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[Opitorial] Bob Esponja Moderno



Eu amo Bob Esponja. Foi um dos desenhos que marcaram minha infância, engraçado, e com personagens e momentos memoráveis.

Até que em algum ponto a Nickelodeon resolveu fumar um cachorro-quente com purê de batatas e virou a bela porcaria que é hoje, com seus sitoms repetitivos, irritantes, e previsivelmente sem graça.

Sério, desafio a qualquer um a ver a dobradinha "Sanjay e Craig - Breadwinners" sem querer chorar em posição fetal ouvindo "Two Worlds" do Phil Collins.

Em russo.

Mas outro dia falo de Sanjay e Craig e Breadwinners, hora de falarmos sobre os episódios modernos de Bob Esponja.

E já aviso, algumas descrições e imagens podem ser fortes pra algumas pessoas.






Vamos primeiramente falar de alguns episódios onde os problemas são bem mais evidentes.


-A Farpa (The Splinter)

Um plot simples. Uma farpa entra no dedo de Bob Esponja e ele tenta tirar. Simples até demais para um episódio de 11 minutos, que é preenchido por dor, agonia, e exagero gráfico realista demais pra um desenho animado de comédia.



Vejam bem, slapstick é engraçado porque é algo exagerado. Alguém tendo a cara moldada por um golpe de ferro de passar? Engraçado. Explosão que te deixa inteiramente preto? Engraçado. Piano na cabeça? Engraçado. Morto por um piano na cabeça? Pelo amor de Bob Hoskins, tragicamente hilário.

Então, qual o problema aqui?



O problema é que a farpa no dedo é algo extremamente relacionável, e os escritores e animadores se esforçam pra fazer com que as cenas sejam o mais dolorosas possível.
Oh, e a história continua.

Bob esponja vai atrás da ajuda de Patrick, que joga lixo em cima do ferimento, que faz inchar ainda mais e fica roxo.



Logo depois, seu Siriguejo tira a farpa, e saltam confetes dela.
E depois o velho cascudo leva um banho de pus.
...
É sério.

Imagino a conversa dos TRÊS ROTEIRISTAS que escreveram esse episódio.

Nate: Cara, não acha que é demais dar um banho de pus no Siriguejo?
Sean: Verdade, então bota uns confetes antes pra aliviar.
Steven: Galera, "parte da casa" com 6 letras, alguém sabe?


-Um Companheiro Para Gary (A Pal for Gary)


Esse é um dos sinais de burrice extrema dos personagens.

Bob Esponja se preocupa que ele passe o dia fora trabalhando e Gary se sinta sozinho em casa (na verdade Gary fica muito bem comendo porcaria e assistindo faroeste, coisa que qualquer pessoa normal com acesso a YouTube/TCM faria), então ele compra um  monstro de Yu-Gi-Oh pra fazer companhia pra ele.

O problema já começa quando Bob compra o tal bicho, que não escuta a Dona Estranha Cigana dizer que os bichos podem ficar muito agressivos caso eles estejam com outro bicho de estimação.


Gary fica com medo e evita o bicho novo, e Bob entra naquele estado de "ow aprendam a dividir", "Gary não seja mal educado, brinque direito com seu novo amiguinho", etc.

E então Gary começa a fugir do bichinho novo. A noite toda. E Bob Esponja sequer acorda.
Ao acordar, Bob nota a casa com alguns probleminhas (portas e forro caindo, biblioteca pegando fogo, roupas rasgadas) e imediatamente conclui que Gary está com ciúmes.
E então ele encontra Gary na seguinte situação e grita de pavor.


E eu juro, o que ele diz nessa situação é algo que não seria engraçado nem em paródia de desenhos oitentistas.
"Ponha o Fluffy no chão agora! Menino mau, Gary! Menino muito, muito mau!"


...
SEM MAIS PERGUNTAS, MERITÍSSIMO.

Não, nem vou me dar ao trabalho de terminar o episódio. Não. Hm-hm. É daí pra pior, eu juro.
Não tem plot, não tem comédia, personagens fora do personagem, e há uma alta probabilidade de assustar crianças.



-O Bebê Lula (Squid Baby)

Antes de mais nada, esse é aquele mesmo episódio que o Bob e o Patrick cuidam de uma ostra. O que mostra um desgaste geral na série.

O episódio começa com Bob Esponja e Patrick brincando com os brinquedos de Bob de quando ele era um bebê. E depois começam a imitar bebês.
...que jeito de começar.



Então Lula tropeça nos brinquedos, bate a cabeça, que incha, e ele começa a agir como um bebê. Bob Esponja (agora inteligente) acha melhor levar Lula ao médico. Patrick o ajuda, com a cabeça de Lula pendurada e batendo no chão no processo.

E sim, essa informação é necessária, pois esse é um característico "Pornô de Tortura Lula Molusco™".



Em uma série de comédia, normalmente há regras de carma. Se um personagem faz algo ruim, ele deve ser punido. Isso é parte da comédia, de certa forma. Até mesmo mocinhos podem virar anti-heróis, em alguns casos.

Há histórias do Donald onde ele começa impedindo os sobrinhos de irem pescar, e os leva a um torneio de golfe. Nesse momento, ele é o vilão. Até que ele faz uma aposta com Gastão, e os sobrinhos os ajudam a vencer pra irem embora mais cedo. Então agora Donald leva a torcida do leitor, naturalmente.

Normalmente, o Lula está numa posição meio que do Donald. Mas em um PTLM, a lógica é: "se (Lula Molusco); punir (Lula Molusco;)". Sem rima ou razão, sem motivo ou necessidade. Voltarei a esse tópico depois.



Enfim, basicamente o episódio é Bob Esponja e Patrick cuidando de Lula Molusco de uma forma bem semalhante a de tomar conta de um bebê. O que é meio arrepiante se você pensar que é o Lula Molusco. E que eles estão constantemente machucando-o.

Ah, e o Siriguejo diz que não importa se ele tem a mentalidade de um bebê, contanto que ele trabalhe.
O que me leva ao próximo episódio...



-Bob Esponja, Você Está Despedido! (Spongebob, You're Fired!)


Bob Esponja começa o episódio fazendo o trabalho Severino Multiuso de sempre: limpa o restaurante, faz os hambúrgueres, tudo com habilidade ímpar.


Aí Seu Siriguejo chega e demite ele.
Porque?
Porque cortando o salário do Bob Esponja ele vai economizar cinco centavos.
...

Perdão, esse é o mesmo Siriguejo de "Siriguejo Nasce de Novo"? Onde ele vende o Bob Esponja ao Holandês Voador por uns centavos, e depois se arrepende amargamente?

Uma coisa é o personagem ser mesquinho, mas humano.É uma característica que pode gerar muitos momentos engraçados e memoráveis, e também momentos de sincero heartwarming. Tio Patinhas e Julius Rock tão aí pra provar isso.

Mas o Siriguejo atual chega a pontos que o tornam quase um anti-herói, ou mesmo o vilão, como veremos no próximo episódio.



-Refeição Grosseira (One Coarse Meal)




Quem me acompanha sabe que eu gosto de usar analogias ou piadinhas na hora de descrever algumas ideias ou plots. Como Darth Vader sendo o filho do Exterminador do Futuro em Um Herói de Brinquedo.


Pois bem, eu vou tentar ser o mais direto possível. Sem piadas, sem analogias, nem nada.
Seu Siriguejo descobre que Plankton tem fobia de baleias, porque seus ancestrais foram comidos por baleias como a Pérola (ignoremos por um minuto que cachalotes não comem plâncton e que isso provavelmente seria crime nesse mundo).

 Então ele faz uma fantasia de Pérola e começa a perseguir e assombrar Plankton, que chega a se isolar em casa em paranoia profunda, chegando a se estirar no meio da estrada esperando ser atropelado.


Em resumo, Seu Siriguejo persegue Plankton incansavelmente até que Plankton decide se matar.
Seu Siriguejo leva Plankton a tentar o suicídio.
E ainda ri quando Bob Esponja diz que o Plankton está estirado no meio da estrada esperando um caminhão passar por cima dele.
...

Isso ao menos parece um plot de uma série de comédia voltada para crianças?


Porque nem pra humor negro isso serve, é cruel demais, e sem propósito. Siriguejo e Plankton tem um histórico de rivalidade, e só. É como o Tio Patinhas e o Mac Mônei, é um duelo entre cavalheiros (mesmo que Plankton trapaceie algumas vezes), a vitória deve ser por meios estratégicos e de igual pra igual, não por meios sádicos e perturbadores.

Fora que, no final do episódio, Bob Esponja também faz terrorismo psicológico com Plankton (o que contraria o que ele mesmo diz mais cedo no mesmo episódio, que é de boa natureza e nunca faria mal a alguém). E Siriguejo é recompensado no final com... Se livrar de Plankton por um tempo. Ou seja, o episódio não leva a nada, por nada, não é engraçado, e nos faz odiar o Siriguejo por ele estar justamente na posição de vilão maquiavélico.


Além de tratar a depressão e paranoia, além do suicídio como algo banal.

E já que falamos nisso, vamos tirar esse elefante na sala logo.



-"Está Feliz Agora? (Are You Happy Now?)

Esse é um dos episódios que está disponível no próprio site da Nickelodeon e você pode vê-lo dublado e sem peso na consciência.
...kinda.

Antes de tudo, um background. Há uma creepypasta chamada O Suicídio do Lula Molusco, que, se parar pra pensar, ela é ridícula, mas que sim, consegue dar medo em alguns (incluindo este que vos fala). Alguns teorizam que esse episódio veio baseado nos rumores que a creepypasta cita. E, considerando os episódios listados nesse texto, eu acredito. É como se os roteiristas e produtores estivessem implorando pra série acabar, e entraram num modo "eu não ligo a mínima pro que vão dizer, só quero meu pagamento no final do mês" tão alto que faria Silvio Santos repensar seu modus operandi atual.

Oh, well. Para o episódio, então.



Bob Esponja está juntando num álbum todas as suas memórias felizes no Siri Cascudo, e Lula Molusco descobre que não tem nenhuma memória feliz. Então Bob Esponja tenta criar algumas com Lula, levando ele a atividades que ele gosta (relacionadas a arte), que acabam dando errado de maneiras catastróficas, física e psicologicamente pro pobre Lula. (Ainda assim, temos que dar crédito ao Bob, ele pelo menos tá tentando ajudar, da forma certa. Ao contrário de certas estrelas-do-mar, como veremos mais adiante).

Após a última tentativa, Lula Molusco se isola em sua casa, e Bob fica preocupado (levando-o a dizer, aliviado, "Pelo menos vi que ele tá vivo.") E então seguem-se várias piadas que levam o espectador a pensar que Lula vai de fato se matar (o que nunca ocorre).



O que poderia talvez ser engraçado em uma série voltada a adultos, e onde a depressão não seja retratada de forma tão realista (dá pra fazer um baita estudo de semiótica na casa do Lula no estado de depressão). Engraçado porque é algo que te pega de surpresa, mas só. Ainda assim, creio que seria um grupo bem seleto de pessoas que acharia isso engraçado.

O principal problema do episódio é retratar a depressão de forma extremamente realista. Não sou contra programas voltados a crianças falarem sobre problemas do mundo real, ou de forma realista, mas precisa-se de um estudo ao redor do tema, e testes. Sesame Street engavetou um episódio onde seria abordado o divórcio por quase 20 anos, porque sentiram que havia muitas falhas no roteiro, e as crianças que participaram dos testes não entenderam a mensagem. Do mesmo modo com o episódio da morte de Mr. Hooper . Há estudos, há pesquisa, há consultoria, para que nada seja traumático, ou assustador, ou que passe a mensagem errada.

Mas aqui, como eu falei, a produção ligou o modo "dane-se, só quero meu pagamento no final do mês". "Falem bem, falem mal, mas falem de mim."



E mais, em isso tudo que falei acima, eu desconsiderei de que BOB ESPONJA É UMA SÉRIE DE COMÉDIA. Puramente comédia. Não precisa adentrar profundamente na psique dos personagens, não precisa ter plots megalomaniacamente complexos, só um slice of life surrealista e nonsense. "Ah mas Friendship is Magic adentra a psique dos personagens" Mas Friendship is Magic faz isso de forma certa, nunca vai tão longe, ou dá traços tão bizarros (a menos se você for um 4channer procurando demais), e é uma série mais voltada a aventura, podendo ter um balanço entre aventura e comédia.

Sim, Bob Esponja também tem seus episódios mais de aventura, mas ainda assim, a veia cômica é mais forte. É o mal entendido, as missões absurdas que são passadas aos personagens (como no episódio da Pizza do Siri Cascudo, é uma aventura, mas é levado a níveis nonsense). FiM tem que manter o equilíbrio entre a aventura/slice of life e a comédia (e o faz muito bem), personagens complexos vem no pacote. Em comédias, os personagens precisam ser pelo menos sólidos o suficiente para serem engraçados, complexidade é um fator extra.

Uma coisa é alterar, por exemplo, os dias de feriado do Siri Cascudo em prol do plot, outra é...



-"A Figurinha" (The Card)

...isso.



Eu sei, muitos de vocês se lembram desse, eu lembrava vagamente, na verdade.
O plot é o seguinte: Bob Esponja faz coleção das figurinhas do Homem Sereia e o Mexilhãozinho, e há uma figurinha raríssima, holográfica, e com som. Bob Esponja gasta todas as economias comprando quase todos os pacotes em busca da tal figurinha, mas não encontra. Patrick compra o último pacote, e nele vem a tal figurinha.

Então Bob Esponja faz um acordo com Patrick de no final do dia, a figurinha passar pra ele. O problema é que o Patrick usa a tal figurinha o dia todo em diversas situações (de palitar os dentes a fazer churrasco), todas na frente de Bob Esponja, assistindo a agonia de seu melhor amigo, que chega a chorar ruidosamente em certo ponto. E Patrick não dá a mínima.


E no final, a figurinha vira pó, e Patrick diz que se o Bob quisesse, era só ter pedido mais, porque o pacote dele veio com 5 figurinhas daquela.

Oh, e há certo ponto no episódio onde Patrick faz uma burrada que põe em risco a figurinha, Bob Esponja pergunta o porque daquilo, e ele responde "Você não pode esperar sempre meu mesmo nível de estupidez, eu gosto de misturar".


Não é uma boa desculpa quando você tortura psicologicamente seu melhor amigo, fazendo-o mover mundos e fundos pra salvar a figurinha tão amada, que aliás, também devia ser bem cuidada pelo Patrick, que também é um grande fã de Homem Sereia e Mexilhãozinho.

O que me leva a crer que ele fez tudo isso de propósito, caso contrário o episódio terminaria com "toma, pega outro, veio 5 dessas no meu pacote".
Mas então, o próximo episódio...



-"Presos Nos Rolos Espremedores" (Stuck in the Wringer)


...consegue ser ainda pior.

O episódio começa normal, um típico dia na vida de Bob Esponja. Tomar banho, se secar no rolo espremedor. Aí ele fica preso no rolo espremedor.

Normalmente isso seria uma gag normal, e sim, devo admitir que tornar ela ser o foco do episódio é uma jogada interessante.

Até o momento que o Patrick chega pra ajudar e passa cola permanente no Bob Esponja.

...perdão, o quê?


COMO RAIOS ALGUÉM CONSEGUE SER TÃO IDIOTA ASSIM?

Patrick era um cara idiota, mas ele não chegava ao nível criminal. Isso porque esse artigo já tá imenso e vou poupar vocês de "Pat, Babá de Mascotes" (Pat Sitter Pat), porque ele é meio que remake do "Um Companheiro para Gary" com Patrick como vilão.

Enfim, IT GETS BETTER!

Bob Esponja não consegue trabalhar direito e acaba machucando quem está ao redor, e Patrick tenta ajudá-lo levando-o ao parque de diversões.

Onde Bob é surrado por tudo e por todos, e Patrick fica de boas. Até que Bob surta e briga com Patrick (tendo uma multidão como plateia). Bob está certo em ficar com raiva de Patrick, claro.
Mas Patrick sai chorando dizendo "Eu só queria ajudar!", o que faz a multidão ficar com pena do CARA TODO LASCADO E QUE QUASE MORREU POR CULPA DO OUTRO. Qual é a lógica? O cara que saiu chorando tá certo porque ele tá arrependido, porque ele quis ajudar? O cara lascado e que quase foi morto tá errado? E eles ainda dizem que a culpa é do Bob e o fazem se sentir culpado! Onde se passa essa história, no Brasil?


Eu senti uma genuína vontade de socar cada um daqueles personagens na multidão, sério mesmo.
Ah, e o final. Patrick chora arrependido e as lágrimas soltam Bob Esponja.

Então, crianças. O que aprendemos hoje? Que chorar resolve seus problemas, afinal.

...não, é sério. O Bob diz exatamente essas palavras. Olhando pro público.

Eu nem consigo fazer uma piada com isso.



-"Visita Do Lula" (Squid's Visit)



Começa com Bob Esponja chamando Lula Molusco pra ir na sua casa, e Lula educamente recusa. Bob Esponja então começa a chorar agarrado aos pés de Lula, seguindo-o por todos os cantos (primeiro sinal do episódio).

Patrick sugere que Bob Esponja pegue emprestado (a.k.a. roubar) algo do Lula pra que o force a ir pra casa dele.

Lula ouve barulhos e vê um bilhete de Bob dizendo que levou o aspirador de pó dele. Lula vai pra casa de Bob pra pegar de volta, e a casa de Bob está exatamente igual a de Lula.
É uma exata réplica.

Bob Esponja ficou tempo demais na casa de Lula pra copiar o menor dos detalhes, inclusive o bordado da mãe de Lula. Bob age como se fosse um stalker do tipo mais perigoso, quase um estuprador, por assim dizer. Ele ouve um "não" e entende como "sim" e ninguém vai impedir ele de agir como quer e ouvir o que quer.

Além de  torturar psicologicamente o Lula Molusco, no final a casa original é queimada.
Ou seja, Bob Esponja é um stalker doente.



-Ignorante na Corrida (Demolition Doofus)

E como a cereja do bolo, esse episódio. Que assim como "Você Está Feliz Agora?", está no site oficial da Nickelodeon (a partir de 11:40).



Começa com Bob Esponja indo pra (mais uma) prova de pilotagem, até que por ele ser um imbecil retardado ele bate nos carros ao (tentar) fazer a baliza, incha a Sra. Puff, e explode o carro.
Batendo no farol.

No hospital, o médico explica que a bexiga inflatória ou algo assim estourou e que a Sra. Puff nunca mais vai poder inflar de novo.
Aí o Bob Esponja faz piada e a Sra. Puff tenta esganar o nariz dele.



Justo, se me perguntar. Bob Esponja aqui é aquele cara desagradável que pergunta pro outro que faz tratamento de câncer "Tá fazendo quimioterapia? Massa, bixo! Na federal?"

E durante TODO o episódio a Sra. Puff faz questão de deixar bem claro que não quer de jeito maneira Bob Esponja por perto, e ele age como se nada estivesse acontecendo.

E embora eu compartilhe (nesse caso) do desejo da Sra. Puff de dar umas mãozadas no Bob, ela leva sua ira além.


Ela descobre sobre as corridas mortais de carros-monstro, e pensa em mandar Bob pra lá.
Ok, essa imagem pode ser só metafórica, certo? Ela não seria tão cruel assim.

Certo?

CERTO??


A luta começa e ao ver que Bob continua intacto (mesmo sem não fazer ideia do que está acontecendo, diga-se de passagem), ela começa a gritar coisas como "Isso não está certo", "Esmaguem o Esguichador" (apelido dado a Bob na luta), e, o que mais me chocou, no original em inglês (porque foi adaptado pra fazer um trocadilho em português), "Porque ainda está vivo?"

Prestem atenção nessa frase. Não "Porque ainda está de pé", ou "Porque não está ferido". "Vivo" é a palavra usada. Sra. Puff quer literalmente, exatamente, diretamente, ver Bob Esponja morto, sem alma, enterrado. E se bobear, vai passar o enterro todo gargalhando.

Hey, Seu Siriguejo também sentiu um prazer delirante ao torturar Plankton, não duvido que eles fariam a mesma coisa aqui.

Bando de mentecaptos.



E então Sra. Puff resolve que "se [CENSURADO] não vai à montanha, então a gente passa por cima dela quebrando geral".
E no final Sra. Puff volta a inflar, mas a escola de pilotagem é reduzida a pó no processo de perseguição.

Ou seja, nada com nada chega a nada.


Eu não vou mentir. Esse foi um dos episódios mais difíceis de assistir, pessoalmente. Eu sempre tive um apreço pela Sra. Puff, justamente por ela ser aquela professora de escola pública brasileira, que nunca desiste de seus alunos pelo amor de ensinar.

"Mas Capão", você pode se perguntar, "teve aquele episódio que o Lula dá uma torta-bomba pro Bob Esponja, cadê ele?"

Acontece que aquele episódio tinha coisas que esses da lista não tem. Como piadas de fato engraçadas, personagens agindo exatamente como devem agir, e momentos genuinamente tocantes. Esse episódio torna Lula um pouco mais humano. Sim, ele não suporta Bob Esponja, mas ao descobrir o que ele fez ao pobre rapaz, resolve passar o dia todo fazendo tudo que o Bob mais queria. Lula nunca quis matar o Bob, aliás, foi um mal-entendido criado por um pirata ganancioso.

Esses episódios que eu citei... Não são só ruins. Eles chegam a serem danosos. Muitas vezes séries pra criança são subestimados, e por serem "coisa pra criança" são ignorados. Mas justamente por serem pra criança é que eles tem uma responsabilidade imensa.

Do fundo do meu eco, eu não quero acreditar que esses episódios tenham sido feitos por mal. Não quero acreditar que eles foram feitos pra fazer mal às crianças. Quero acreditar que eles são sinal de uma série que pede há tempos pra morrer, porque já deu tudo que tinha que dar. Assim como Padrinhos Mágicos.

E sim, eu defendo muito o que Carl Barks disse sobre o politicamente correto. No entanto, é necessário haver primeiramente um propósito no quão politicamente incorreto você vai ser, e ainda, analisar seu público-alvo e pensar como eles provavelmente vão reagir.

Coisa que a Nickelodeon tá pouco se lixando, bota qualquer merda aí, Sanjay e Craig, Breadwinners, sitoms sem graça, vinhetas irritantemente agudas.

Agora, não vou fazer de conta que não existem bons episódios modernos do Bob Esponja. Eles existem e merecem crédito. Mas não tiram a culpa dos episódios citados aqui.

"Ninguém liga mesmo, são só crianças."


(Obrigado à minha amiga Patty Gunther por ter me incentivado a escrever esse artigo.)


[Opitorial] Sobre Haters e Saban



Eu não queria ter que falar nesse assunto tendo como motivo certas coisas que aconteceram recentemente. É um assunto bastante interessante, e que eu adoro estudar, debater, e pesquisar.

Mas aparentemente eu preciso começar do começo.




No início dos anos 90, Haim Saban viu que séries tokusatsu tinham um certo apelo na Europa, e decidiu tentar fazer a mesma coisa nos EUA.

Então ele fez um acordo com a TOEI de usar as cenas e roupas japonesas e misturar com cenas produzidas pela empresa dele, nascendo assim Power Rangers.




A tática não era nova, entretanto. Godzilla de 54 teve o mesmo tratamento na época.

E as crianças gostaram, foi um sucesso absoluto, uma verdadeira febre com direito a até música de Sandy e Júnior em terras brasileiras.

O Brasil já tinha recebido dois booms de tokusatsu: o dos anos 60/70, com National Kid, e o da geração Manchete, com Jaspion, Changeman, etc.



Com a chegada de Power Rangers no Brasil, muitos ficaram "olha só os americanos fizeram uma série tipo Changeman", e pouco se sabia das origens da série.

A história era passada pouco a pouco, chegou na revista Herói e aí é onde eu acredito que começou-se a criar um certo ódio de Power Rangers, porque os fãs se sentiram "traídos", eu imagino.

E após a chegada da internet, essa informação se espalhou mais rapidamente e, consequentemente, o número de haters aumentou.



Eu compreendo totalmente que se odeiem Power Rangers. O nome da franquia carrega uma gama de significados, dentre eles "série tosca" e "infantil". Como eu já falei aqui, não há nada errado em ser infantil.

Mas, como eu falei, a palavra carrega uma série de significados, em geral nem todos bons. Nesse caso, eu aconselharia a preparar um discurso rápido explicando a história da franquia. Adotei essa postura há anos e nunca pretendo mudar.

Você tem todo o direito de odiar Power Rangers. No entanto, me sinto obrigado a levantar alguns pontos.



-Se você gosta do tokusatsu da Toei atualmente e odeia mortalmente Power Rangers, você é um(a) mal-agradecido(a). Como eu falei, Power Rangers aumentou bastante os lucros da Toei, possibilitando que ela investisse mais nas séries.

-Power Rangers possibilita que fãs com pouco dinheiro e/ou não confiam na internet pra fazer compras, adquiram os bonecos. Sim, alguns vêm estranhos, mas ultimamente têm vindo diversos bonecos com muita qualidade, bastante articulados, até. E se o boneco tiver o tipo físico de montanha (como é em algumas ilustrações de PR), então é só não comprar.



-Há a possibilidade de vir uma série boa, ou até melhor que a original. E Power Rangers RPM tá aí pra provar isso. Não vi a série inteira, mas ela introduz elementos que não se vê tanto no próprio tokusatsu como um todo, como um mundo pós-apocalíptico, um tom mais sério, e quebra de alguns clichês, e ao mesmo tempo sabe quando não se levar tão a sério.

E se vir uma série ruim, apenas fazer o que um entusiasta comum faria: apontar erros e acertos e debater com outros entusiastas como melhorá-los, trocar ideias.


No entanto, recentemente presenciei algo que é quase surreal. Uma página chamada Herosatsu, administrada pelo Red Turbo, teve uma atitude ditatorial e anti-democrática, ao apagar comentários que simplesmente discordavam das ideias do dono.

Postagem do Herosatsu

Diversos comentários, apresentando argumentos contrários aos apresentados na postagem. Isso porque Red Turbo pregava a prevalência do "tokusatsu original", e repudiava qualquer obra adaptada.

...isso é tão errado em tantos níveis...

O que o Red Turbo acredita é que Power Rangers não é tokusatsu pelo simples fato de ser uma adaptação.
O que é uma estupidez.

Ora, se as cenas de luta (vindas de séries japonesas) tem sua ligação dentro da história criada, então elas formam um conjunto de estrutura semelhante ao das séries japonesas.

Então, se Power Rangers, que se baseia em Super Sentai em todos os aspectos possíveis, não é tokusatsu, então o Super Sentai também não é tokusatsu.

O mesmo pode ser aplicado a Dragon Knight, Masked Rider, France Five, Insector Sun, Guerreiros Místicos de Tir Na Nog, Jovens Guerreiros Tatuados de Beverly Hills, os filmes e a série live action das Tartarugas Ninja, e Bibleman.
Note que eu não estou debatendo a qualidade das séries, mas simplesmente a classificação. The Cat in the Hat (2003) é um ~>PÉSSIMO<~ filme de comédia, mas a estrutura e desenvolvimento apresentados mostra que tenta ser uma comédia.

E os comentários eram bastante embasados, um deles até dizia que porcausa de PR, Zyuranger vai chegar em DVD nos EUA, e estava até esperançoso de vir novas séries.
Mas ele cometeu o terrível crime de discordar da opinião de Red Turbo.



E no entanto ele apagou praticamente todos, restando apenas uns poucos, e o resto de mensagens de apoio a ele.
E ainda deixou um comentário na postagem dando a entender que "os fãs de PR não aceitam a opinião dele de que PR não é tokusatsu e por isso vem xingar".

...indeed.

Enfim, esse foi um dos principais motivos para eu escrever essa postagem. Achei que não houvessem mais pessoas com esse tipo de pensamento (ou maturidade, ou a falta dela), mas aparentemente eu estava enganado.

Escrevi essa postagem para fazer esses haters extremistas pararem e pensarem um pouco no que estão fazendo. Isso é uma atitude que não deveria ocorrer com indivíduos adultos, e eu sinto que alguém precisava falar algumas coisas em voz alta.

A postagem original está no link https://www.facebook.com/Herosatsu/photos/a.347260105382471.74005.347255258716289/655976187844193/
Os comentários apagados estão registrados nas imagens abaixo. As identidades foram preservadas em respeito à privacidade de quem postou, espero que entendam.
(Clique para ampliar)


 

 

 

 
 


 

[Opitorial] Sobre a Resolução 163 e a Publicidade pra Crianças




Muito se tem falado sobre a nova lei do CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), sobre a publicidade voltada a crianças. Inclusive, tem-se feito terrorismo sobre ser "Uma norma pra acabar com os quadrinhos nacionais". O que não é de todo mentira, mas é um título sensacionalista. A poeira baixou (pelo menos até onde pude ver), mas ainda sinto que é necessário falar algumas coisas.

Nesse texto, eu pretendo traçar algumas ideias sobre toda essa marmota.





Ok, então, pra início de conversa, o que é o CONANDA?
É um órgão vinculado à Secretaria dos Direitos Humanos que atua como instância máxima de formulação, deliberação e controle das políticas públicas para a infância e a adolescência na esfera federal, fiscalizando o cumprimento e a aplicação eficaz das normas do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Ou seja, ela pode criar políticas para proteger as crianças e adolescentes segundo o ECA.
Então, o que ela fez que causou tanto rebuliço? A Resolução 163. O que ela diz? Ela torna abusiva o direcionamento de publicidade a crianças.

Isso inclui personagens, desenhos, bonecos, apresentadores, música, ou qualquer outra coisa com apelo para crianças.

Apenas nesse ponto já podemos fazer alguns questionamentos, mas voltemos a ele mais tarde.

Essa Resolução apresenta alguns problemas... Sim, ela tem boas intenções, proteger as crianças de abusos, não incitar a violência e etc. No entanto, algumas questões devem ser levantadas.


1-Segundo o site defesa.alana.org.br, o CONANDA considera a publicidade infantil "(...) se aproveita da vulnerabilidade da criança para persuadi-la ao consumo de um produto ou serviço, desrespeitando sua condição de indivíduo em desenvolvimento e atentando contra seu direito à inviolabilidade física e psíquica, além de contribuir para o aumento de problemas sociais como a obesidade infantil, a violência, a erotização precoce, dentre outros."

Uhm... Não é isso que quase toda propaganda faz? Não é o certo a se fazer (segundo o Código de Defesa do Consumidor), mas sabemos que nas entrelinhas é isso que elas normalmente fazem.

Digo, digo. Vamos por partes. Uma propaganda te diz pra comprar produto X porque senão você não vai ser "descolado, moderno", etc. E ela não diz explicitamente com eu coloquei, apenas mostra cenas de pessoas alegres, jovens e bonitas consumindo o produto.




E sinceramente, eu vi SIM muitas propagandas pra crianças nesse sentido, em especial voltados pra meninas, sobre maquiagem e etecéteras de "beleza".

Raios, no meu tempo (até onde lembro) não era comum ver meninas de 12-14 anos usarem maquiagem (como hoje vejo pirralha de 6 anos que mais parece o Palhaço Macarrão e se acha ~DYVA~).  Então, nesse ponto, a medida é boa, certo?

...eeeeehm.

Digamos que você, indivíduo mentalmente adulto, vê uma propaganda de suquinho, mostrando pessoas alegres e com energia bebendo o suquinho, o que você faz? Você entra em depressão se não tomar o suquinho porque quer ser "da galera" ou você diz "meu Deus que propaganda cartunescamente ridícula" e muda de canal?

"Ah mas uma criança não sabe diferenciar realidade de propaganda" Segundo o ECA, "criança" é o indivíduo até 12 anos. Com 10 anos já deve ter uma boa noção do que é certo e errado, então não é um indivíduo imbecil. Então, de 12 anos pra baixo, já deve ser ensinado à criança de que "o gato Tom leva martelada na cabeça, mas porque ele é um desenho e desenhos não se machucam". Então, qual a dificuldade de ensinar à criança a mesma ideia quanto à propagandas? É até mais fácil de explicar se ela já tiver o repertório dos desenhos animados e seriados.

"OOOOHHH NÃO OS BIXIM NÃO PODE SE EXPOR À VIOLÊNCIA TOM E JERRY PICA PAU MUITO VIOLENTOS OOOOH"

Vá à merda.

Não, sério. Vá. À. Merda.

Não pra você que pensa assim, mas pra essa ideia.



Tom e Jerry, Pica Pau e variantes são desenhos que admitem a dor como parte da vida, e de certa forma, nos ajudam a conviver com ela. E são mostradas de uma forma tão cartunescamente irreal quanto a "violência" de Power Rangers. Claro que há crianças que não suportam ver o gato Tom sofrer tanto (e há quem considere Jerry o vilão, mas isso é assunto pra outro dia), mas isso varia de indivíduo pra indivíduo.

Tem criança que consegue ver filme de terror (embora eu acredite que não seja saudável), enquanto outras ficam com medo até de coisas que normalmente crianças não tem medo (sim Tv Cultura, estou olhando pra você e pros seus porcos do Rá-Tim-Bum).

"Ah mas ela vai influenciar negativamente meus filhos" E cadê VOCÊ assistindo com ele, dizendo e perguntando o que é certo e errado? "É certo bater nos outros, meu filho?" "Ó, isso aí que ele tá fazendo, é certo?" Talvez, sei lá, EDUCAR seu filho. É, talvez isso seja necessário, caso não tenha pensado nisso quando soube que ia ser pai/mãe.

Televisão e escola NÃO substitui a SUA educação. Elas não existem pra você jogar eles lá o dia todo esperando que eles se formem pra vida e se tornem um excelente ser humano! Na visão desses pais imbecis, se o guri chega em casa falando palavrão e xingando, "a culpa é da tv", se ela tira nota baixa nas provas, a culpa é do professor que não sabe ensinar. Ao invés de, primeiro, ver como ele tá educando o filho, as conversas que ele anda tendo, saber que dificuldades tá tendo na escola, o que anda assistindo...

A culpa é SUA que não ensinou a ele a não ser uma esponja e a culpa é SUA de não acompanhar os estudos dele ou de deixar ele o dia todo na tv ao invés de estudar.  NÃO USE QUALQUER COISA COMO BODE EXPIATÓRIO PRA SUA CULPA, SUA IGNORÂNCIA!

O que me leva ao próximo ponto.



2-De novo, segundo o Alana, "Toda publicidade que até então tinha como alvo o público infantil deve ser alterada e direcionada ao público adulto, o qual é o verdadeiro responsável por fazer a devida mediação da mensagem comercial com as crianças."

Aaahh, entendi. Então ao invés de dizer à criança "Você precisa desse boneco pra ser feliz", vamos dizer "SEU FILHO precisa desse boneco pra ser feliz".

Hm. Muito bem. Não, ok, ok, tá tud-ISSO É ESTÚPIDO PRA RAIO!

Ok, ok... *respira* Vamos analisar com calma. Algo parecido já vem sendo feito há MUITO tempo.
Alguns mais velhos (que eu) devem se lembrar das histórias contadas por telefone, que diziam pras crianças pedirem autorização dos pais. Ou, mais recente, cards de Pokémon e jogo online de BeyBlade que diz a mesma coisa, mas pra internet (sendo que o comercial de BeyBlade era feito com adolescentes maiores de 16 anos, num clima bem mais de torneios ilegais que se vê nos filmes, ou seja, eles tentavam pegar um público-alvo maior, mas ainda mantinham as crianças no foco).

 


Ou seja, se há alguma chance da criança estar lidando com algo que ela desconheça (seja custo de ligação de telefone, internet, ou fazer tekitos), eles mandam pedir ajuda/autorização aos pais.

Em teoria, esse ponto não tá errado. No entanto, quem vai consumir o produto, são as crianças ou são os pais?

Se é pros pais, que se faça voltado pros pais. Se pras crianças, que se faça voltado pra elas, que elas se encarregam de chegar no pai e dizer "pai eu quero isso" e o pai vai analisar a situação do produto e/ou financeira pra dar a palavra final.

...porque isso é tão difícil de entender?

Criança não trabalha, então não ganha dinheiro. O máximo é ganhar mesada, mas aí cabe aos pais decidir quanto vai ser, com que periodicidade, e quando a criança vai ter maturidade pra saber gastar.



3-A norma proíbe relacionar os produtos com personagens com apelo ao público infantil.

Como eu falei no início, personagens, desenhos, bonecos, celebridades e músicas com apelo às crianças estão banidos.

...me corrijam se estiver errado, mas isso seria o mesmo que proibir a Sabrina Sato de aparecer num comercial de motos. Se ela faz parte o público alvo das motos, não é lógico botar ela pra chamar atenção?

Isso não é publicidade básica? Bote algo que seja do interesse do público-alvo como isca pra então fisgá-lo com seu produto, ou pelo menos com a imagem/música/etc relacionado ao produto?
Então... Porque? Isso sequer faz sentido, e ainda por cima, nos traz àquela velha tecla batida por todo mundo que eu vi reclamar dessa lei:

NÃO VAI TER MAÇÃ DA TURMA DA MÔNICA!

*DUN-DUN-DUUUUUUUN*

Não só a Maçã da Turma da Mônica, mas também qualquer produto que traga junto um personagem/celebridade com apelo ao público infantil.

O que me leva a pensar que "público infantil" é um termo extremamente vago.

Veja bem, o Superman é um personagem com apelo ao público infantil. Crianças adoram ele, querem ser legal como ele, etc. No entanto, se essa lei for realmente reinar com mão de ferro, imagino se vai deixar de existir camisetas/canecas/etc do Superman feito pra você, leitor de HQs/cinéfilo/fã de longa data do Superman.

Ou as bonecas de My Little Pony do Mac Donald's, que tem forte apelo com o público infantil, mas que também tem sua base de fãs nos seus 20 anos.

Isso pra não falar nos bonecos/capas de gibis/alimentos.
Porque segundo a Resolução, se o personagem está num produto ou está ajudando a vender ele, está "persuadindo a criança e se aproveitando da pobre flor frágil que não pode sequer levar uma palmada ou ser contrariada a comprar aquilo".

Quanto à lei em si, ela NÃO é de todo ruim. Ela é feita com boas intenções, sim, e tem pontos como não incitar a violência. No entanto, a filosofia por trás dela é que me irrita.

Basicamente, ela exclui o papel dos pais, por, ironicamente, fazer que a propaganda seja voltada para os pais.

Que há propagandas pra crianças abusivas? Claro que há. Não só pra crianças, propaganda para todos os públicos imagináveis. Algumas mais diretas, outras menos diretas. Assistam 5 minutos das propagandas da Polishop e verão o que eu quero dizer.

Na verdade, as propagandas pra criança que costumeiramente passam vem com avisos como "movimentos produzidos por computador". Imagina se propagandas de maquiagem decidissem fazer algo parecido e narrassem "resultados produzidos por computador"?



E a própria Lei do Consumidor já deixa claro que as propagandas devem "primar por uma apresentação verdadeira do produto ou serviço oferecido, esclarecendo sobre suas características e funcionamento, considerando especialmente as características peculiares do público-alvo a que se destina".

Ora, se ele manda considerar as características peculiares do público-alvo, porque não só aumentar fiscalização em cima disso, NÃO SÓ PRA PROPAGANDAS INFANTIS, ao invés de "CORTA TUDO MANDA PRO LIXO"?

Criança não é burra, criança entende das coisas. Basta que alguém as ensine a diferença entre a realidade e a ficção/propaganda. Mas o que esses inteligências querem é justamente diminuir o trabalho dos pais (que, convenhamos, a maioria já está sendo muito preguiçosa no quesito "educar os filhos") de ensinar pra que a criança receba tudo mastigadinho porque ela é "muito vulnerável".

Além do Estado querer intervir na criação dos filhos (com a "Lei da Palmada"), agora vem com essa estúpida filosofia. Isso porque eu nem me demorei no fato de que isso vai praticamente matar a indústria de desenhos animados, gibis, bonecos e variantes no Brasil, já que não vai ter publicidade pra eles. Já não temos desenhos na TV aberta há alguns anos (o monopólio das manhãs ficou com o SBT com aquela porcaria que o Bom Dia e Cia. se tornou. Falo sobre isso outro dia, me cobrem. É sério.).



Então, resumindo a ópera. O Estado proíbe os pais de punirem seus filhos, praticamente diz "seu filho é incapaz de pensar por si próprio até os 17 anos, então cabe a você ver as propagandas dos produtos que ele TALVEZ queira, igual a gente faz com bebezinho", o que causará a passos lentos (ou não) a morte de produções audiovisuais pra crianças e adolescentes no Brasil. O Estado diz como você deve criar seu filho, se você disciplinar a criança já é abuso e você é um criminoso; se passa uma propaganda anunciando o boneco do Max Steel sugerindo um cenário de brincadeira, "a criança é incapaz de diferenciar a realidade da propaganda" (mesmo que o narrador fale o tal aviso que eu mencionei). Ou seja, ele nos diz pra criar a criança numa redoma de vidro sem nunca fazer elas pensarem, nem disciplinar elas como elas fazem por merecer, nos levando a um estilo de vida que louvaria os pais que precisam de ajuda da Super Nanny.

E ainda me perguntam porque eu não quero ter filhos.

Concorda? Discorda? Quer mandar uma ameaça de morte? Deixe nos comentários abaixo.

Fontes:
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4026&titulo=Uma_norma_para_acabar_com_os_quadrinhos_nacionais

http://defesa.alana.org.br/post/82994668848/entenda-a-resolucao-que-define-a-abusividade-da
http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=4&data=04/04/2014

http://www.feedbackmag.com.br/a-lei-da-publicidade-infantil-e-como-ela-afeta-a-producao-cultural-para-criancas-no-brasil/

Agradecimento à Nanda  Bender do http://arcaderabiscos.blogspot.com.br/ que achou as imagens das tele-histórias.