso, algumas descrições e imagens podem ser fortes pra algumas pessoas.






Vamos primeiramente falar de alguns episódios onde os problemas são bem mais evidentes.


-A Farpa (The Splinter)

Um plot simples. Uma farpa entra no dedo de Bob Esponja e ele tenta tirar. Simples até demais para um episódio de 11 minutos, que é preenchido por dor, agonia, e exagero gráfico realista demais pra um desenho animado de comédia.



Vejam bem, slapstick é engraçado porque é algo exagerado. Alguém tendo a cara moldada por um golpe de ferro de passar? Engraçado. Explosão que te deixa inteiramente preto? Engraçado. Piano na cabeça? Engraçado. Morto por um piano na cabeça? Pelo amor de Bob Hoskins, tragicamente hilário.

Então, qual o problema aqui?



O problema é que a farpa no dedo é algo extremamente relacionável, e os escritores e animadores se esforçam pra fazer com que as cenas sejam o mais dolorosas possível.
Oh, e a história continua.

Bob esponja vai atrás da ajuda de Patrick, que joga lixo em cima do ferimento, que faz inchar ainda mais e fica roxo.



Logo depois, seu Siriguejo tira a farpa, e saltam confetes dela.
E depois o velho cascudo leva um banho de pus.
...
É sério.

Imagino a conversa dos TRÊS ROTEIRISTAS que escreveram esse episódio.

Nate: Cara, não acha que é demais dar um banho de pus no Siriguejo?
Sean: Verdade, então bota uns confetes antes pra aliviar.
Steven: Galera, "parte da casa" com 6 letras, alguém sabe?


-Um Companheiro Para Gary (A Pal for Gary)


Esse é um dos sinais de burrice extrema dos personagens.

Bob Esponja se preocupa que ele passe o dia fora trabalhando e Gary se sinta sozinho em casa (na verdade Gary fica muito bem comendo porcaria e assistindo faroeste, coisa que qualquer pessoa normal com acesso a YouTube/TCM faria), então ele compra um  monstro de Yu-Gi-Oh pra fazer companhia pra ele.

O problema já começa quando Bob compra o tal bicho, que não escuta a Dona Estranha Cigana dizer que os bichos podem ficar muito agressivos caso eles estejam com outro bicho de estimação.


Gary fica com medo e evita o bicho novo, e Bob entra naquele estado de "ow aprendam a dividir", "Gary não seja mal educado, brinque direito com seu novo amiguinho", etc.

E então Gary começa a fugir do bichinho novo. A noite toda. E Bob Esponja sequer acorda.
Ao acordar, Bob nota a casa com alguns probleminhas (portas e forro caindo, biblioteca pegando fogo, roupas rasgadas) e imediatamente conclui que Gary está com ciúmes.
E então ele encontra Gary na seguinte situação e grita de pavor.


E eu juro, o que ele diz nessa situação é algo que não seria engraçado nem em paródia de desenhos oitentistas.
"Ponha o Fluffy no chão agora! Menino mau, Gary! Menino muito, muito mau!"


...
SEM MAIS PERGUNTAS, MERITÍSSIMO.

Não, nem vou me dar ao trabalho de terminar o episódio. Não. Hm-hm. É daí pra pior, eu juro.
Não tem plot, não tem comédia, personagens fora do personagem, e há uma alta probabilidade de assustar crianças.



-O Bebê Lula (Squid Baby)

Antes de mais nada, esse é aquele mesmo episódio que o Bob e o Patrick cuidam de uma ostra. O que mostra um desgaste geral na série.

O episódio começa com Bob Esponja e Patrick brincando com os brinquedos de Bob de quando ele era um bebê. E depois começam a imitar bebês.
...que jeito de começar.



Então Lula tropeça nos brinquedos, bate a cabeça, que incha, e ele começa a agir como um bebê. Bob Esponja (agora inteligente) acha melhor levar Lula ao médico. Patrick o ajuda, com a cabeça de Lula pendurada e batendo no chão no processo.

E sim, essa informação é necessária, pois esse é um característico "Pornô de Tortura Lula Molusco™".



Em uma série de comédia, normalmente há regras de carma. Se um personagem faz algo ruim, ele deve ser punido. Isso é parte da comédia, de certa forma. Até mesmo mocinhos podem virar anti-heróis, em alguns casos.

Há histórias do Donald onde ele começa impedindo os sobrinhos de irem pescar, e os leva a um torneio de golfe. Nesse momento, ele é o vilão. Até que ele faz uma aposta com Gastão, e os sobrinhos os ajudam a vencer pra irem embora mais cedo. Então agora Donald leva a torcida do leitor, naturalmente.

Normalmente, o Lula está numa posição meio que do Donald. Mas em um PTLM, a lógica é: "se (Lula Molusco); punir (Lula Molusco;)". Sem rima ou razão, sem motivo ou necessidade. Voltarei a esse tópico depois.



Enfim, basicamente o episódio é Bob Esponja e Patrick cuidando de Lula Molusco de uma forma bem semalhante a de tomar conta de um bebê. O que é meio arrepiante se você pensar que é o Lula Molusco. E que eles estão constantemente machucando-o.

Ah, e o Siriguejo diz que não importa se ele tem a mentalidade de um bebê, contanto que ele trabalhe.
O que me leva ao próximo episódio...



-Bob Esponja, Você Está Despedido! (Spongebob, You're Fired!)


Bob Esponja começa o episódio fazendo o trabalho Severino Multiuso de sempre: limpa o restaurante, faz os hambúrgueres, tudo com habilidade ímpar.


Aí Seu Siriguejo chega e demite ele.
Porque?
Porque cortando o salário do Bob Esponja ele vai economizar cinco centavos.
...

Perdão, esse é o mesmo Siriguejo de "Siriguejo Nasce de Novo"? Onde ele vende o Bob Esponja ao Holandês Voador por uns centavos, e depois se arrepende amargamente?

Uma coisa é o personagem ser mesquinho, mas humano.É uma característica que pode gerar muitos momentos engraçados e memoráveis, e também momentos de sincero heartwarming. Tio Patinhas e Julius Rock tão aí pra provar isso.

Mas o Siriguejo atual chega a pontos que o tornam quase um anti-herói, ou mesmo o vilão, como veremos no próximo episódio.



-Refeição Grosseira (One Coarse Meal)




Quem me acompanha sabe que eu gosto de usar analogias ou piadinhas na hora de descrever algumas ideias ou plots. Como Darth Vader sendo o filho do Exterminador do Futuro em Um Herói de Brinquedo.


Pois bem, eu vou tentar ser o mais direto possível. Sem piadas, sem analogias, nem nada.
Seu Siriguejo descobre que Plankton tem fobia de baleias, porque seus ancestrais foram comidos por baleias como a Pérola (ignoremos por um minuto que cachalotes não comem plâncton e que isso provavelmente seria crime nesse mundo).

 Então ele faz uma fantasia de Pérola e começa a perseguir e assombrar Plankton, que chega a se isolar em casa em paranoia profunda, chegando a se estirar no meio da estrada esperando ser atropelado.


Em resumo, Seu Siriguejo persegue Plankton incansavelmente até que Plankton decide se matar.
Seu Siriguejo leva Plankton a tentar o suicídio.
E ainda ri quando Bob Esponja diz que o Plankton está estirado no meio da estrada esperando um caminhão passar por cima dele.
...

Isso ao menos parece um plot de uma série de comédia voltada para crianças?


Porque nem pra humor negro isso serve, é cruel demais, e sem propósito. Siriguejo e Plankton tem um histórico de rivalidade, e só. É como o Tio Patinhas e o Mac Mônei, é um duelo entre cavalheiros (mesmo que Plankton trapaceie algumas vezes), a vitória deve ser por meios estratégicos e de igual pra igual, não por meios sádicos e perturbadores.

Fora que, no final do episódio, Bob Esponja também faz terrorismo psicológico com Plankton (o que contraria o que ele mesmo diz mais cedo no mesmo episódio, que é de boa natureza e nunca faria mal a alguém). E Siriguejo é recompensado no final com... Se livrar de Plankton por um tempo. Ou seja, o episódio não leva a nada, por nada, não é engraçado, e nos faz odiar o Siriguejo por ele estar justamente na posição de vilão maquiavélico.


Além de tratar a depressão e paranoia, além do suicídio como algo banal.

E já que falamos nisso, vamos tirar esse elefante na sala logo.



-"Está Feliz Agora? (Are You Happy Now?)

Esse é um dos episódios que está disponível no próprio site da Nickelodeon e você pode vê-lo dublado e sem peso na consciência.
...kinda.

Antes de tudo, um background. Há uma creepypasta chamada O Suicídio do Lula Molusco, que, se parar pra pensar, ela é ridícula, mas que sim, consegue dar medo em alguns (incluindo este que vos fala). Alguns teorizam que esse episódio veio baseado nos rumores que a creepypasta cita. E, considerando os episódios listados nesse texto, eu acredito. É como se os roteiristas e produtores estivessem implorando pra série acabar, e entraram num modo "eu não ligo a mínima pro que vão dizer, só quero meu pagamento no final do mês" tão alto que faria Silvio Santos repensar seu modus operandi atual.

Oh, well. Para o episódio, então.



Bob Esponja está juntando num álbum todas as suas memórias felizes no Siri Cascudo, e Lula Molusco descobre que não tem nenhuma memória feliz. Então Bob Esponja tenta criar algumas com Lula, levando ele a atividades que ele gosta (relacionadas a arte), que acabam dando errado de maneiras catastróficas, física e psicologicamente pro pobre Lula. (Ainda assim, temos que dar crédito ao Bob, ele pelo menos tá tentando ajudar, da forma certa. Ao contrário de certas estrelas-do-mar, como veremos mais adiante).

Após a última tentativa, Lula Molusco se isola em sua casa, e Bob fica preocupado (levando-o a dizer, aliviado, "Pelo menos vi que ele tá vivo.") E então seguem-se várias piadas que levam o espectador a pensar que Lula vai de fato se matar (o que nunca ocorre).



O que poderia talvez ser engraçado em uma série voltada a adultos, e onde a depressão não seja retratada de forma tão realista (dá pra fazer um baita estudo de semiótica na casa do Lula no estado de depressão). Engraçado porque é algo que te pega de surpresa, mas só. Ainda assim, creio que seria um grupo bem seleto de pessoas que acharia isso engraçado.

O principal problema do episódio é retratar a depressão de forma extremamente realista. Não sou contra programas voltados a crianças falarem sobre problemas do mundo real, ou de forma realista, mas precisa-se de um estudo ao redor do tema, e testes. Sesame Street engavetou um episódio onde seria abordado o divórcio por quase 20 anos, porque sentiram que havia muitas falhas no roteiro, e as crianças que participaram dos testes não entenderam a mensagem. Do mesmo modo com o episódio da morte de Mr. Hooper . Há estudos, há pesquisa, há consultoria, para que nada seja traumático, ou assustador, ou que passe a mensagem errada.

Mas aqui, como eu falei, a produção ligou o modo "dane-se, só quero meu pagamento no final do mês". "Falem bem, falem mal, mas falem de mim."



E mais, em isso tudo que falei acima, eu desconsiderei de que BOB ESPONJA É UMA SÉRIE DE COMÉDIA. Puramente comédia. Não precisa adentrar profundamente na psique dos personagens, não precisa ter plots megalomaniacamente complexos, só um slice of life surrealista e nonsense. "Ah mas Friendship is Magic adentra a psique dos personagens" Mas Friendship is Magic faz isso de forma certa, nunca vai tão longe, ou dá traços tão bizarros (a menos se você for um 4channer procurando demais), e é uma série mais voltada a aventura, podendo ter um balanço entre aventura e comédia.

Sim, Bob Esponja também tem seus episódios mais de aventura, mas ainda assim, a veia cômica é mais forte. É o mal entendido, as missões absurdas que são passadas aos personagens (como no episódio da Pizza do Siri Cascudo, é uma aventura, mas é levado a níveis nonsense). FiM tem que manter o equilíbrio entre a aventura/slice of life e a comédia (e o faz muito bem), personagens complexos vem no pacote. Em comédias, os personagens precisam ser pelo menos sólidos o suficiente para serem engraçados, complexidade é um fator extra.

Uma coisa é alterar, por exemplo, os dias de feriado do Siri Cascudo em prol do plot, outra é...



-"A Figurinha" (The Card)

...isso.



Eu sei, muitos de vocês se lembram desse, eu lembrava vagamente, na verdade.
O plot é o seguinte: Bob Esponja faz coleção das figurinhas do Homem Sereia e o Mexilhãozinho, e há uma figurinha raríssima, holográfica, e com som. Bob Esponja gasta todas as economias comprando quase todos os pacotes em busca da tal figurinha, mas não encontra. Patrick compra o último pacote, e nele vem a tal figurinha.

Então Bob Esponja faz um acordo com Patrick de no final do dia, a figurinha passar pra ele. O problema é que o Patrick usa a tal figurinha o dia todo em diversas situações (de palitar os dentes a fazer churrasco), todas na frente de Bob Esponja, assistindo a agonia de seu melhor amigo, que chega a chorar ruidosamente em certo ponto. E Patrick não dá a mínima.


E no final, a figurinha vira pó, e Patrick diz que se o Bob quisesse, era só ter pedido mais, porque o pacote dele veio com 5 figurinhas daquela.

Oh, e há certo ponto no episódio onde Patrick faz uma burrada que põe em risco a figurinha, Bob Esponja pergunta o porque daquilo, e ele responde "Você não pode esperar sempre meu mesmo nível de estupidez, eu gosto de misturar".


Não é uma boa desculpa quando você tortura psicologicamente seu melhor amigo, fazendo-o mover mundos e fundos pra salvar a figurinha tão amada, que aliás, também devia ser bem cuidada pelo Patrick, que também é um grande fã de Homem Sereia e Mexilhãozinho.

O que me leva a crer que ele fez tudo isso de propósito, caso contrário o episódio terminaria com "toma, pega outro, veio 5 dessas no meu pacote".
Mas então, o próximo episódio...



-"Presos Nos Rolos Espremedores" (Stuck in the Wringer)


...consegue ser ainda pior.

O episódio começa normal, um típico dia na vida de Bob Esponja. Tomar banho, se secar no rolo espremedor. Aí ele fica preso no rolo espremedor.

Normalmente isso seria uma gag normal, e sim, devo admitir que tornar ela ser o foco do episódio é uma jogada interessante.

Até o momento que o Patrick chega pra ajudar e passa cola permanente no Bob Esponja.

...perdão, o quê?


COMO RAIOS ALGUÉM CONSEGUE SER TÃO IDIOTA ASSIM?

Patrick era um cara idiota, mas ele não chegava ao nível criminal. Isso porque esse artigo já tá imenso e vou poupar vocês de "Pat, Babá de Mascotes" (Pat Sitter Pat), porque ele é meio que remake do "Um Companheiro para Gary" com Patrick como vilão.

Enfim, IT GETS BETTER!

Bob Esponja não consegue trabalhar direito e acaba machucando quem está ao redor, e Patrick tenta ajudá-lo levando-o ao parque de diversões.

Onde Bob é surrado por tudo e por todos, e Patrick fica de boas. Até que Bob surta e briga com Patrick (tendo uma multidão como plateia). Bob está certo em ficar com raiva de Patrick, claro.
Mas Patrick sai chorando dizendo "Eu só queria ajudar!", o que faz a multidão ficar com pena do CARA TODO LASCADO E QUE QUASE MORREU POR CULPA DO OUTRO. Qual é a lógica? O cara que saiu chorando tá certo porque ele tá arrependido, porque ele quis ajudar? O cara lascado e que quase foi morto tá errado? E eles ainda dizem que a culpa é do Bob e o fazem se sentir culpado! Onde se passa essa história, no Brasil?


Eu senti uma genuína vontade de socar cada um daqueles personagens na multidão, sério mesmo.
Ah, e o final. Patrick chora arrependido e as lágrimas soltam Bob Esponja.

Então, crianças. O que aprendemos hoje? Que chorar resolve seus problemas, afinal.

...não, é sério. O Bob diz exatamente essas palavras. Olhando pro público.

Eu nem consigo fazer uma piada com isso.



-"Visita Do Lula" (Squid's Visit)



Começa com Bob Esponja chamando Lula Molusco pra ir na sua casa, e Lula educamente recusa. Bob Esponja então começa a chorar agarrado aos pés de Lula, seguindo-o por todos os cantos (primeiro sinal do episódio).

Patrick sugere que Bob Esponja pegue emprestado (a.k.a. roubar) algo do Lula pra que o force a ir pra casa dele.

Lula ouve barulhos e vê um bilhete de Bob dizendo que levou o aspirador de pó dele. Lula vai pra casa de Bob pra pegar de volta, e a casa de Bob está exatamente igual a de Lula.
É uma exata réplica.

Bob Esponja ficou tempo demais na casa de Lula pra copiar o menor dos detalhes, inclusive o bordado da mãe de Lula. Bob age como se fosse um stalker do tipo mais perigoso, quase um estuprador, por assim dizer. Ele ouve um "não" e entende como "sim" e ninguém vai impedir ele de agir como quer e ouvir o que quer.

Além de  torturar psicologicamente o Lula Molusco, no final a casa original é queimada.
Ou seja, Bob Esponja é um stalker doente.



-Ignorante na Corrida (Demolition Doofus)

E como a cereja do bolo, esse episódio. Que assim como "Você Está Feliz Agora?", está no site oficial da Nickelodeon (a partir de 11:40).



Começa com Bob Esponja indo pra (mais uma) prova de pilotagem, até que por ele ser um imbecil retardado ele bate nos carros ao (tentar) fazer a baliza, incha a Sra. Puff, e explode o carro.
Batendo no farol.

No hospital, o médico explica que a bexiga inflatória ou algo assim estourou e que a Sra. Puff nunca mais vai poder inflar de novo.
Aí o Bob Esponja faz piada e a Sra. Puff tenta esganar o nariz dele.



Justo, se me perguntar. Bob Esponja aqui é aquele cara desagradável que pergunta pro outro que faz tratamento de câncer "Tá fazendo quimioterapia? Massa, bixo! Na federal?"

E durante TODO o episódio a Sra. Puff faz questão de deixar bem claro que não quer de jeito maneira Bob Esponja por perto, e ele age como se nada estivesse acontecendo.

E embora eu compartilhe (nesse caso) do desejo da Sra. Puff de dar umas mãozadas no Bob, ela leva sua ira além.


Ela descobre sobre as corridas mortais de carros-monstro, e pensa em mandar Bob pra lá.
Ok, essa imagem pode ser só metafórica, certo? Ela não seria tão cruel assim.

Certo?

CERTO??


A luta começa e ao ver que Bob continua intacto (mesmo sem não fazer ideia do que está acontecendo, diga-se de passagem), ela começa a gritar coisas como "Isso não está certo", "Esmaguem o Esguichador" (apelido dado a Bob na luta), e, o que mais me chocou, no original em inglês (porque foi adaptado pra fazer um trocadilho em português), "Porque ainda está vivo?"

Prestem atenção nessa frase. Não "Porque ainda está de pé", ou "Porque não está ferido". "Vivo" é a palavra usada. Sra. Puff quer literalmente, exatamente, diretamente, ver Bob Esponja morto, sem alma, enterrado. E se bobear, vai passar o enterro todo gargalhando.

Hey, Seu Siriguejo também sentiu um prazer delirante ao torturar Plankton, não duvido que eles fariam a mesma coisa aqui.

Bando de mentecaptos.



E então Sra. Puff resolve que "se [CENSURADO] não vai à montanha, então a gente passa por cima dela quebrando geral".
E no final Sra. Puff volta a inflar, mas a escola de pilotagem é reduzida a pó no processo de perseguição.

Ou seja, nada com nada chega a nada.


Eu não vou mentir. Esse foi um dos episódios mais difíceis de assistir, pessoalmente. Eu sempre tive um apreço pela Sra. Puff, justamente por ela ser aquela professora de escola pública brasileira, que nunca desiste de seus alunos pelo amor de ensinar.

"Mas Capão", você pode se perguntar, "teve aquele episódio que o Lula dá uma torta-bomba pro Bob Esponja, cadê ele?"

Acontece que aquele episódio tinha coisas que esses da lista não tem. Como piadas de fato engraçadas, personagens agindo exatamente como devem agir, e momentos genuinamente tocantes. Esse episódio torna Lula um pouco mais humano. Sim, ele não suporta Bob Esponja, mas ao descobrir o que ele fez ao pobre rapaz, resolve passar o dia todo fazendo tudo que o Bob mais queria. Lula nunca quis matar o Bob, aliás, foi um mal-entendido criado por um pirata ganancioso.

Esses episódios que eu citei... Não são só ruins. Eles chegam a serem danosos. Muitas vezes séries pra criança são subestimados, e por serem "coisa pra criança" são ignorados. Mas justamente por serem pra criança é que eles tem uma responsabilidade imensa.

Do fundo do meu eco, eu não quero acreditar que esses episódios tenham sido feitos por mal. Não quero acreditar que eles foram feitos pra fazer mal às crianças. Quero acreditar que eles são sinal de uma série que pede há tempos pra morrer, porque já deu tudo que tinha que dar. Assim como Padrinhos Mágicos.

E sim, eu defendo muito o que Carl Barks disse sobre o politicamente correto. No entanto, é necessário haver primeiramente um propósito no quão politicamente incorreto você vai ser, e ainda, analisar seu público-alvo e pensar como eles provavelmente vão reagir.

Coisa que a Nickelodeon tá pouco se lixando, bota qualquer merda aí, Sanjay e Craig, Breadwinners, sitoms sem graça, vinhetas irritantemente agudas.

Agora, não vou fazer de conta que não existem bons episódios modernos do Bob Esponja. Eles existem e merecem crédito. Mas não tiram a culpa dos episódios citados aqui.

"Ninguém liga mesmo, são só crianças."


(Obrigado à minha amiga Patty Gunther por ter me incentivado a escrever esse artigo.)